segunda-feira, 30 de março de 2015

Voo 3335 ATÉ UM DIA MEU GENERAL!





Victor Barata
Esp.Melec./Inst./Av.
Vouzela





Bom Dia Companheiros
Embora ausente do País, mas sempre presente no seu quotidiano.
O que, apesar de ser uma  ausência com caracter  profissional, não deixaria de ser também de divertimento, não fosse a notícia que me transmitiram do “Último voo do Luís Henriques”!  
A vida tem vários mistérios, e o maior deles é a morte. Nunca consegui entender o porque de um AMIGO ter que partir. A dor que sinto é imensurável. Nesta hora, não há nenhuma palavra que possa ser dita que seja capaz de me confortar. Embora previsível, tudo me parece ter perdido neste momento em que partes AMIGO HICA. 
A última vez que estivemos juntos, quando de passagem para o Norte, acompanhado pelo “Acelera” e respectivas esposas,almoçamos em minha casa não te dei a atenção que merecias, pois nesse momento a minha sogra partiu para o hospital e no dia seguinte também no dia seguinte partiu com Deus.
Á tua família, coloco-me á disposição para os ouvir,os ombros e o coração para os apoiar.
Não há nada capaz de reparar uma perda como esta, mas em nome da amizade que sempre nos uniu, e em honra da tua memória, vou continuar vivendo.
É preciso transformar o luto numa luta pela vida e pela felicidade, e para
transformar a dor em saudade e serenidade.
Como habitualmente, a tua e nossa COMPANHEIRA Nª.Sª do Ar,te acompanhará e colocará  na “placa” merecida.
Até um dia meu GENERAL!




Voo 3334 O ÚLTIMO VOO DO LUIS HENRIQUE


É com grande pesar que comunicamos a triste notícia do falecimento do Luis Henrique, para os amigos o "Hica".
Infelizmente o Luis deixou-nos este Domingo 29 de Março.
Um dos fundadores e grande dinamizador do grupo NANAMUE, cultivava o convívio e a amizade, sendo célebre a sua boa disposição.
Aqui vos deixamos uma singela recordação
O Luis Henrique convivendo com alguns amigos e NANAMUEs no Clube dos Sargentos em 2013
 
O Luis Henrique com os "Galões" de Cabo Especialista General, posto especialmente criado para a sua pessoa nos convívios entre camaradas da FAP
Foto: do seu vizinho de infância, camarada da FAP e amigo José Manuel Mendes 
 
Endereçamos as sentidas condolências à família enlutada, a todos os amigos do "Hica", ao grupo NANAMUE e a todos os Especialistas em geral que hoje perderam um dos seus.

Que a Nossa Senhora do Ar o acompanhe neste último voo e que descanse em Paz.

O corpo do nosso amigo "Hica" estará em câmara ardente na Igreja de Linda-a-Velha (nova) a partir das 17H00 de Segunda-feira, dia 30 de Março e o funeral realizar-se-á pelas 15H00 de Terça-feira, dia 31 de Março, para o cemitério de Carnaxide.
 

Especialistas da BA12

domingo, 29 de março de 2015

Voo 3333 XXXVIII ENCONTRO NACIONAL DA AEFA.






Augusto Ferreira
2º.Sargº.Melec./Inst.Av.
Coimbra





XXXVIII ENCONTRO ANUAL NACIONAL DA AEFA


Ontem sábado 28/93/2015 com LISBOA à vista do outro lado do Tejo, mais propriamente na BA6 no Montijo, realizou-se o XXXVIII Encontro Anual da AEFA.
Que bom foi ver a afluência que teve, comparando com eventos recentes e atendendo à situação económica que o país e nós atravessamos.
Estiveram presentes cerca de cinco centenas e meio de ESPECIALISTAS, que como sempre, vivem estes momentos com grande emoção, pelas gratas recordações que guardam, dos anos em que serviram com orgulho a nossa FORÇA AÉREA.
Ficámos felizes por verificar que a nova Direcção, conseguiu com o seu trabalho, revitalizar este acontecimento único, que consegue juntar o maior número de ESPECIALISTAS do país.
Parabéns à nova Direcção da AEFA e toda a sua equipa, pelo sucesso do trabalho realizado.
Um enorme ABRAÇO AERONÁUTICO para todos que muito estimo.
( Em anexo segue um conjunto de fotos que falam por si)






 


terça-feira, 24 de março de 2015

Voo 3332 TERTÚLIAS FIM DO IMPÉRIO





Manuel Lema Santos
Ten. da Reserva Naval
Algueirão
Sintra


DIVULGAÇÃO/CONVITE



Mensagem de divulgação 

AOFA - Associação dos Oficiais das Forças Armadas


...

Caros camaradas,

Mais um livro, mais uma apresentação, mas, também, muito mais do que isso!

Para os mais antigos, será o avivar de recordações.

Para os mais modernos, a certeza de que há e haverá sempre quem Preserve e Honre as nossas Memórias.

O local escolhido já foi a Cooperativa Militar e encontra-se, hoje (por enquanto, face às intenções do MDN?), ao serviço do IASFA, tal e qual o conhecemos.

Na sua reconstrução gastaram-se muitíssimos euros, fruto das contribuições de todos nós, numa altura em que pensávamos que os governantes honravam o passado e os seus compromissos.

Hoje, o IASFA, no seu todo, encontra-se sob a ameaça de um Grupo de Trabalho (que sucedeu a um outro que deu azo a peripécias que um dia serão conhecidas de todos vós), criado pela Secretária de Estado Adjunta da Defesa Nacional, de que fazem parte (premonitoriamente?...) a Cruz Vermelha e a Liga dos Combatentes, a pretexto da sua reestruturação, mas de que foram afastadas, porque incómodas, as Associações Profissionais de Militares (que, de acordo com as disposições legais, até fazem parte do respectivo Conselho Consultivo).

IASFA que foi erigido maioritariamente com o esforço contributivo dos Militares (directo ou indirecto, através de diverso tipo de receitas, incluindo o de parte do produto de vendas de combustível que os Ramos já fizeram).

Reencaminho o mail do COR CAV Barão da Cunha, que nos/vos convida a estarem presentes no lançamento do livro, para que não percam o tom leal e fraterno da sua mensagem (só possível entre nós).

Cordialmente,

O Responsável pelas Relações Públicas da AOFA

Tasso de Figueiredo

COR TPAA




Voos de Ligação::
Cortesia especial de:
AOFA-Associação dos Oficiais das Forças Armadas disponível em: 
http://www.aofa.pt/

segunda-feira, 23 de março de 2015

Voo 3331 CONVITE E APRESENTAÇÃO DO LIVRO " NÓS ENFERMEIRAS PARAQUEDISTAS"







Rosa Serra
Alf.Enfª.Paraquedista
Lisboa



Caras amigas e amigos.

Envio convite e mapa para apresentação do nosso livro em Aveiro dia 26 de Março às 18 horas. O auditório fica a 600 metros da estação dos comboios. Há no entanto possibilidade de se arranjar transporte para alguém que tenha dificuldade em se deslocara a pé, basta responder a este mail se for o caso,  que darei conhecimento a quem de direito para disponibilizar algum carro junto à estação. As enfermeiras terão de confirmar brevemente a sua presença e podem reencaminhar este e-mail para os vossos amigos .
Um Abraço.

Rosa

Voo de Ligação:

domingo, 22 de março de 2015

Voo 3330 AS OBRAS DE ARTE DO SIX(43) DE HAVILLAND DHC 6 TWIN OTTER.





António Six
Esp.MRÁDIO
Pontével


De Havilland DHC 6 Twin Otter,
Vulgarmente e carinhosamente, lhes chamávamos de TAPINHOS, e lá íamos nós apreciando as paisagens transportados para outros pontos para entrarmos nos aviões que nos esperavam. Eram também a nossa família e fizemos boas amizades Recordam-se ???? e será que têm saudades .
Bons Voos e muita saúde

Six

Voo 3329 APRESENTAÇÃO DO LIVRO "NÓS,ENFERMEIRAS PARAQUEDISTAS".






Victor Barata
Esp.Melec./Instr./Av.
Vouzela





Informámos aqui anteriormente que estão previstas para já duas apresentações deste livro editado pela "Fronteira do Caos Editores", a primeira em Aveiro, a segunda no Porto.
Da primeira apresentação deixamos-vos aqui o respectivo convite. A sessão decorrerá no auditório do Centro Cultural e de Congressos de Aveiro, pelas 18H00 do próximo dia 26 de  Março. Uma oportunidade para o pessoal daquela região (e arredores...) estar presente.
Refira-se que esta sessão conta com a presença, para além de várias das co-autoras (enfermeiras paraquedistas), do Professor Adriano Moreira (autor do prefácio do livro) e do TCor. Aparício, que já tinha igualmente feito a apresentação da obra no Estado Maior da Força Aérea, no final de Novembro do ano passado.



