domingo, 6 de setembro de 2015

Voo 3401 PEDAÇOS DAS NOSSAS VIDAS: VI - Um ataque com "olhos azuis"




Miguel Pessoa
Cor Pilav

Lisboa





Caro Victor,
Como falado telefonicamente, segue o artigo feito pelo General Nico, que já deu a sua anuência para a publicação no blogue dos Especialistas da BA12.

Ele apenas gostaria que se mantivesse dentro do possível a disposição original e que preferencialmente fosse publicado num único poste.
Abraço. 
Miguel
 
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PEDAÇOS DAS NOSSAS VIDAS
 
Cumpri muitas missões durante a minha carreira na Força Aérea Portuguesa. A comissão na Guiné, porém, sobrepôs-se a todas as outras e marcou-me indelevelmente para o resto da vida. A mim e certamente a todos os que, de algum modo, partilharam a mesma experiência. É dela ou de acontecimentos com ela relacionados, que vos irei dando conta…
 


VI –  Um ataque com “olhos azuis”
 
Embora não tenha tomado parte directa na acção nunca esqueci o dia 6 de Janeiro de 1969. Há uma razão para isso: conservo ainda uma munição da metralhadora AA quádrupla ZPU-4 que nesse dia abriu fogo contra os G-91, a partir de Sangonhá, no Sul da Guiné, local que tinha sido até poucos meses antes uma posição do Exército Português. Sempre que olho para aquele pedaço de metal inerte imagino a chuva de projécteis iguais que em diversas situações sairam dos tubos dos famosos “quatro bocas” (1)  e nos passaram ao lado sem nunca nos conseguirem derrubar (2) . Como é que essa memorabile de uma arma AA que efectivamente disparou contra os nossos aviões veio parar às minhas mãos é a história que me proponho contar neste episódio dos “Pedaços das nossas vidas”.
                                                                           
ZPU-4. Desenho de Paulo Alegria
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(1) “Quatro bocas” designação que os cubanos davam às metralhadoras AA ZPU-4. Embora, por razões de “auto-estima” os guineenses nunca tenham admitido, existem grandes probabilidades dos dispositivos anti-aéreos do PAIGC e, em particular as ZPU e os canhões AA 37mm, terem sido operadas por cubanos. Os quatro canos da ZPU-4 debitavam 2.400 tiros por minuto e as munições chegavam aos 15.000´ de altura embora o alcance eficaz fosse de 4.600´ . Em qualquer caso o perigo maior para um alvo rápido como era o G-91 era a densidade de projécteis na trajectória do avião e menos a destreza do apontador.
(2) Houve aviões abatidos por outros tipos de armas AA e também pelos misseis Strella mas nunca tivemos uma perda provocada, nem pelas ZPU-1-2 ou 4, nem pelos canhões de 37 mm.




