domingo, 17 de outubro de 2010

Voo 1956 QUE FIQUE PARA A HISTÓRIA.





Rosa Serra

Alf.Paraqª.
Parede



A enfermeira Maria Arminda, uma das 6 Marias, pediu-me para enviar este seu testemunho sobre a sua grande amiga Zulmira. Aqui vai tal como ela o escreveu.





Maria Arminda
Ten.Paraqª


Gostava de dar este testemunho aos ESPECIALISTAS DA BA12 e por este meio exprimir o meu apreço ao camarada Victor Barata e sua equipa que em boa hora criou esse espaço de convívio entre todos os que passaram pela ex Guiné Portuguesa,ao serviço da FAP e hoje por intermédio do seu blogue, partilham pedaços de vida e vivências de há muitos anos, sentidas por cada um de nós nesse país africano, reforçando e unindo cada vez mais, antigas amizades.


Legenda:Durante o 32º Encontro dos Especialistas da BA 12,em Vouzela, no dia 29.5.2009,o Victor Barata entregando uma lembrança à Enfª.Céu Pedro. Este acto foi extensivo a todas as enfermeiras Páraqª.presentes,simbolizando uma simples mas significativa homenagem às nossas "Mulheres de Guerra".
Foto:José Teixeira(direitos reservados)


Como não domino as novas tecnologias da informação e não me é possível fazer alguma aprendizagem por agora, pedi à Rosa Serra que transcrevesse este testemunho que há muito gostaria de o ter feito.
Fez no passado dia 12 de Outubro um mês que a minha colega e amiga de todos nós, Maria Zulmira, nos deixou fisicamente. Todavia, nos nossos corações ela permanecerá, e não a esqueceremos tão depressa.
Além de ser a minha grande amiga, camarada, e comadre considerava-a como irmã, o que aumenta a minha saudade e tristeza por não a ter-mos entre nós.
A morte faz parte da vida de todos. Aos poucos e conforme Deus quer, vai levando uns e outros e ao nosso grupo o mesmo acontece sem que nada possamos fazer.

Legenda:Em pleno teatro operacional na Guiné,a Zulmira na companhia da Rosa Serra,confraternizando uns momentos de boa disposição com os militares que na mata cumpriam a sua missão.