Quanto à segunda apresentação, prevista para a Messe de Oficiais da Batalha, no Porto, aguardamos ainda a confirmação da data inicialmente programada, 9 de Abril. Aqui daremos informação logo que possível.


sexta-feira, 20 de março de 2015

Voo 3328 OS MEUS TESTEMUNHOS.





Manuel José Lanceiro
Especialista MMA (Canibais)
Lisboa




Barata
Todos os dias visito o nosso blog e é com muito prazer que vejo camaradas de outras armas a participarem activamente nele.
São os seus testemunhos e as suas experiências que enriquecem (ainda mais), este espaço.
É também com muito gosto que vejo os pilotos a participarem.
Por isso venham mais, participem, contem as vossas memórias (estórias) e mostrem as vossas fotografias.
Sejam bem vindos e bem hajam.
Mando mais duas fotografias


Foto nº 1 - Da Esq./Dirª O Castro (Menino) atirador canhão, eu, Oliveira atirador canhão, o Príncipe e o Santos (Bebé) ambos pilotos.


Foto nº2 - Esta foto foi tirada em Nova Lamego, estou eu com um piloto das DO's não me lembro do seu nome. Se te lembrares agradeço que o menciones.

Um grande abraço
Manuel José Lanceiro

VB: Companheiro, gostava de te poder informar o nome do referido piloto de DO 27,mas,embora tenha estado toda a minha comissão de serviço na linha da frente destas aeronaves, não me recordo da sua cara, provavelmente já foi depois de mim. Uma coisa que estranho é o seu uniforme, contrariamente ao que era normal, não envergava camisa de voo mas sim camuflado!...
Se algum dos nossos Tertúlianos o reconhecer, agradecemos que informe o nome do companheiro em causa.



quinta-feira, 19 de março de 2015

Voo 3327 RECORDAR O PASSADO.




Victor Oliveira
Esp.Melec./Inst./Av
Caneças




Ao ver o voo 3322 do camarada Nuno Almeida (Poeta). Decidi enviar uma foto a cores tirada em 1968 pelo 1º Sargento piloto Tó Zé, onde está o grande Capitão piloto Vasquez o tenente piloto Nico (major Alvega),duas grandes maquinas a voar.
Aproveito para dizer que em relação a Madina de Boé que devo ter sido o especialista que mais vezes esteve lá nas DO27 levando mantimentos, armamento e caixões para os nativos que eram umas tábuas forradas com pano preto.
Posso vos dizer que uma vez com o meu amigo Honório estivemos cerca de 2 horas dentro de um abrigo até acabar o tiroteio entre as nossas tropas e o inimigo, por sorte não atingiram a DO.

O Tenente Nico é o que está á civil e Capitão Vasquez é do meio.Eu sou o 3º a contar da esquerda o 4º é omeu amigo Six a mostrar o cabedal.
Um abraço a toda malta.
Vitor Oliveira.(Pichas)

Voo de Ligação:

segunda-feira, 16 de março de 2015

Voo 3326 AS OBRAS DE ARTE DO SIX (42) HARVARD T6.




António Six
Esp.MRÁDIO
Pontével




Harvard T6.
Hoje vamos neste avião que tantas saudades deixou em todos aqueles que nele voaram , o ronco era inconfundível e as aventuras??????.
Espero que não deitem carga ao mar, pois a praxe é para cumprir!
Que tenham bons voos com muita saúde
Six

quarta-feira, 11 de março de 2015

Voo 3325 ESQUADRA 751 "PUMAS" GALARDOADA.





Esquadra 751 - "Pumas" galardoada
Pela Helicopter Aviation International

A esquadra 751 – “Pumas” da Força Aérea Portuguesa recebeu dia 04 de março de 2015 – nos Estados Unidos da América - o prémio internacional de serviço humanitário pela Helicopter Aviation International (HAI).
Os galardões atribuídos por esta associação gozam de um reconhecido prestígio mundial, sendo tradicionalmente encarados como os “Óscares” da aviação de helicópteros.
 No comunicado sobre a atribuição do prémio, a HAI refere que apesar da dimensão geográfica de Portugal, os militares da Força Aérea têm uma área de responsabilidade que abrange aproximadamente um terço do Atlântico Norte. A associação refere a missão de busca e salvamento dos “Pumas” numa área que corresponde a cerca de dois terços do tamanho dos Estados Unidos - incluindo os Estados do Alaska e Hawaii – ou cerca de um terço do Atlântico Norte. Enaltece ainda a maior operação sem reabastecimento executada pela Esquadra 751, que durou mais de sete horas, num trajeto superior a 1340 quilómetros.
Com quase 20 mil horas de voo feitas ao longo dos dez anos de operação da Força Aérea Portuguesa nos helicópterosEH-101 Merlin, os “Pumas” já salvaram mais de 3.500 vidas.
É com orgulho que a Força Aérea Portuguesa vê uma das suas esquadras de voo ser reconhecida mundialmente por um trabalho valoroso, esforçado e com o sacrifício pessoal e diário de muitos dos nossos militares. 
“Para que outros vivam”.
Voos de Ligação;
EMFA

segunda-feira, 9 de março de 2015

Voo 3323 O ÚLTIMO VOO DO ANTÓNIO IDEIAS.







ANTÓNIO IDÉIAS
deixou-nos.

Guardaremos dele a grata memória de um Homem de excepcional carácter, bondade e humildade ímpares. Foi um privilégio tê-lo conhecido e reconhecido também a elevação da sua enorme espiritualidade, presente em toda a dimensão e grandeza de Cristão, de Pai, de Companheiro, de Amigo, de Profissional, de Desportista, de Aviador, de Oficial, de Cavalheiro, de excepcional Piloto de Acrobacia que inovou e motivou.
Perdemos um HOMEM BOM. E a Aviação Portuguesa perdeu um dos seus melhores que indelevelmente marcou onde voou. Que o legado da tua enorme e contagiante FÉ, possa ajudar a confortar quem deixaste por ora neste mundo e até um dia, a VOAR SEM TI. Obrigado por sempre teres dito, Presente. Até sempre ANTÓNIO IDÉIAS.

Voo de Ligação:
AOPA


Voo 3324 A HISTÓRIA SOMOS NÓS.


Miguel Pessoa
Cor.Pilav.
Lisboa

II TERTÚLIAS "A HISTÓRIA SOMOS NÓS"

EM LEIRIA: SESSÃO SOBRE O
SERVIÇO DE SAÚDE NO ULTRAMAR

No passado dia 27 de Fevereiro iniciaram-se as sessões organizadas pela Livraria Arquivo e pelo Núcleo de Leiria da Liga de Combatentes, integradas nas II tertúlias "A História Somos Nós", a decorrer ao longo do presente ano. Estas sessões contam ainda com o apoio do "Jornal de Leiria". Para conhecerem o programa previsto para 2015, vejam aqui.

Esta primeira sessão era dedicada ao tema "O serviço de saúde no ultramar" e para ela foram convidados os Dr. José Lourenço, Dr. Américo Órfão, e os nossos camarigos José Eduardo Oliveira (JERO) e Giselda Pessoa. Presidia à mesa o TCor. Mário Ley Garcia, presidente do Núcleo de Leiria da Liga de Combatentes e nosso camarigo da Tabanca do Centro.

Com assistência ainda reduzida na hora de início da sessão, a sala acabou por compor-se razoavelmente, um pouco por obra do pessoal da Tabanca do Centro que ali se deslocou. 

Correndo o risco de falhar algum, lembramos que, para além dos três já mencionados, presentes na mesa, se deslocaram à Livraria Arquivo o régulo da Tabanca do Centro, Joaquim Mexia Alves, Agostinho Gaspar, Vitor Caseiro, António Nobre, Carlos Santos, Paulo Moreno e este vosso escriba, Miguel Pessoa.

Com a devida vénia à autora, Maria Anabela Silva, e ao Jornal de Leiria, transcrevemos o texto que sobre este evento foi publicado naquele periódico no passado dia 5 de Março:

Tertúlia debateu sistema de saúde durante a guerra colonial
Tentar salvar os outros e evitar levar um tiro

“O chefe da tabanca tinha um tiro no peito. Cada vez que respirava, parecia ver-lhe o pulmão. Estava moribundo. Sentei-o encostado a uma árvore e dei-lhe uma injecção de morfina. Nunca mais esquecerei o seu olhar. Não vi o ódio na sua expressão. Vi a resignação e um cansaço imenso. Pareceu-me preparado para morrer com dignidade. Afinal, era o chefe. O último olhar que trocámos ficou-me gravado na alma”. In Golpes de Mão's, de José Eduardo Reis de Oliveira

Foi com o excerto do seu livro Golpes de Mão's que José Eduardo Oliveira, conhecido em Alcobaça como JERO, terminou a sua intervenção na última tertúlia do ciclo A história somos nós – da Guerra Colonial à Manutenção da Paz, realizada na passada sexta--feira, e que desta vez debateu o sistema de saúde durante o conflito no Ultramar. 