O ideal missionário do povo sueco
 
Não é possível descrever este acontecimento sem primeiro tentar traçar as linhas mestras do apoio sueco aos movimentos de libertação, durante a guerra que nos foi imposta em África, pois está directamente implicado no que vos quero relatar. Além disso, estou convencido que poucos terão consciência da dimensão e importância das acções que os suecos moveram contra Portugal nesse desastroso período da nossa história em que abdicámos totalmente do projecto da nação pluricontinental e multirracial, independentemente  da situação objectiva em cada território,  e  embarcámos  revolucionariamente na infame descolonização. Em última análise, os suecos contribuíram também para os mortos, estropiados e feridos que sofremos durante a guerra. Esta é, por isso, também uma oportunidade para lançar alguma luz sobre a dimensão e natureza do sistema adversário que enfrentámos e a que conseguimos resistir durante treze anos, apesar do diminuto peso estratégico do país.
Trata-se de uma questão que merece naturalmente uma análise muito mais abrangente do que o espaço para o presente artigo permite. Irei, por isso, tentar sintetizar o essencial do que achei até agora sobre a “amizade e solidariedade” sueca em relação aos movimentos de libertação e, consequentemente, o seu papel de inimigo como parte do sistema adversário que nos moveu a guerra.
Comecemos então pelo conceito de sistema adversário, por contraposição com a ideia corrente de que os nossos inimigos foram apenas os movimentos de libertação. Na realidade, estes beneficiaram de promotores e de apoios externos que foram engrossando com o passar do tempo até atingirem uma escala quase global. Estes apoios e os próprios movimentos de libertação estavam interligados e actuavam de forma coordenada para alcançar o mesmo objectivo estratégico e por isso devem ser considerados como um sistema. Assim, todos os que contribuíram objectivamente, por qualquer forma, para desapossar Portugal dos seus territórios ultramarinos, promovendo a liberdade de acção e a capacidade dos movimentos de libertação, foram elementos desse sistema adversário e, portanto, foram também nossos inimigos na Guerra (3) . Numa listagem por defeito aponto os que me parecem os mais óbvios mas, muitos outros, incluindo a gama dos países amigos com comportamentos ambivalentes, ficam por mencionar: as oposições políticas internas, diversas individualidades espalhadas um pouco por todo o Mundo, a URSS, a China, a Coreia do Norte, Cuba, os países do Norte da Europa, Argélia, Tunísia, Egipto, Senegal, Guiné-Conacri, Républica do Congo, Républica Democrática do Congo, Zambia, Tanzania, o Movimento dos Não-Alinhados, a Organização da Unidade Africana e a Organização das Nações Unidas.
No grupo dos países do Norte da Europa notabilizou-se sempre a Suécia que, após uma fase de apoio informal mas efectivo, acabou por dinamizar os restantes países nórdicos (4)  para actuarem também abertamente contra Portugal, a partir de 1969.
De forma algo diferente dos que agiram apenas por razões políticas de natureza institucional, na Suécia verificou-se sempre uma simbiose entre a sociedade civil e o Estado. Ambos foram actores proactivos e actuaram combinados. Em última análise, o comportamento de um grupo significativo de suecos e de algumas das suas instituições foi claramente um acto de guerra contra os portugueses, muito semelhante ao dos cubanos que enviaram militares e armamento em apoio directo das acções de guerrilha sem que Portugal alguma vez os tivesse atacado ou declarado a guerra. As razões que sustentam esta atitude são naturalmente diversas mas podem ser explicadas e decorrem do sucesso do estado social sueco e de outros factores que justificam os excelentes indicadores de qualidade de vida que entronizaram o país como uma referência de desenvolvimento a partir de finais dos anos vinte do século passado.
Anteriormente, a Suécia fora um país rural, economicamente relativamente débil, que só começou a industrializar-se em meados do século XIX, na cauda dos países europeus economicamente desenvolvidos. Todavia, já nesse período, os fundamentos do estado social que iria ser, no futuro, um pilar fundamental do sucesso do país há muito que estavam enraizados na cultura sueca (5). Conseguiu então, a partir daí, começar a tirar dividendos da Revolução Industrial e a partir do final do século XIX e princípios do século XX a economia acelerou definitivamente dinamizada por numerosos inventores e empresários (6). No entanto, o ambiente social era ainda tão frágil que, desde meados do século XIX até aos anos 30 do século XX, muitos suecos se viram forçados a engrossar o fluxo da emigração europeia para os Estados Unidos.
Com o desenvolvimento económico e a resultante segurança material, cresceu o bem-estar social que por sua vez influenciou a melhoria da estabilidade interna e externa do país e o incremento das liberdades civis. Foram estas conquistas, reconhecidas e elogiadas internacionalmente, que acabaram por incutir nos suecos a presunção de que tinham adquirido não só o direito mas também a obrigação moral de exportar o seu modelo civilizacional para os países menos desenvolvidos e áreas problemáticas. Foi uma atitude que derivou dos princípios luteranos
 
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(3) Tor Sellström, Sweden and National Liberation in Southern Africa, p 64: “...Cabral himself who was the chief architect behind the commodity programme. Supplied with arms from the Soviet Union and its allies, he had from the outset ruled out the idea of military support from Sweden, designing instead a programme of civilian cooperation that at the close of the 1960s was met by no other country”...“Sweden and the Soviet Union were the largest donors to PAIGC. While the former was predominant on the civilian side, the latter was the leading supplier to the military struggle.
 
