domingo, 24 de outubro de 2010

Voo 1963 XXXV ENCONTRO DOS "KAMANGAS"

XXXV ENCONTRO

13 DE NOVEMBRO DE 2010

A concentração é na Quinta do Lago pelas 11.30 horas, seguindo-se o Almoço.

O organizador é o José Chambel, telefones 965 481 543 ou 241 871 414 ou josechambel@yahoo.com.br.

As inscrições deverão ser efectuadas até 30 de Outubro.

APARECE



Voo 1962 MEMÓRIAS QUE NÃO DEVO ESQUECER.



Nuno Almeida
Esp.MMA
LISBOA



Ao ler o voo 1959, do Lanceiro, percebi que, apesar de não ter queda para transcrever o que na cabeça e no coração me vai, devo fazê-lo para que a nossa passagem pela F.A. seja melhor entendida, principalmente por aqueles que, antecipadamente, eram preparados para a guerra (e que não era o nosso caso). Éramos simples mecânicos que se viram confrontados com situações que não nos eram familiares. Mesmo dentre o nosso seio de especialistas, creio que os que não eram da linha da frente dos helis ou das DO's, não se apercebiam o que se passava com esses camaradas que iam às zonas de guerra, resgatar feridos e mortos.
Começo por recordar a minha primeira evacuação de um fuzileiro em zona de combate:
Com poucos dias de Guiné, e estando na linha da frente dos ALLIII, fui chamado pelo Ten. Glória, que me diz: como esta evacuação é uma coisa simples, vai o "poeta" para se treinar a recolher o ferido e a introduzir a maca em situação de emergência.
Recorde-se que tinha 21 anos, feitos há 2 meses, e nenhuma preparação para lidar com a guerra e muito menos com a morte!!!

Legenda: Uma evacuação chamada "À Zona"
Foto:Miguel Pessoa(direitos reservados)

Fui, recolhi o ferido, levantámos vôo, e a enfermeira (que não recordo quem era, visto ser piriquito) começa, de imediato, a tentar estabilizá-lo, dando-lhe morfina e introduzindo-lhe soro.
Olho para baixo e vejo um corpo em tronco nú, com o ventre todo aberto, uma cara pálida, de bigode, com os dentes em esgar de dor e sofrimento, e segurando uma medalha esmaltada, presa num fio ao pescoço, com a foto da mulher e da filha, que beijava ininterruptamente, dizendo: minhas queridas, nunca mais vos vou ver.
Eu, tentando dar-lhe ânimo, ponho a minha mão no seu peito e digo que não deve dizer isso porque estamos já a poucos minutos do Hospital.
Repentinamente, aquele homem, que para sempre permanecerá no fundo das minhas memórias, cerra os dentes na medalha, com as duas mãos aperta-me o pulso, revira os olhos e a cabeça tomba para o lado, morto.
Até à chegada ao Hospital, vim dobrado sobre ele, com aquelas mãos apertando-me tão fortemente, que não consegui libertar-me. Só os maqueiros do Hospital conseguiram separar-nos.
Chegados à BA12 fui direito ao ten Glória, chamando-lhe todos os palavrões que pude e dizendo-lhe que nunca mais iria fazer evacuações, nem que ele me matasse.
Na sua sabedoria e como humano que era, disse para me acalmar, que fosse descansar e regressasse quando quisesse.
Não sei como, mas esqueci o sucedido, e, no dia seguinte, apresentei-me ao serviço sem nunca mais lembrar essa evacuação.
Só muitos anos mais tarde, acordei, a meio da noite, a ver aquele rosto pálido, de bigode, com um esgar nos dentes, a tombar a cabeça de olhos revirados, e chorei como tinha chorado em 1972 na Guiné.

O Poeta


VB:Bom Dia,Nuno.
À muito tempo que aguardávamos uma aterragem tua, que só agora se verificou e com uma excelente e real discrição de acontecimentos que, só nós da linha da frente, infelizmente vivemos, embora no caso dos pessoal dos "zingarelhos" *
fosse vivida de uma maneira mais directa visto a evacuação muitas vezes ser feito no próprio local onde o ferido foi atingido.
É um relato que devia ser lido por todos aqueles que muitas vezes põe em dúvida a nossa operacionalidade no teatro de guerra na Guiné.
Gostava que este teu voo servisse de incentivo a muitos dos nossos camaradas especialistas, bem como pilotos e enfermeiras, para que, tal como tu viverão situações deste género, nos descrevessem na 1ª pessoa.
Mas não deixaria de ser menos importante o relato dos evacuados que hoje estão vivos e com saúde.

*Como alcunhavamos ao All III

sábado, 23 de outubro de 2010

Voo 1961 O LARGO DO LICEU.



Miguel Pessoa
Cor.Pilav.(refº.)
Lisboa


O LARGO DO LICEU



Atendendo às circunstâncias, o largo do Liceu, em Bissau, era um local razoavelmente agradável para se viver. Não vou referir que era soalheiro pois seria um termo redundante para aquele território. Também não era muito fácil de confirmar isso, que os horários apertados da Base afastavam o pessoal daquela zona durante praticamente todo o dia.