À mesa, estiveram os médicos José Esperança Lourenço e Américo Órfão, o enfermeiro de guerra José Oliveira e Giselda Pessoa (enfermeira pára-quedista), que recordaram as suas experiências nos vários teatros do guerra, muitas vezes preocupados em tentar salvar vidas e, ao mesmo tempo, em não serem atingidos. Umas vezes com sucesso. Outras, pelo contrário, com finais tristes, como aquele episódio recordado por José Oliveira, vivido no dia em que o seu batalhão atacou uma aldeia na Guiné. “Depois de uma troca de tiros, ficámos com 70 prisioneiros. Havia feridos. Vi-me, um miúdo de 24 anos, a ter de me armar em Deus, a decidir quais os que ficavam e os que vinham connosco. Entre os feridos, estava o chefe da tabanca, que vinha muito ferido”, recordou o antigo enfermeiro de guerra, que também não esquece a epidemia de sarampo, que vitimou 60 crianças.

Muito menos dramática foi a situação com que se debateu José Esperança Lourenço quando chegou a Marrupa, Moçambique, onde desempenhou funções de delegado de saúde e de médico no hospital militar. “Havia uma quantidade elevada de militares com doenças venéreas. Falei com o administrador para podermos tratar também as mulheres. Pensei que iria encontrar meia dúzia. Afinal, era uma fila interminável, mas consegui acabar com as venereologia”, conta o médico estomatologista, frisando que esta era uma problemática frequente entre os militares.

José Oliveira nota que, quando os havia, os preservativos eram de “muito má qualidade”, pelo que os contágios eram frequentes. E, sempre que isso acontecia, os médicos tinham a “obrigação” de participar a situação e os soldados “apanhavam dez dias de prisão”. E, como era fazer medicina num tempo e em territórios em que escasseavam recursos, em que quase não havia antibióticos - com excepção da penicilina, descoberta poucos anos antes - nem meios auxiliares de diagnósticos?

“Dava-se o máximo, com o pouco que se tinha, para ajudar feridos e doentes, fossem eles soldados ou civis”, diz Américo Órfão, para quem comparar a medicina dessa época com a actual “é comparar uma bicicleta com um Chevrolet”. “Hoje, quando se receita um medicamento temos uma grande certeza de que vai fazer algum efeito. Naquele tempo, as opções de tratamento era muito poucas”, alega o médico de Leiria.

Além da escassez de recursos, havia ainda a dificuldade acrescida quando o socorro era prestado durante os ataques e se tinha de “tentar salvar os outros” e, ao mesmo tempo, procurar “não levar um tiro”, nota José Oliveira.

Foi num cenário desses que viveu um outro episódio marcante durante a sua missão na Guiné. “Era madrugada e estávamos no mato. O nosso guia, um guineense, levou um tiro no peito e chamaram-me. Pela primeira vez, percebi que não podia fazer nada. Fiquei encharcado em sangue, com as balas a passarem-me por cima”, conta.

Numa nota menos dramática, José Oliveira recorda as dores de barriga que, habitualmente, assolavam as tropas em dias de combate. Uma maleita que tratava com “aspirina número 8”, nas suas diversas variantes - “aspirina para o medo dos oficiais, aspirina para o medo dos sargentos e aspirina para o medo dos soldados” -, que funcionava como placebo.

Apoio às populações A par do auxílio aos soldados, os serviços médicos e de enfermagem das tropas portuguesas tiveram também um papel preponderante no apoio às populações locais, como testemunharam vários dos intervenientes na tertúlia, organizada pelo Núcleo de Leiria da Liga dos Combatentes, em parceria com a Livraria Arquivo e com o apoio do JORNAL DE LEIRIA.

Joaquim Mexia Alves, que esteve na Guiné, considera que a população local “beneficiou muito” com os serviços de saúde portugueses. “Um elemento da população que tivesse uma doença ou ficasse ferido em cerca de duas horas era evacuado para Bissau”, referiu aquele antigo combatente.

Giselda Pessoa, que foi enfermeira pára-quedista, nota que até as populações de outros países que viviam nas fronteiras com as antigas colónias recebiam apoio. “Chegámos a evacuar pessoas do Senegal para Bissau. Mulheres grávidas, por exemplo”, conta a antiga enfermeira, que recorda a sensação de alívio com que ela e as colegas eram recebidas durante as evacuações de soldados feridos. “Sentiam-se seguros quando nos viam. Alguns deles mantinham-se conscientes até à nossa chegada, pensando que, se chegássemos, estariam safos”.

Testemunho: “Casei com a enfermeira”

Piloto da Força Aérea, o coronel Miguel Pessoa participou em muitas evacuações de feridos. Mas, houve um dia que viveu na pele a experiência de ser ele o evacuado, quando o avião em que seguia foi abatido por um míssil. A aeronave caiu no mato, mas o piloto (o então tenente Miguel Pessoa) seria resgatado pelas forças portuguesas, sendo transportado de helicóptero até Bissau, onde recebeu assistência no hospital militar. 

“O método foi expedito. Correu tudo bem. Tão bem que casei com a enfermeira que fez a evacuação”, recordou Miguel Pessoa durante a tertúlia realizada na Livraria Arquivo sobre o sistema de saúde durante a guerra colonial. Num dos dois helicópteros onde fez a viagem até Bissau seguia Giselda Pessoa, enfermeira pára-quedista, com quem viria a casar (na foto, durante o resgate a Miguel Pessoa).

Conclusões da Tertúlia do dia 27FEV15, apresentadas pelo moderador da sessão,
TCor. Ley Garcia

A Tertúlia do dia 27FEV15 foi dedicada ao apoio de saúde durante a Guerra do Ultramar, nomeadamente, o acesso aos cuidados de saúde dos colonos e das populações nativas.
Foram debatidas questões como:

·    Se a formação dos médicos em Portugal era adequada para desempenhar a função de médico no Ultramar;
·       Se a informação dos militares acerca das doenças venéreas era adequada para os problemas que eles iam lá encontrar;
·        Se havia boas estruturas de apoio à saúde;
·        Se havia muita diferença de meios de apoio à saúde de região para região;
·       Se os serviços de saúde apenas apoiavam os militares ou também os civis brancos e negros;
·      Que meios é que os Enfermeiros tinham ao seu dispor para dar apoio directo aos feridos nos locais onde os ia buscar ou apoiar;
·     Qual a autonomia que os Enfermeiros tinham no que respeita à decisão de colocar o evacuado do modo mais rápido no hospital, tendo em conta a gravidade do seu estado;
·        Como teria sido o apoio médico se já tivessem os meios de diagnóstico atuais.

No final foi possível concluir que:

·     Era necessário os médicos terem formação complementar por causa das doenças tropicais e das condições que iriam lá encontrar;
·    Apesar de alguma informação dadas aos militares, a maior parte deles não se sabia precaver de forma adequada para evitar as doenças venéreas;
·      Era complicado combater as doenças venéreas por haver “profissionais” que chegavam a deslocar-se de avião para onde os militares estavam colocados, facilitando a transmissão da doença. Mas foi possível combatê-la em várias regiões graças a um maior controlo conjunto destas “actividades”;
·        Era comum os feridos resultantes de minas fracturarem os maxilares;
·      Os médicos ganharam muita experiência com doentes e feridos traumatizados, o que foi muito útil para melhorar a medicina no Continente;
·   O apoio à saúde chegava a ser mais rápido e eficiente no Ultramar do que no Continente, mas variava de região para região, sendo claramente melhores numas regiões do que outras; Em muitos locais existiam médicos e enfermeiros suficientes;
·       O apoio de saúde era prestado também às populações nativas. Muitas vezes este apoio ajudava na “conquista” das populações;
·     Era comum os enfermeiros estarem a dar os primeiros cuidados de saúde a feridos e, ao mesmo tempo, terem de ter cuidado para não serem feridos;
·    Os enfermeiros tinham bastante autonomia e capacidade de decisão quanto ao tratamento e às evacuações a efectuar;
·     Por norma existia um bom relacionamento entre médicos e enfermeiros, complementando-se no seu trabalho;
Na altura da Guerra do Ultramar só existia disponível a Penicilina para utilizar como antibiótico e os diagnósticos tinham de ser feitos muito à base da observação, inquérito e apalpação dos doentes. Actualmente existem muito mais antibióticos que poderiam ter curado rapidamente muitas das doenças que os militares sofreram no Ultramar, sendo que os meios de diagnóstico actualmente existentes permitiriam aos médicos uma actuação muito mais eficaz por conseguirem identificar a doença ou as fracturas com precisão. No entanto, em zonas de combate tais meios nem sempre seriam possíveis de utilizar pelo que os conhecimentos e a experiência dos médicos e enfermeiros foram determinantes para curar os doentes e feridos da melhor maneira possível.

Agradecemos ao Jornal de Leiria, Maria Anabela Silva e Mário Ley Garcia, fundamentais para a preparação deste poste.