(4) Noruega, Finlandia, Dinamarca, Holanda e Islandia
 
(5) Tudo terá começado com a Igreja Luterana que, em 1734, lançou as primeiras pedras na construção do Estado Social sueco ao instituir a obrigação de cada paróquia ter um asilo para os mais desfavorecidos e economicamente carenciados - O mito do "socialismo sueco", João José Horta Nobre, Mestre em História Contemporânea, 07 maio 2014
 
(6) Mises Daily, Stefan Karlsson, August 7, 2006.
 
inculcados há muito na sociedade e no Estado (7), os quais exigem que seja feito sempre o melhor (a ética dos virtuosos)  (8) e nestes termos os suecos nunca admitem fazer menos que o melhor, em quaisquer circunstâncias. É por isso que mesmo perante um insucesso um sueco dificilmente reconhece que errou. Este singular comportamento pode ser retratado da seguinte maneira: basicamente “os suecos não têm perguntas sobre os problemas do Mundo mas apenas respostas, que julgam serem as melhores e universais, configurando-se como modelo. Presumidamente, esse modelo poderá conduzir o resto do mundo ao estádio a que eles chegaram, no pressuposto de que isso seria possível e bom para todos” (9).
Por estas razões instalou-se um pendor missionário na cultura sueca que foi reforçado por altura da nomeação, em 1953, de Dag Hammarskjöl para secretário geral das Nações Unidas. O povo sueco passou então a sentir a orientação política e os programas civis e militares da ONU como uma responsabilidade também sua, como foi o caso do programa de descolonização. Psicologicamente, terá sido um lema do tipo “a ONU somos nós” um dos factores que mais influenciaram, nessa altura, a motivação internacionalista da comunicação social, juventudes universitárias, sindicatos e partidos politicos suecos. A acção de Dag Hammarskjöld à frente das Nações Unidas foi avidamente assumida como uma extensão da política externa da Suécia a qual se considerava moralmente responsável por resolver os problemas do mundo, tal como a ONU (10). Foi tão intensa essa motivação que a longínqua e pouco africana Suécia resolveu participar, logo em Dezembro de 1958, na I Conferência de Povos Africanos em Acra, no Gana, claramente em busca de oportunidades de realização. Foi nessa conferência que o Partido Social Democrata sueco, então no governo, estabeleceu os primeiros contactos com os movimentos de libertação africanos os quais constituiram os alicerces do subsequente apoio sob a eufemistica capa de “ajuda humanitária”.
 É claro que esse ideal de “olhos azuis”, como os suecos gostam de classificar as suas “boas intenções”, a “inocência” e aparente “ingenuidade” das suas iniciativas extra-muros, nunca deu ao Mundo novas Suécias pela simples razão de que o que sustenta o estado social e as liberdades suecas é o potencial económico. São tudo coisas muito caras que não são obtidas por ideologias, nem por pretensas boas intenções mas sim com recursos e esses só podem ser gerados por um estado eficaz, investimento, educação e trabalho. Nada disso alguma vez acabou por acontecer nos países seleccionados pela ajuda humanitária sueca e em particular na Guiné-Bissau (11).
Outro aspecto marcante, já referido atrás, foi a clara cumplicidade entre o Estado e a sociedade civil. A explicação para isso parece decorrer do conceito de “solidariedade” que, em sueco, não só se refere à coesão social mas também ao empenhamento e responsabilidade (tanto na Suécia como externamente) quanto a questões humanitárias  (12) e desenvolvimentos de natureza política. Essa atitude contribuiu para reforçar a auto-identificação dos suecos como um povo tradicionalmente avançado moral e tecnologicamente e começou a ganhar visibilidade por altura da Segunda Guerra Mundial,
 