Depois do serviço, infelizmente para as enfermeiras paraquedistas, que ali moravam, uns tantos malandrins da BA12 demandavam o local para ali sacar um jantar ou garantir um bate-papo ao serão, que os fizesse esquecer o dia seguinte. Verdade seja que muitas vezes carregavam para ali as encomendas que recebiam, vindas da metrópole, que partilhavam com todos os presentes.

Habitava na vizinhança outro pessoal da unidade, algum vivendo com as respectivas famílias, por isso também era habitual que a miudagem do grupo circulasse pela casa com alguma frequência. Na prática, o refúgio das enfermeiras paraquedistas não lhes garantia na maior parte dos dias o descanso de que precisariam.

À noite, depois do jantar, o pessoal na casa e alguns vizinhos vinham sentar-se no "muro das lamentações", que delimitava o prédio, onde se entretinham a beber um digestivo e a dizer mal da vida (tudo relativo, que sabíamos haver gente a viver um dia-a-dia bastante pior...).

No local existia um candeeiro que iluminava razoavelmente o local, embora com o inconveniente de chamar os mosquitos, os quais acabavam naturalmente por procurar a carne fresca ali abancada.

Por isso, normalmente tínhamos a iniciativa de ir à base do candeeiro desactivar o fusível, apagando a luz, o que reduzia os assaltos dos mosquitos. Depois de o piquete da electricidade se ter deslocado várias vezes ao local para reparar a avaria, decidiu aquele fazer uma ligação directa ao candeeiro, o que nos tirou a possibilidade de desligar a luz. Novas tentativas foram feitas pelos utilizadores do muro, com recurso a um deles, mais habilitado ao alpinismo. Assim, desatarrachou-se a lâmpada e, mais tarde, face à insistência do piquete em mostrar trabalho, até a lâmpada desapareceu. Mas logo foi reposta...

Uma noite, incomodado pelos mosquitos, um dos presentes resolveu pegar numa pedra e atirá-la à lâmpada, partindo-a. Empenhado, o piquete substituiu de imediato a lâmpada e o serão, na noite seguinte, voltou a ser bem iluminado - e também infestado de mosquitos. Igualmente empenhado em resolver este problema, alguém do grupo resolver tomar uma atitude ainda mais radical: pegou na sua pistola, dirigiu-se ao candeeiro e enfiou um tiro na lâmpada. Sucedeu aqui uma coisa interessante, que foi o facto de a lâmpada, mesmo partida, continuar acesa - o que era fisicamente improvável, pois o vácuo já não existia na dita cuja. Até hoje ainda não compreendi bem a que se deveu tal facto; se à qualidade da lâmpada, que resistia a tudo e todos, se à qualidade do digestivo, que nos punha a ver coisas que afinal não existiam...

Miguel Pessoa

VB.Olá Miguel.
Na realidade este texto nunca "aterrou"nesta base.Só hoje aqui chegou e de imediato resgistado
.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Voo 1960 QUE SUSTO.





António Loureiro
Fur.PA
Figueira da Foz




Quando cheguei ao sítio e vi a fotografia dos HUC?s e o princípio da msg do nosso amigo Castelo Branco, até senti um arrepio na espinha, porque não estava a entender bem o espírito da coisa, mas mesmo assim, lendo integralmente o texto bem como o comentário, embora mais aliviado, não deixei de ficar constrangido.
Só conheço dois tipos de manutenção, a preventiva e a correctiva, no caso do nosso Comandante, parece enquadrar-se mais na segunda hipótese e isso por si só já é preocupante, algo não está bem.
Seguramente que estás em boas mãos, naquele oitavo piso não se brinca em serviço, é preciso ter um arcaboiço fora do comum para aguentar trabalhar naquelas condições que, não errarei muito, se disser que é em stress máximo, cai ali gente de todo o lado, é simplesmente impressionante.
Infelizmente, pelas longas horas que por ali passei, tanto por mim como pela minha mulher, conheço muito bem aquele ambiente, mas também é reconfortante saber que é ali que se encontram equipas de especialistas que ombreiam com qualquer outras a nível mundial.
Caro Comandante, como já deves ter entendido, tudo tem que levar o seu tempo, para quem passa por elas acha que o processo é moroso, que parece que as coisas não andam como deviam andar etc, mas eles sabem o que estão a fazer e só te resta conformares-te e confiares neles, simplesmente porque eles são os melhores e se eles entendessem que se justificava mais urgência, eles também lá estavam para tomar essas decisões.
Para quem tem seguros ou possa pagar a celeridade e isso custa muito caro, tem também um Centro em Bencanta (A casa Amarela) que trabalha com os médicos dos HUC e não só, ainda o ano passado um primo meu lá foi ao Dr Travassos (um mago da oftalmologia) tirar as cataratas.
Tem calma, que a seu tempo, tudo se resolverá à medida dos teus desejos e nossa N.S. Do Ar estará certamente contigo.
As melhoras e um abraço

António Loureiro