Voo 3322 PEDAÇOS DAS NOSSAS VIDAS



Nuno Almeida (Poeta)
Esp.MMA
Lisboa







Não sei se terá interesse ou se até será viável a publicação no blog.
Deixo a informação ao vosso critério,
Um abraço.
Nuno

PEDAÇOS DAS NOSSAS VIDAS

Cumpri muitas missões durante a minha carreira na Força Aérea Portuguesa. A comissão na Guiné, porém, sobrepôs-se a todas as outras e marcou-me indelevelmente para o resto da vida. A mim e certamente a todos os que, de algum modo, partilharam a mesma experiência. É dela ou de acontecimentos com ela relacionados, que vos irei dando conta…


V – “Madina do Boé, o Algarve na Guiné”

O passar do tempo vai tornando cada vez mais difícil reavivar os acontecimentos que, por alguma razão significativa, mas especialmente aqueles que foram episódios de confronto directo com o inimigo, mereciam ficar registados na nossa memória colectiva. O detalhe das acções vai-se diluindo no nevoeiro do esquecimento e só a permanência de alguns flashes e de uns poucos registos me permite recuperar a sequência daqueles momentos que vivi ou testemunhei e que merecem ser divulgados.

Dentre esses flashes que persistem, seleccionei um para construir este meu testemunho dos PEDAÇOS DAS NOSSAS VIDAS.


A imagem que perdura é clara. Vejo-me no espaço que existia entre os pré-fabricados onde estava instalado o Grupo Operacional 1201 da Base Aérea nº12, com a sala de equipamentos e as Esquadras de um lado e a sala de briefings, o bar e sala de estar, gabinete do comandante do Grupo e a Secretaria, do outro. Sei que foi ao começar o dia de trabalho, pouco depois de ter chegado à Base vindo de Bissau. Alguém que passa por mim entrega-me um papel com uma mensagem rádio e é esta mensagem que me vejo a ler com alguma surpresa e ao mesmo tempo com satisfação porque, finalmente, tinhamos conseguido desferir um rude golpe nas forças com que o PAIGC matraqueava, há anos, a companhia do Exército instalada na isolada posição de Madina do Boé, no Leste do território. Depois de muita pesquisa e com o apoio do ex-comandante da Ccaç 1790 cheguei à conclusão que este flash da minha memória respeita ao dia 11 de Abril de 1968, uma quinta-feira.
1966, Base Aérea nº12, com a nova pista.

MADINA do  BOÉ – O alvo para a estreia dos cubanos em combate

Desde o início da luta que o PAIGC escolhera o aquartelamento de Madina do Boé como um alvo preferencial. Terá sido até esta a primeira posição do Exército que o inimigo pensou aniquilar ou pelo menos forçar o seu abandono, muitos anos antes de tentar o mesmo com o Guilege. Com essa finalidade criou uma base dedicada em território da Guiné-Conacri, junto à fronteira e a curta distância de Madina do Boé, numa povoação chamada Kambera. Era ali que se organizava para as incursões e era para ali que retirava depois das flagelações.
De facto, Madina era uma posição em que o apoio de outras unidades terrestres não era viável e o apoio de fogo da Força Aérea, além de só ser possível durante o dia, só era  imediato em termos relativos, dada a distância. A posição estava isolada e só podia contar com os seus próprios meios.
As limitações no apoio a Madina do Boé, a que se somavam outras vulnerabilidades como era o facto de estar rodeada de pequenas elevações[1], são a justificação para que a zona tenha sido escolhida para uma espécie de campo de exercícios e carreira de tiro do PAIGC. Era ali que os quadros, regressados dos países onde recebiam formação militar, se exercitavam e ganhavam experiência. A ideia de que a zona era difícil de proteger levou mesmo a URSS a prometer ao PAIGC construir uma pista para aviões de transporte Antonov para apoio logístico directo, assim que conseguissem desalojar os portugueses daquela posição. Esta ideia era inexequível enquanto a Força Aérea mantivesse a superioridade aérea mas o PAIGC, segundo declarações de Nino Vieira, acreditou durante muito tempo nela. Foram essas vulnerabilidades que também justificaram o facto de Madina do Boé ter sido o alvo escolhido para a primeira acção de combate com o envolvimento dos cubanos. Amilcar Cabral que estava nessa altura muito preocupado com a segurança dos seus novos apoiantes internacionalistas[2], enviados por Fidel de Castro na sequência da Conferência Tricontinental de Havana, em Janeiro de 1966, escolheu Madina para fazer uma demonstração das capacidades dos seus guerrilheiros. Esta decisão, em princípio acertada, não evitou porém o desastre que, por acaso, foi relatado por uma testemunha privilegiada, o cubano Oscar Oramas, que foi o embaixador de Fidel em Conacri e simultâneamente o executivo para o apoio ao PAIGC. É assim que ele descreve essa acção no seu livro  “Amilcar Cabral para além do seu tempo”.[3]
…............................................
“A primeira operação militar de envergadura que se realiza com a participação dos assessores cubanos é a efectuada contra o quartel português de Madina de Boé, em 10 de Novembro de 1966.
Esta instalação militar conta com uma edificação na sua superfície, a partir da qual combatem os guineenses fulas incorporados no exército colonial, enquanto os Portugueses se mantêm em trincheiras e refúgios subterrâneos, onde instalam a sua artilharia.
O comando guerrilheiro, situa-se para esta operação, a uns 500 metros do quartel, instala um canhão B-10 junto de uma grande árvore, com a ideia de o proteger do fogo inimigo. A operação é dirigida pelo Comandante Domingos Ramos, um dos principais dirigentes do PAIGC. Pela parte cubana encontra-se o tenente Artemio, chefe dos assessores cubanos, com umas dezenas de combatentes guineenses e cubanos, e Ulisses Estrada, Chefe da 5a Direcção do Ministério do Interior cubano. Junto deles, encontra-se a operadora de câmara argentina Isabel Larguia, que participa na operação com o fim de filmar um documentário que sirva para propagandear, principalmente na Europa, a luta que o PAIGC está a liderar.
Domingos dá ordem para o início das acções e o canhão B-10 começa a disparar acompanhado pelo fogo de espingardas dos guerrilheiros. A resposta dos Portugueses não se faz esperar; têm coberta a pequena elevação de onde ataca a guerrilha e as suas granadas de morteiro começam a produzir impactos certeiros sobre o comando guerrilheiro, provocando a confusão e a desorganização. Domingos, atrás da árvore onde está situado o canhão, atira-se para cima do corpo de Ulisses com a clara intenção de o proteger, quando é atingido por um estilhaço de morteiro, que lhe provoca uma ferida que sangra copiosamente. Ulisses, ajudado por outro cubano, transporta-o para o posto médico, situado a uns 100 metros na rectaguarda, mas o seu corpo chega a este já sem vida.
O grupo guerrilheiro dispara todas as munições que em Boké haviam decidido utilizar neste combate e empreende uma retirada desorganizada, a qual é aproveitada pelos Portugueses para lançar uma salva de morteiros para os atingir.
Ulisses considera que o mais importante nesse momento é evitar que o cadáver de Domingos caia nas mãos do Exército português, e acompanhado por outro cubano, toma um camião e condu-lo até Boké, Republica da Guiné, entregando-o a Aristides Pereira para que seja enterrado com todas as honras que merece como um dos fundadores da luta do PAIGC”.
“A primeira operação militar de envergadura que se realiza com a participação dos assessores cubanos é a efectuada contra o quartel português de Madina de Boé, em 10 de Novembro de 1966.
Esta instalação militar conta com uma edificação na sua superfície, a partir da qual combatem os guineenses fulas incorporados no exército colonial, enquanto os Portugueses se mantêm em trincheiras e refúgios subterrâneos, onde instalam a sua artilharia.
O comando guerrilheiro, situa-se para esta operação, a uns 500 metros do quartel, instala um canhão B-10 junto de uma grande árvore, com a ideia de o proteger do fogo inimigo. A operação é dirigida pelo Comandante Domingos Ramos, um dos principais dirigentes do PAIGC. Pela parte cubana encontra-se o tenente Artemio, chefe dos assessores cubanos, com umas dezenas de combatentes guineenses e cubanos, e Ulisses Estrada, Chefe da 5a Direcção do Ministério do Interior cubano. Junto deles, encontra-se a operadora de câmara argentina Isabel Larguia, que participa na operação com o fim de filmar um documentário que sirva para propagandear, principalmente na Europa, a luta que o PAIGC está a liderar.
Domingos dá ordem para o início das acções e o canhão B-10 começa a disparar acompanhado pelo fogo de espingardas dos guerrilheiros. A resposta dos Portugueses não se faz esperar; têm coberta a pequena elevação de onde ataca a guerrilha e as suas granadas de morteiro começam a produzir impactos certeiros sobre o comando guerrilheiro, provocando a confusão e a desorganização. Domingos, atrás da árvore onde está situado o canhão, atira-se para cima do corpo de Ulisses com a clara intenção de o proteger, quando é atingido por um estilhaço de morteiro, que lhe provoca uma ferida que sangra copiosamente. Ulisses, ajudado por outro cubano, transporta-o para o posto médico, situado a uns 100 metros na rectaguarda, mas o seu corpo chega a este já sem vida.
O grupo guerrilheiro dispara todas as munições que em Boké haviam decidido utilizar neste combate e empreende uma retirada desorganizada, a qual é aproveitada pelos Portugueses para lançar uma salva de morteiros para os atingir.
Ulisses considera que o mais importante nesse momento é evitar que o cadáver de Domingos caia nas mãos do Exército português, e acompanhado por outro cubano, toma um camião e condu-lo até Boké, Republica da Guiné, entregando-o a Aristides Pereira para que seja enterrado com todas as honras que merece como um dos fundadores da luta do PAIGC”.