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(7) In the Swedish religious and political tradition, the connection between Lutheranism and Swedish national identity stayed relevant long after the disappearance of religion as an all-encompassing norm in daily life. Catholicism and the Idea of Public Legitimacy in Sweden, ACADEMIC JOURNAL ARTICLE By Harvard, Jonas, European Studies , No. 31 , January 1, 2013 
(8) Até ao ano 2000, a religião Luterana foi a religião oficial do Estado sueco. O luteranismo atribui significado religioso ao trabalho mundano do dia a dia, por meio do qual se pode expressar o amor ao próximo e, consequentemente, agradar a Deus.
(9( Why Swedes would talk about themselves?, Astréia Soares, Doutora em Sociologia pelo IFCS/UFRJ, professora da Universidade Fumec/MG
(10) Gustafsson, 1964, p. 115
(11) Returning to Guinea-Bissau twenty years after his visit to PAIGC’s liberated areas, in 1993 Anders Ehnmark reflected upon liberation and liberty, independence and development, dreams and realities, in his essay ‘The Trip to Kilimanjaro’, concluding that “something which was not predicted has taken place” (Ehnmark (1993) op. cit., p. 113).   
(12) Brian Palmer (1996)
 
 
período que colocou em risco os valores civilizados, cabendo à Suécia, acreditam eles, o papel de sua guardiã (13).
É tudo isto que justifica a paranóia missionária do povo sueco e o fervor no apoio, logo a partir de 1961, através dos OCS, organizações estudantis e partidos políticos, numa altura em que o PAIGC ainda não tinha sequer iniciado as hostilidades (excepto a casca de banana no cais do Pindjiguiti em 3 de Agosto de 1959 (14)) e a política oficial do Estado ainda estava longe de acometer Portugal.
 
A escapatória ética da ajuda humanitária sueca.
Os suecos podem querer convencer o Mundo de que, eticamente, são “de olhos azuis” mas todos sabemos que o estado de desenvolvimento e bem estar que conseguiram (15) são indicadores que não permitem outra interpretação das suas atitudes que não seja a da intencionalidade fundamentada e objectiva. Tinham certamente consciência de que todas as formas de apoio aos movimentos de libertação e em particular ao PAIGC que, dentre eles foi o mais beneficiado, eram letais e redundavam em mortos, feridos e destruição quer entre as forças portuguesas, incluindo as de recrutamento local e ainda as populações civis. De facto, não interessava que a ajuda sueca apenas fosse direccionada para a propaganda, para melhorar e manter as bases no Senegal e na Guiné-Conacri, para fornecer meios de transporte, para o tratamento de doentes e feridos, para financiar deslocações dos dirigentes, etc.. Toda a ajuda contribuía para a capacitação do movimento cujo objectivo último era fazer a guerra e acabar com a presença portuguesa pela força. Não pode ter sido, nem foi outra, a motivação dos suecos.
Ciosos do seu estatuto como país de referência viram-se, por isso, obrigados a arranjar uma forma subtil de conferir uma aura de bondade às suas acções de modo a conservar as consciências