Como sempre refiro: - A vida São os Dias que nos Lembramos. - Quando o contrário acontece em que já não estamos cá fisicamente ou a nossa memória partiu para outros universos de pensamentos, a vida deixa de ser real.
São essas as razões porque a memória dos Homens, anda por vezes distraída mas enquanto a minha não se ausentar totalmente quero, não só recordar mas ainda para que fique para a história, pelo menos como registo neste blogue, quem foi a Enfermeira Pára-quedista que assistiu e tratou o Capitão do Exército Cubano ao serviço do P.A.I.G.C. – Pedro Rodriguez Peralta, ferido e evacuado da zona do Guileje.
Sempre que se fala da captura do Capitão Peralta, fico muito triste e decepcionada.
Na recente publicação pelo Jornal Correio da Manhã, intitulada “As grandes Operações Militares da Guerra Colonial “ e até noutras publicações anteriores por outros órgãos de comunicação social, são referidos os nomes dos oficiais que planearam e executaram a “Operação Jove” realizada em 18 de Novembro de 1969 pelas Tropas Pára-quedistas na zona do Guileje. Foi nessa operação que foi ferido e capturado o referido oficial cubano e mais não dizem ficando a narrativa incompleta.
Quando foi solicitada, pelo Sr. Capitão Pára-quedista Bessa uma evacuação urgente, foi enviada de helicóptero uma enfermeira pára-quedista a quem foram dadas ordens expressas,para fazer tudo, mesmo tudo o que estava ao seu alcance para salvar aquele ferido que se encontrava em péssimas condições físicas e em estado de schoke, não podendo falhar nada para que o doente chegasse vivo ao hospital e em condições gerais estáveis para ali ser intervencionado de imediato.
A enfermeira iria fazer o que sempre fez aos feridos em situações semelhantes, mas a carga emocional foi grande pelo tom imperativo que envolveu a recomendação.
Logo que o ferido lhe foi entregue procedeu de forma adequada estabilizando o seu estado geral, terminando com a colocação do seu casaco de camuflado para o aquecer até chegar ao hospital.
No fundo não fez mais do que fazia habitualmente; a carga emocional é que foi muito maior, porque ela sentiu o peso da importância daquela vida para os militares envolvidos na operação, a importância para a própria organização militar e logicamente para o país, dadas as características do prisioneiro ferido. Só começou a aliviar o seu stress depois de o entregar no Hospital Militar de Bissau, vivo e em condições para novas intervenções só feitas a nível hospitalar.
Parece que a enfermeira não teve importância nenhuma, muito menos mérito nenhum em toda esta história
Nós éramos tão poucas, não seria difícil aos investigadores e autores dos artigos informarem-se dos nomes da enfermeira, do piloto e eventualmente do mecânico, que tal como a enfermeira passaram por níveis acrescidos de stress na missão deste acontecimento muito especial e que foi sem dúvida com grande mérito para as nossas tropas, tendo ficado por esse facto, na história da guerra da Guiné.
Para que conste e para que pelo menos fique registado nos ESPECIALISTAS DA BA 12 o nome da citada enfermeira, - Maria Zulmira Pereira André -, Tenente graduada Enfermeira Pára-quedista, a enfermeira que foi buscar nas matas do guileje o Cubano, Senhor capitão Peralta.
Tenho pena de não referir os nomes do piloto e do mecânico porque na questão de evacuações, éramos um todo, cabendo a cada um a sua tarefa específica, complementávamo-nos para que a missão fosse bem sucedida. Mas também eu desconheço quem foram eles.
Sempre que falava com a Zulmira sobre este acontecimento e que ia dizer aos distraídos que tinha sido ela a tal enfermeira, respondia-me com esse seu modo conciliador” deixa lá Maria Arminda, não te aborreças, não tem importância nenhuma não falarem de mim, isso hoje não interessa, já passou.
Não é bem assim minha amiga e agora que já não estás entre nós, tomo esta atitude para honrar a tua memória, pela pessoa boa que sempre foste, pelos amigos que fizeste, pelo extraordinário desempenho profissional e com espírito de missão que sempre puseste ao serviço de todos.
Grata pela oportunidade de dar a conhecer este pormenor da “Operação Jove” e da importância que a Enfermeira Zulmira André teve na vida do Capitão Peralta e na projecção do êxito da mesma captura pelas tropas pára-quedistas.

Com os meus Cumprimentos

Maria Arminda

Ex tenente enfermeira pára-quedista

VB. Foi no passado dia 29 de Maio de 2009 que tive o grato prazer de conhecer e abraçar a Maria Arminda. Já o mesmo não poderei dizer em relação à Zulmira pelo facto de não poder estar presente, salvo erro, por motivos de saúde.
No entanto, nesta fase final da sua vida, tive o privilégio de conversar algumas vezes com uma sua verdadeira amiga que a acompanhou e sofreu nesta fase final, refiro-me à nossa querida amiga Rosa Serra.
Normalmente no momento da partida todos fomos exemplares, mas, segundo o testemunho da Rosa, ela sempre foi um EXEMPLO de mulher, humildade, enfermeira e camarada.
Prova disso mesmo nos relata agora a Maria Arminda, em que a Zulmira contrariamente a muita gente o cujo protagonismo era, e continua a ser, o seu principal objectivo na sociedade, preferia a simplicidade dos seus actos, continuando a sua pratica pela causa humana, deixando os actos "heróicos" para os referidos protagonistas.
Congratulamo-nos com o envio deste "voo"pela Maria Arminda, significando que,embora,tal como as enfermeiras paraquedistas, muito esquecidos por alguns de curta memória, continua sempre com os ESPECIALISTAS DA BA 12 .