Depois deste episódio que naturalmente abalou a direcção do PAIGC, as acções contra Madina do Boé só voltaram a intensificar-se novamente em Outubro de 1967 (na época das chuvas quando todo o Boé ficava completamente isolado). Dessa vez, durante 13 horas consecutivas a posição foi violentamente bombardeada, e os combatentes do PAIGC conseguiram mesmo aproximar-se das redes de protecção. Logo às primeiras horas do dia seguinte, com a chegada do apoio aéreo e o bombardeamento da zona envolvente pelos G-91, o ataque cessou imediatamente.
 
Como apoiámos Madina do Boé em Abril de 1968

Por todos os motivos já indicados, o apoio de fogo a Madina do Boé pela Força Aérea, era fundamental. No entanto, a nossa eficácia nessas situações era, na generalidade, muito limitada. Isso acontecia tanto no caso de Madina do Boé como no dos outros aquartelamentos apoiados. É certo que quando os aviões chegavam ao local os ataques terminavam porque o inimigo tinha receio de ser localizado e não se revelava mas, por outro lado, era muito difícil infligir-lhe danos dada a dificuldade de referênciar com precisão os alvos. As indicações dadas pelas forças terrestres em termos de direcção e distância eram apenas estimativas e, do ar, mesmo que a direcção fosse uma indicação satisfatória já a distância era impossível de medir a olho, com alguma precisão, sobre o manto verde da mata.  Em Madina, nas curtas visitas dos DO-27 e em conversa com os comandantes de companhia fomo-nos apercebendo que o inimigo utilizava repetidamente bases de fogos que já estavam bem identificadas o que correspondia às características de campo de treino de tiro que a zona tinha para o PAIGC. Foi por isso que em  10 de Novembro de 1966 a reacção da companhia Ccaç 1416 fora tão certeira.
No início de Janeiro de 1968 a Ccaç 1790 que na altura se encontrava em Bissau como unidade de intervenção do Comando Militar, iniciou a sua deslocação para Madina do Boé onde assumiu a responsabilidade de todo o Boé, com uma pequena guarnição destacada em Béli.
O ex comandante da Ccaç 1790 descreveu-me assim a posição que foi ocupar: Madina do Boé é uma pequena povoação com características físicas específicas. É rodeada por pequenas elevações (com cerca de 300 m de cota média), que são a continuação na Guiné da cordilheira do Futa Djalon da Guiné Conacri. Madina fica num vale fértil com muita água, tem um clima agradável, a ponto de em brincadeira os militares que ocuparam anteriormente a posição terem ali colocado uma tabuleta com a expressão “Madina do Boé, o Algarve na Guiné”, e que ali permaneceu até ao fim da presença portuguesa. Não havia um aquartelamento militar propriamente dito, mas antes uma dezena e meia de abrigos enterrados dispostos em círculo com um diâmetro de cerca de 1,5 kms e ocupados, cada um, por 5 a 7 militares. No centro da povoação havia três casas edificadas. A população que ali vivia também dispunha de abrigos junto das suas tabancas. Por razões óbvias os abrigos estavam ocupados em permanência; era ali, e em cada um, que se tomavam as refeições e se fazia a rotina dos dias. Os montes em redor davam comandamento e capacidade de observação contínua sobre as nossas posições. Evitávamos, por isso, ajuntamentos de pessoas que constituíssem alvos fáceis; mesmo quando se jogava futebol, fazíamo-lo junto de valas a céu aberto onde nos podíamos rapidamente abrigar em caso de ataque.
O PAIGC atacava Madina do Boé quase diariamente, normalmente com armas pesadas, morteiros de 82 mm e canhões sem recuo de 75 e de 82mm. A partir dos meados de 1968 passou também a utilizar atiradores especiais, que embora fazendo tiro a grande distância, e sempre à mesma hora, acertaram algumas vezes; nunca causaram mortes, mas provocaram alguns feridos graves, e criaram uma enorme instabilidade emocional. O desencadear das longas flagelações com armas pesadas tinha características próprias: ocorria normalmente aos crepúsculos, especialmente no vespertino, por razões de segurança das unidades do PAIGC que realizavam o ataque. É que durante a noite não havia operações aéreas na Guiné; por isso após o pôr-do-sol, estavam seguros que só na madrugada seguinte poderiam aparecer os Fiat G91; quando atacavam ao raiar da aurora faziam-no muito rapidamente sendo esses ataques intensos, mas terminando logo de seguida para evitarem qualquer ataque aéreo de resposta.
….............................................................................................................
Está hoje completamente comprovado que o PAIGC teve sempre nos arredores de Madina oficiais e sargentos cubanos que regulavam o tiro das suas armas pesadas com muita eficácia; como nos montes em redor tinham excelentes postos de observação de tiro, e meios adequados para o efeito, escolhiam facilmente as zonas a bater, e faziam correr as salvas por todo o aquartelamento.”


“Madina do Boé é uma pequena povoação com características físicas específicas. É rodeada por pequenas elevações (com cerca de 300 m de cota média), que são a continuação na Guiné da cordilheira do Futa Djalon da Guiné Conacri. Madina fica num vale fértil com muita água, tem um clima agradável, a ponto de em brincadeira os militares que ocuparam anteriormente a posição terem ali colocado uma tabuleta com a expressão “Madina do Boé, o Algarve na Guiné”, e que ali permaneceu até ao fim da presença portuguesa. Não havia um aquartelamento militar propriamente dito, mas antes uma dezena e meia de abrigos enterrados dispostos em círculo com um diâmetro de cerca de 1,5 kms e ocupados, cada um, por 5 a 7 militares. No centro da povoação havia três casas edificadas. A população que ali vivia também dispunha de abrigos junto das suas tabancas. Por razões óbvias os abrigos estavam ocupados em permanência; era ali, e em cada um, que se tomavam as refeições e se fazia a rotina dos dias. Os montes em redor davam comandamento e capacidade de observação contínua sobre as nossas posições. Evitávamos, por isso, ajuntamentos de pessoas que constituíssem alvos fáceis; mesmo quando se jogava futebol, fazíamo-lo junto de valas a céu aberto onde nos podíamos rapidamente abrigar em caso de ataque.
O PAIGC atacava Madina do Boé quase diariamente, normalmente com armas pesadas, morteiros de 82 mm e canhões sem recuo de 75 e de 82mm. A partir dos meados de 1968 passou também a utilizar atiradores especiais, que embora fazendo tiro a grande distância, e sempre à mesma hora, acertaram algumas vezes; nunca causaram mortes, mas provocaram alguns feridos graves, e criaram uma enorme instabilidade emocional. O desencadear das longas flagelações com armas pesadas tinha características próprias: ocorria normalmente aos crepúsculos, especialmente no vespertino, por razões de segurança das unidades do PAIGC que realizavam o ataque. É que durante a noite não havia operações aéreas na Guiné; por isso após o pôr-do-sol, estavam seguros que só na madrugada seguinte poderiam aparecer os Fiat G91; quando atacavam ao raiar da aurora faziam-no muito rapidamente sendo esses ataques intensos, mas terminando logo de seguida para evitarem qualquer ataque aéreo de resposta.
….............................................................................................................
Está hoje completamente comprovado que o PAIGC teve sempre nos arredores de Madina oficiais e sargentos cubanos que regulavam o tiro das suas armas pesadas com muita eficácia; como nos montes em redor tinham excelentes postos de observação de tiro, e meios adequados para o efeito, escolhiam facilmente as zonas a bater, e faziam correr as salvas por todo o aquartelamento.”
Quando se chegou ao final de Março de 1968 o PAIGC começou a aumentar novamente a pressão sobre Madina do Boé mas dessa vez houve três novos factores que jogaram um papel fundamental.

O primeiro foi que face à rotina dos ataques o comandante da Ccaç 1790 desenhou uma quadrícula alfa numérica de referenciação que se sobrepunha às cartas 1:50.000 que todos utilizavam. Quando a situação começou a ficar complicada um exemplar desta quadrícula[4] foi entregue a um piloto de DO-27 que passou por Madina e depois passou a ser utilizada como elemento de coordenação entre a CCaç 1790 e os pilotos dos G-91 nas acções aéreas de apoio de fogo.
O segundo factor era uma vulnerabilidade dos cubanos que utilizavam emissores-receptores nas frequências da banda FM dos 80 Mhz que podiam ser escutadas nos radios (transistores) do pessoal. Por essa razão, era normalmente possível ouvir-se em Madina as comunicações do inimigo, em castelhano, e por vezes deduzir onde iria caír a próxima salva, e também conhecer os resultados dos ataques aéreos quando estes se realizavam.
O terceiro factor foi a decisão de pôr uma parelha de G-91 no ar ao fim do dia e tentar o contacto rádio em rota para Madina. Se o inimigo não se tivesse manifestado a parelha entrava em espera, por alturas de Bambadinca, na esperança de poder intervir imediatamente se o PAIGC entretanto desencadeasse alguma flagelação. A espera era efectuada alto para reduzir o consumo de combustível e depois, se tudo corresse de feição, bastavam apenas 6 minutos de voo a 400 KIAS[5] para atingir um alvo na zona de Madina do Boé. Quando os aviões iam armados com foguetes e metralhadoras (caso da parelha de alerta) o tempo de espera podia atingir cerca de 40 minutos mas, nessas condições, com tão baixa capacidade letal, era difícil provocar danos sérios no inimigo. Com bombas nas estações internas, dada a curta autonomia do G-91 sem tanques externos, a espera tinha uma janela muito estreita, no máximo 20 minutos, e portanto era necessário muita sorte. 
Foi com estes preparos já em força que ao fim da tarde de 9 de abril de 1968, o PAIGC desencadeou uma flagelação com armas pesadas. Logo após caírem as primeiras salvas o comandante da companhia conseguiu contacto rádio com os G-91, na frequência do apoio aéreo (FM 49.0 Mhz), e utilizando a quadrícula de coordenação indicou a localização da base de fogos do inimigo. Os aviões apareceram rapidamente sobre o local e atacaram com foguetes 2,75” e metralhadoras as posições indicadas o que fez parar imediatamente o ataque ao aquartelamento. Logo a seguir o pessoal do Exército começou a ouvir nos “transistores” vozes cubanas pedindo macas e enfermeiros para socorrerem as muitas baixas que tinham sofrido. Estes resultados foram divulgados de imediato através de uma mensagem “relâmpago” que não chegou ao meu conhecimento.
Lembro-me, no entanto, que na manhã do dia seguinte, 10 de Abril de 1968, fui escalado para uma missão com o Cap Vasquez que era na altura o comandante da Esquadra 121. A caminho da linha da frente disse-me que íamos ver se Madina do Boé precisava de apoio e que os aviões iam armados com bombas incendiárias e foguetes, para além das metralhadoras, é claro. Percebi depois que ele estava ciente do resultado do ataque no dia anterior e pretendia tentar uma segunda oportunidade.
Nem sonhava o que o destino me tinha reservado quando levantei a tampa que escamoteava o botão vermelho do STARTER e o cartucho de arranque do motor disparou. Depois, a rotina das operações aéreas não exigia grandes explicações e, que me lembre, não houve praticamente quaisquer comunicações entre os dois pilotos. Descolámos e eu segui o nº1 em escalão de combate a cerca de 300 mts de distância. O comandante da parelha voava o G-91 5403 e eu o 5427.
Ainda estávamos a subir acompanhando o Rio Geba quando o nº1 tentou o contacto rádio com Madina do Boé:
-Madina, Madina, Tigres chamam!
Mal terminara a chamada ouvimos imediatamente a voz do capitão Aparício, sinal de que estava à espera que aparecessem aviões na frequência de apoio ar-solo:-Tigres, aqui é Madina! Informo que o inimigo está a instalar-se a meio da encosta no ponto 2! - disse isto muito de seguida como se tivesse a informação presa na garganta e estivesse em pulgas para a soltar.
Acho que, embora bem sentado e amarrado, até estremeci. É desta que levam, pensei logo eu. Na quadrícula verifiquei que o ponto 2 era uma pequena elevação chamada Felo Gorlige que ficava mais ou menos no enfiamento da pista de Madina. Conhecia perfeitamente o local. A resposta do Cap Vasquez, no seu estilo peculiar que mais parecia um sussuro, foi extraordinariamente pausada e lacónica não deixando transparecer a emergência que subitamente nos caira no colo:
-Madina, entendi que estão no ponto 2 a meio da encosta. Confirme!
-Afirmativo Tigres, afirmativo!
Depois destas comunicações nenhum de nós disse qualquer palavra. Cada um ficou a pensar com os seus botões. Eu pensava que apesar da situação parecer favorável a indicação de “a meio da encosta” deixava em aberto uma grande margem de erro. Além disso, se a vegetação na zona fosse relativamente densa a cobertura ia ser reduzida e, em consequência, a margem de erro aumentava.
Vi o avião da frente voltar ligeiramente á direita porque baixou a asa desse lado durante uns momentos e a seguir começou a descer e a afastar-se, indicação de que estava a acelerar. Calculei que fosse adquirir à volta de 400 KIAS e foi isso que aconteceu.
Estávamos nessa altura a cerca de 60 Kms em linha recta e nessas condições era impossível descortinar a zona onde se localizava Madina. Na trajectória que seguiamos passámos praticamente sobre a confluência do rio Corubal com o rio Geba e foi sempre a descer suavemente que fomos perdendo altitude. Aproveitei para ir ligando o armamento e certifiquei-me, por diversas vezes, que tinha os “pylons” internos ligados e os externos, que suportavam as calhas dos foguetes, desligados. Faltava apenas armar as espoletas o que normalmente se fazia já muito perto do alvo mas dessa vez resolvi deixar tudo pronto para o ataque. Não queria falhar. No visor seleccionei 140 milésimos que era a minha referência pessoal para as incendiárias em voo rasante a 400 KIAS.
Quando cruzámos novamente o rio Corubal, a cerca de 15 kms de Madina, começámos a perceber os contornos do terreno e pensei então que o melhor seria largar as bombas no seguimento do impacto das do nº 1 para tentar aumentar a extensão da zona coberta. Estas conjecturas foram interrompidas porque entrámos em voo baixo e deixámos de ver a zona do alvo. De Madina, no prolongamento da pista, o terreno eleva-se ligeiramente para  Oeste e os aviões vinham a voar abaixo dessa lomba. Foi bom porque isso iria garantir uma surpresa total e, apesar de por alguns momentos não vermos o objectivo, sabiamos que os aviões voavam alinhados com ele. A partir desse momento entrámos numa final longa e alucinante, característica dos ataques a muito baixa altitude, em que o terreno parecia escorregar freneticamente por debaixo da barriga do avião. Só quem passou por situações como esta poderá entender o que senti naqueles momentos porque eu não sou capaz de o reproduzir por palavras com a eficácia merecida. Os dados estavam lançados e a expectativa do que estava prestes a acontecer devia estar a injectar-me “toneladas” de adrenalina no sangue.
Concentrado no controlo do voo e no seguimento do avião da frente vi de repente o nº1 desaparecer  quando passou a pequena lomba antes da pista e continuou rente ao solo. Segundos depois foi a minha vez e nessa altura já vi o outro avião parecendo trepar a encosta do Felo Gorlige. De repente vi o clarão das bombas a explodir mas, à distância, pareceu-me que o espalho não tinha sido grande coisa.
Focado na encosta onde ia largar o armamento e com a velocidade que levava, não via mais nada. Não vi sequer as casas e abrigos do aquartelamento que ficaram á minha direita, mesmo ali ao lado. Naqueles poucos segundos de acção o meu Mundo encolhera-se espantosamente e resumia-se ao Felo Gorlige.
Foi então que passei por uns momentos de confusão porque, de repente, apercebi-me que não era seguro entrar na fumarada que alastrava sobre a zona do alvo. Não podia largar mais acima como queria e só me restava a possibilidade de largar mais curto e foi o que fiz. Foi tudo muito rápido. Depois entrei na nuvem de fumo do lançamento anterior e limitei-me a puxar o nariz do avião para cima para ter a certeza que não colidia com o solo.
Ainda estava a subir voltando apertado pela direita, todo torcido e comprimido na cadeira de ejecção, a tentar localizar visualmente o avião do Cap Vasquez, quando a voz do Cap Aparício me encheu o capacete:
- Em cheio Tigres, em cheio. Era mesmo aí!
De seguida detectei o nº1 já a voltar sobre o Dongol Dandum numa trajectória que só podia ser para lançar os foguetes no alvo. Armei também os meus e executámos depois 4 circuitos de tiro em que fomos disparando os foguetes aos pares procurando bater a zona envolvente ao redor da mancha de fogo. Depois, como o combustível não dava para mais, o nº1 entrou em contacto rádio com Madina para nos despedirmos ao mesmo tempo que iniciámos uma subida para os 20.000´ de regresso a Bissalanca. Ainda me parece, ao recordar este episódio, estar a sentir a intensa calma que, depois daqueles minutos esfusiantes, pareceu inundar-me o espírito. Como de costume nestas missões entrámos numa inicial curta com o COLLECT TANK a debitar e o respectivo indicador a mostrar menos de 250 lbs de combustivel remanescente.
Duas horas depois, descolei numa segunda parelha de G-91, armada com foguetes e metralhadoras, que bateu outros pontos nas imediações do aquartelamento, segundo a orientação dada pelo comandante da Ccaç 1790. Dessa vez levei o G-91 5401 mas já não consigo determinar quem foi o outro piloto.

O que disseram os cubanos naquele dia

As comunicações rádio dos cubanos escutadas em Madina, na sequência deste ataque, prolongaram-se por várias horas. No essencial pediam apoio para a evacuação da enorme quantidade de feridos que tinham sofrido e referiam também a existência de cerca de 30 mortos. O tom de aflição e a insistência nos pedidos de socorro reflectiam claramente uma situação de extrema gravidade. Foi um apanhado dos indicadores recolhidos nessas escutas que o capitão Aparício plasmou pormenorizadamente numa nova mensagem “Relâmpago” e que eu tive oportunidade de ler no dia seguinte de manhã. Foi com alguma surpresa que tomei conhecimento dos resultados pois nada me indicava com segurança que tinhamos atingido o alvo e que as consequências tinham sido tão devastadoras para o PAIGC[6]. A única informação que podia ter algum significado fora a dada pelo comandante de Madina quando largámos as bombas no Felo Gorlige mas essa era uma avaliação visual a uma distância de 3 Kms, portanto pouco fiável.
Não é pois de estranhar que este momento me tenha marcado e se tenha somado aos instantâneos que, passados quarenta e seis anos, ainda perduram na minha memória.
Nos dias 12, 14, 16 e 17 de Abril continuámos a efectuar saídas com os G-91 em apoio de Madina de Boé. A partir de 16 de Abril desistimos da configuração com foguetes e metralhadoras e passámos a levar os aviões armados com duas bombas de 200 kgs nos “pylons” internos e mais duas de 50 Kgs nos “pylons” externos. Só não os levámos à carga máxima (2 bombas de 200 Kgs e 4 de 50 Kgs por avião) por causa da resistência ao avanço provocada pelos suportes que tinham de ser montados nos “pylons” externos com o consequente aumento do consumo de combustível e redução da autonomia.
A actividade da Força Aérea em apoio da Ccaç 1790, durante o período mencionado, e que na prática se manteve com menor intensidade até à desactivação de Madina, acabou por dar resultado e  o  inimigo se não “encolheu as unhas” teve que passar a empregar tácticas menos favoráveis. Mais do que isso não seria nunca possível, nem em Madina do Boé, nem em qualquer outra posição periférica dado que o PAIGC e os seus reforços internacionalistas beneficiavam do santuário proporcionado pelas Republicas da Guiné-Conacri e do Senegal. Nunca abandonou a zona mas as flagelações diminuiram de frequência e de intensidade. Foi certamente para compensar esta quebra nas suas acções ofensivas que passaram a utilizar uma táctica que escapava completamente à acção punitiva dos aviões: os franco atiradores, como referiu o ex comandante da Ccaç 1790 no seu testemunho, atrás reproduzido.
 
A infantaria da Força Aérea também lá esteve (Operação Diana)

A continuação das flagelações e depois os tiros com armas de precisão procurando causar baixas na guarnição de Madina do Boé sugeriu também, na fase que se seguiu às acções atrás descritas, a utilização de meios terrestres da Força Aérea. O comandante do batalhão de paraquedistas nº. 12, na altura o Tcor Para Fausto Marques, deslocou-se a Madina do Boé para perceber melhor a natureza do problema e engendrar um plano de acção. Com base nos elementos colhidos concluiu que só a surpresa poderia garantir resultados visto que tudo apontava para que o aquartelamento estivesse sob observação permanente a partir da vizinha encosta do Dongol Dandum.
Por essa razão foi iniciado o transporte diário em DO-27, directamente de Bissalanca para Madina, de equipas de 4 paraquedistas, simulando voos de rotina. Para encobrir a chegada deste pessoal o avião aterrava de Este para Oeste e, quando dava a volta no fim da pista para se dirigir à entrada do aquartelamento (a meio da pista), parava por momentos para deixar sair os quatro homens que se embrenhavam na mata próxima. Estes voos começaram no dia 11 de Julho e terminaram no dia 15 de Julho de 1968 quando o efectivo do grupo de combate comandado pelo Tenente Para José Manuel Gomes chegou aos 20 elementos.
A missão que lhes foi atribuída rezava assim:

1 - Reconhecer com efectivos reduzidos, evitando a todo o custo o contacto com elementos inimigos ou população, os trilhos que levam às posições de flagelação inimigas.
2 - Efectuar emboscadas nos pontos que o inimigo costuma ocupar para flagelar com armas ligeiras a população de Madina e os movimentos na pista de aterragem.
3 -Emboscar o inimigo nos itenerários de acesso às suas posições, aniquilando-o e capturando o material.
4 - À ordem armadilhar as pontes do rio Capege e Mael Bane.

A orientação táctica foi para efectuar o reconhecimento nas imediações do aquartelamento, na medida em que o grupo de combate fosse engrossando. As saídas deviam ser executados principalmente à noite, aproveitando a fase da lua, e durante o dia o pessoal devia manter-se escondido e em repouso. Depois de reconhecidos os trilhos que 
o inimigo utilizava nos seus movimentos deviam então ser montadas emboscadas nos locais mais prováveis de passagem.
Logo no segundo dia foi efectuado um reconhecimento ao alvorecer em que foram empenhados os primeiros quatro paraquedistas que haviam chegado no dia anterior, apoiados por um grupo de combate da Ccaç 1790. Nesta saída o inimigo, atento a todos os movimentos, bem instalado no balcão do Dongol Dandum, flagelou o grupo de três direcções, com um efectivo estimado em cerca de vinte elementos, tendo ferido um guia nativo. A intenção era reconhecer a área no topo Oeste da pista mas por causa deste ataque tiveram de inflectir para Este, depois prosseguiram para Norte e a seguir voltaram para Oeste atravessando a picada para o Che-Che em direcção a uma pequena elevação conhecida como “Colina de Madina”. Por informação da Ccaç 1790 esta zona era por vezes utilizada pelos guerrilheiros que até já teriam sido atingidos por uma salva de morteiros e sofrido baixas. De facto, descobriram os impactos das granadas de morteiro e raminhos partidos com vestígios de sangue. Para além disso, o terreno amplo e aberto tinha boas condições para se montar uma emboscada. Depois de reconhecerem toda a zona subiram a vertente Oeste do Dongol Dandum, desceram pela vertente contrária e acabaram por regressar ao aquartelamento vindos de Este.
No terceiro dia foram empregues os oito paraquedistas que já estavam disponíveis. Para efeitos de dissimulação integraram-se novamente num grupo de combate da Ccaç 1790 que ia apanhar lenha nas imediações da picada para o Che-Che. Depois seguiram para Leste até ao rio Barquege (a 1,5 Km) tendo encontrado posições de morteiro a cerca de 1 Km  do aquartelamento. Nesta e nas restantes saídas houve problemas com os guias[7] porque eles sabiam perfeitamente por onde os guerrilheiros andavam, tinham medo e também tinham um grande receio do escuro da noite.

O truque de falha do gerador

No quarto dia sairam às 02H00 12 paraquedistas que foram montar a primeira emboscada junto às posições de flagelação que tinham sido reconhecidas no dia anterior. Por recomendação do pessoal da Ccaç 1790 foi simulada uma falha do gerador eléctrico para encobrir a saída. Em Madina, quando falhava o gerador ficava tudo às escuras até que a iluminação voltasse a ser reposta. O mais preocupante era a perda da iluminação do perímetro de segurança, balizado com arame farpado, e por isso era usual os sentinelas dispararem algumas rajadas para o exterior no sentido de dissuadir eventuais tentativas de infiltração. Como havia necessidade de encobrir  a saída dos paraquedistas foi sugerido  ao Ten Gomes que fosse simulada a falha do gerador para confundir os olheiros do PAIGC. E foi assim, com as luzes apagadas e os sentinelas ao tiros para  o Dongol Dandum, que os 12 homens do Ten Gomes afastaram o cavalo de frisa que dava acesso à pista e esgueiraram-se para a direita na direcção Leste.Pouco depois chegaram ao local pretendido onde montaram uma emboscada mas o inimigo não se revelou até ao alvorecer.  No regresso, já dia claro, foram flagelados com armas ligeiras a partir da encosta do Dongol Dandum quando entravam no aquartelamento. Até esse momento, dado que nos primeiros dois dias as saídas foram feitas juntamente com pessoal de Madina e desta vez fora aplicado o “truque do gerador” o inimigo nunca se terá apercebido da presença de outras forças pelo que a vantagem da surpresa ainda se mantinha.
No quinto dia a acção anterior repetiu-se, desta vez com dezasseis paraquedistas, e o local escolhido para a emboscada foi entre o topo da pista e a Colina de Madina na zona que tinha sido reconhecida no segundo dia. No entanto, dessa vez também não houve contacto e o grupo regressou a Madina já o sol ia alto.

Finalmente a surpresa resultou

No sexto dia[8], 16 de Julho de 1968, sairam pelas quatro horas da manhã dezoito paraquedistas que rodearam o Dongol Dandum por Leste, seguiram depois pelo vale do rio Barquege e foram aquietar-se na encosta Sul, um pouco a Norte da antiga tabanca de Sebere Dandum. Foi nessa posição que às oito horas da manhã ouviram o tiroteio de uma flagelação a partir da encosta Leste. O Ten Gomes deu então instruções para o  grupo abandonar a posição e subir para Norte até encontrar o carreiro da guerrilha que levava à vertente Leste. A deslocação foi inicialmente complicada pela reacção do guia nativo que os acompanhava dessa vez e que, transido de medo, se recusou a prosseguir. Teve que ser deslocado para o fim da coluna onde  ocupou a última posição e na prática passou a ser rebocado pelo último paraquedista. 
Ao chegarem ao trilho, a meia encosta, procuraram rapidamente uma zona que proporcionasse um campo de tiro e montaram um dispositivo em L invertido em que a perna maior, com dez paraquedistas, se estendia a subir ao longo do trilho e a menor 90º à direita, de frente a uma pequena clareira. Numa posição recuada em relação à perna maior ficaram o 1º Cabo enfermeiro Giroto e o homem do rádio.
Poucos minutos depois avistaram os primeiros guerrilheiros que desciam a encosta completamente descontraidos e na galhofa[9] mas apenas cinco entraram na zona de morte que era pequena. Os paraquedistas viram-se obrigados a abrir fogo porque o guerrilheiro que seguia à frente já estava apenas a quatro metros de distância. Como este trazia a Kalashnikov em bandoleira não foi o primeiro a ser abatido, foi o segundo da fila que trazia binóculos ao pescoço[10] e a arma em posição de fogo. Só depois o Fur Capucho atingiu o primeiro homem da fila. A disciplina de fogo que era um dos pontos fortes das tropas paraquedistas, ao contrário do que sucedia com a generalidade das nossas forças na Guiné, funcionou aqui em pleno mais uma vez. O terceiro homem da fila, abatido pelo soldado José Santos, caíu a cerca de seis metros da emboscada. O quarto também foi atingido e foi nessa altura que o quinto guerrilheiro o tentou auxiliar tendo chegado a arrastá-lo de nível na clareira, vários metros para Oeste, ao mesmo tempo que os restantes elementos do grupo que ainda se encontravam encobertos pela mata abriram fogo ao longo do trilho na direcção dos paraquedistas. No entanto esses dois guerrilheiros não conseguiram escapar porque o 2º Sarg Lança movimentou rapidamente a sua equipa de modo a conseguir posição de fogo e acabaram abatidos também mas não conseguiram alcançar os corpos para lhes retirar as armas. Do lado dos paraquedistas a reacção cega do inimigo provocou duas baixas: o Ten Gomes foi ferido numa perna assim como o apontador da MG 42, 1º Cabo Cabaço, que se encontrava ao seu lado.

 16 de Julho de 1968, emboscada pós-ataque do PAIGC a Madina.
Com dois feridos e com um número indeterminado de guerrilheiros em posições mais elevadas não foi possível explorar melhor o sucesso mas a equipa do 2ºSarg Lança encontrou rastros de sangue ao longo da mata de onde o grupo inimigo tinha surgido. Nas circunstâncias foi necessário quebrar o contacto para trazer os feridos imediatamente para Madina e evacuá-los. No entanto o grupo ainda foi flagelado sem consequências, desta vez de um ponto mais para Sudoeste da zona. A retirada fez-se para Este, mantendo o nível da meia encosta e foi protegida  com alguns disparos para as matas mais acima. O Ten Gomes teve que ser amparado por outro paraquedista e o 1º Cabo Cabaço que estava em pior estado, foi carregado por dois companheiros. Ao aproximarem-se de Madina começaram a avistar pessoal da Ccaç 1790 que tinha saído do aquartelamento e se dirigia ao seu encontro na tentativa de dar apoio.

Coube-me a mim efectuar a evacuação dos dois feridos. Comigo viajou o Tcor Fausto Marques e por um feliz acaso alguém fez uma foto do DO-27 3460 aterrado na pista de Madina onde eu, o Ten Gomes e um soldado da Ccaç 1790 aparecem. É a única prova que ainda tenho de que alguma vez estive “no Algarve na Guiné”...  






[1]              O próprio aquartelamento ficava no sopé de uma elevação chamada Dongol Dandum com cerca de 100 metros de altura
[2]              Testemunho de Ulisses Estrada Lescaille em “Recordando a Amílcar Cabral, líder anticolonialista de Guinea Bissau” no dia 21 de Maio de 2003:
                  
                “Una vez concluida la misión en el Uvero, en noviembre de 1966, a pesar de la preocupación de Amílcar - que no se encontraba en el país, por temor a la muerte o captura de uno de nosotros en los frentes de batalla, me uno a las guerrillas comandadas por Domingo Ramos, comisario político del PAIGC, en la primera operación militar de envergadura en la que participan los instructores militares cubanos, bajo el principio de convertir el combate en una escuela.”

[3]              Note-se como Oramas, numa lógica de culto da personalidade, tradicional nas ditaduras comunistas, fantasia sobre a acção do chefe guerrilheiro para a acomodar ao seu estatuto de herói nacional, apesar do desaire sofrido. Não me parece nada credível que o movimento de Domingos Ramos tenha sido para cobrir o Ulisses que é um preto matulão. Era mais digno e honroso que se atirasse para cima da Isabel. O mais provável é que Domingos Ramos que estava de pé, pois era o chefe e só assim conseguia ver os impactos do B-10, tenha sido atingido e desfaleceu caindo sobre o Ulisses que estava ao seu lado.
[4]              Esse exemplar da quadrícula para o apoio aéreo a Madina do Boé ainda existe.
[5]              KIAS – Knots Indicated Air Speed (velocidade ar indicada em milhas náuticas por hora)
[6]              Testemunho do ex comandante da Ccaç 1790 actual Tcor Inf (R) José Aparício após uma visita à Guiné em 1994:
            “Regressados a Madina visitámos os montes circundantes de onde éramos atacados. Constatei que a quadrícula alfa numérica que utilizávamos estava correcta, e os vários pontos eram efectivamente as bases de fogo que referenciámos na quadrícula.
            Um dos elementos que nos acompanhava, e que desempenhava as funções de governador do Gabu, mas que nos tempos da nossa permanência pertencia às forças do PAIGC estacionadas na zona, pediu-me para o seguir sózinho, que me queria mostrar um local; pediu-me para não tirar fotografias e não falar do assunto aos jornalistas e operadores de imagem que nos acompanhavam, o que cumpri, naturalmente. Chegados ali, na contraencosta de um dos montes à volta de Madina, na direcção (E), mostrou-me o local onde foram enterrados os mortos do PAIGC na zona, descrevendo-me a maneira como enterraram os corpos. Quem ficou constrangido e embaraçado pela situação, fui eu, e por respeito não ousei voltar a olhar com insistência para o espaço e estimar o número de sepulturas, mas que eram muitas. Na longa conversa que ali mantivemos, referiu-me os ataques aéreos de 9 e 10 de Abril de 1968 confirmando o juízo que ao tempo tínhamos formulado das circunstâncias de então. Falou-me também das dificuldades que tinham nas evacuações de feridos, já que os hospitais de que o PAIGC dispunha na região com médicos cubanos, se encontravam longe, em Boké a (S) e Kundara a (N). As forças do PAIGC à volta de Madina tinham enfermeiros cubanos, que nos dias dos citados ataques se viram ultrapassados pela situação passando toda noite a pedir auxílio para transportar os muitos feridos existentes, o que foi ouvido em Madina.”
[7]  Os guias nativos eram soldados do recrutamento local que estavam agregados às companhias metropolitanas. Eram necessários não só porque conheciam o terreno mas também porque eram os intérpretes quando eram feitos prisioneiros ou se encontrava população.
[8] 16 de Julho de 1968.
[9] Faziam aquilo praticamente todos os dias.
[10] O homem dos binóculos (e com um relógio russo) era um cabo verdeano que declarou ser o chefe de um grupo de sete elementos que efectuava as flagelações com armas ligeiras a Madina. Faleceu alguns minutos depois.  

Voo de Ligação:
Gen.Pilav. Nico

Revista "Mais Alto" 413