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(13) Why Swedes would talk about themselves?, Astréia Soares, Doutora em Sociologia pelo IFCS/UFRJ, professora da Universidade Fumec/MG
(14) O “massacre do Pindjiguiti” foi intencionalmente provocado especialmente pelo PAI (depois PAIGC) que se tinha organizado três anos antes sob a direcção de Amilcar Cabral. A título de exemplo, para mostrar a mistura explosiva então instalada em Bissau, alguns dos membros do PAI eram membros do PCP  na clandestinidade (Elysée Turpin, Carlos Correia, Abilio Duarte e Rafael Barbosa), outros eram empregados da Casa Gouveia (Elysée Turpin e Carlos Correia estes com duplo chapéu e Luis Cabral). Existiam ainda outros grupos, alguns também dinamizados por Amilcar Cabral e Rafael Barbosa. Toda esta gente conspirava e andava em bicos dos pés para provocar os “colonialistas” e foram eles que manipularam os marinheiros manjacos até à confrontação com a polícia. Basicamente tratou-se de uma greve por razões salariais, que já tinha sido ensaiada antes, e que se foi exarcebando até que em 3 Agosto 1959 deu-se uma inevitável confrontação com a polícia. Nessa altura, os grevistas picados pelos agitadores quiseram assaltar a Casa Gouveia tendo atacado os policias (papeis) com arpões, paus, barras de ferro e remos na tentativa de os desarmar. Obviamente isto resultou em mortes. A partir desse lamentável desfecho, o desejado “massacre” passou a ser, imediata e incessantemente, utilizado no estrangeiro e em particular na Suécia como bandeira para a luta de libertação. Os mortos do Pindjiguiti ficaram para a história da libertação como um crime dos colonialistas e aos companheiros de Amilcar Cabral nunca nada lhes pesou na consciência. Tudo se justificava na lógica marxista que os iluminava. Ver também “Sweden and National Liberation in Southern Africa: Solidarity and assistance”, Tor Sellström, pag 45.
(15) A admissão de que a ingenuidade seja um traço da cultura sueca contrasta com a imagem da Suécia moderna, secular e tecnologicamente avançada e com um alto índice de informação sobre questões internacionais ( Why Swedes would talk about themselves?, Astréia Soares, Doutora em Sociologia pelo IFCS/UFRJ, professora da Universidade Fumec/MG)

impolutas e, em particular, não pôr em causa os preceitos que exigiam não patrocinar ou promover nada que implicasse perda de vidas ou mais sofrimento. Apresentando-se como “um país muito escrupuloso quanto aos princípios”, a ajuda aos movimentos de libertação e em particular ao PAIGC teve que ser justificada de modo a encobrir a sua finalidade última e as respectivas consequências.
Atentemos por isso no termo escolhido para designar esse apoio, precisamente o de “ajuda humanitária”. Efectivamente, esta designação não só dava a ideia de inocuidade como soava bem (para os pouco avisados que eram a generalidade dentro e fora de portas)  e transpirava bondade. Outro factor muito utilizado foi a classificação do regime português como sendo uma ditadura fascista e portanto tudo o que dele emanasse estava automaticamente condenado. Por politicamente correcta validava todo o tipo de iniciativas contra Portugal, promovia a unidade de esforço com as oposições ao regime português e com a comunidade internacional democrática e, também com a não democrática, desde que não fosse ocidental ou, por exemplo, pertencesse ao bloco soviético. O problema é que o que estava em jogo era o projecto e futuro de uma sociedade pluricontinental e multirracial e não a sobrevivência do regime que transitoriamente a governava. A Suécia justificava assim a “ajuda humanitária” aos movimentos de libertação fazendo de conta que estava a combater um regime político quando, na realidade, estava a influenciar decisivamente o futuro de uma comunidade que em termos humanos se projectava muito mais avançada que as que hoje temos. As pessoas não contavam, o que importava eram os “amanhãs que cantam” das ideologias em voga  (16) com consequências terríveis como a conflitualidade, a ingovernabilidade ou as actuais avalanches emigratórias. Também eles, suecos, sopraram os ventos da história contra Portugal e condicionaram a seu belo prazer o futuro dos povos que habitavam os territórios então portugueses. É por isso que entre as características já inventariadas na mentalidade sueca não tenho dúvidas em acrescentar mais uma e esta bem negativa: a hipocrisia, nua e crua.
Mas não eram apenas estes os argumentos falaciosos que os suecos coligiram para justificar a sua “ajuda humanitária”. Outros que pareceriam “não ter pernas para andar” mas foram prontamente validados pelo imaculado povo “dos olhos azuis” foram a invocação do atraso português em termos económicos e o facto da colonização estar a ser feita com pessoas de baixa ou média condição social. Tanto o primeiro como o segundo argumento queriam apenas dizer que os povos africanos de Angola, Moçambique e Guiné-Bissau mereciam colonos mais ricos, mais educados e de mais elevada condição social. Presumivelmente, se esses colonos fossem suecos então estaria tudo bem e esses territórios já seriam uma espécie de Suécias dos Trópicos. No entanto, enquanto nós sentíamos que as características da população portuguesa presente em África nos aproximavam mais das populações autóctones e por isso conferiam melhores condições de entrosamento, convivência e uma evolução comum mais equilibrada e eficaz, para os nossos detractores era tudo negativo e justificava a guerra que promoviam.        
Para além destas considerações é no relato escrito por Tör Sellström, em 2008 (17), que se pode perceber melhor grande parte do racional sueco para justificar o apoio aos movimentos de libertação anti-Portugal:


Declarava-se que essa ajuda não poderia entrar em conflito com o primado do direito internacional, no âmbito do qual se define que nenhum estado tem o direito de interferir nos assuntos internos de outro. Contudo, relativamente aos movimentos de libertação em África, a ajuda humanitária e o apoio à formação académica não devem ser interpretados como estando em conflito com as referidas normas


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(16) Nada mais elucidativo do que comparar as projecções de liberdade e desenvolvimento de Amílcar Cabral para a Guiné-Bissau e a situação real do país após quarenta anos de independência.
(17) A Suécia e as lutas de libertação nacional em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, Tor Sellström, Nordiska Afrikainstitutet, Uppsala 2008

internacionais nos casos em que as Nações Unidas tenham tomado uma posição inequívoca contra a opressão dos povos que lutam pela liberdade nacional. Considera-se que a África Austral ocidental, a Rodésia e os territórios africanos sob suserania portuguesa estão abarcados por essa definição.
Passaremos a seguir a explicar o processo que levou a esta decisão. Entretanto, é de notar que poucos países ocidentais eram tão diferentes entre si como Portugal e a Suécia no período pós-guerra e que as ligações económicas eram inicialmente fracas.
Apesar de ambos os países terem passado à margem da segunda guerra mundial, o fosso, que separava a ditadura fascista do Portugal católico da social democracia da Suécia protestante, era abissal. Na arena internacional, Portugal via-se como um importante portador do estandarte do destino imperial e tinha aderido à OTAN, enquanto a Suécia fazia gala do seu passado não-colonial. Em termos nacionais, o regime de Lisboa seguia uma via ultra-proteccionista, que administrava uma economia retrógrada e estagnada, baseada no sector primário, enquanto que o governo social democrata da Suécia registava um crescimento económico acelerado e era um país cada vez mais exportador, em resultado directo duma política de transformação industrial assente na qualificação. No prisma social, as políticas elitistas praticadas em Portugal criaram taxas de analfabetismo e má saúde pública que colocavam o país mais no terceiro mundo, enquanto as práticas igualitárias do "modelo sueco" colocavam este país na vanguarda da educação e da saúde.
As relações comerciais entre Suécia e Portugal eram bastante marginais até meados dos anos 60. Em 1950, o valor das exportações suecas para Portugal chegava a 28,3 milhões de coroas suecas, ou seja 0,5 por cento do total de exportações. Os números correspondentes para as importações suecas feitas por Portugal representavam nesse mesmo ano 25,1 milhões de coroas suecas, ou seja 0,4 por cento. Dez anos mais tarde o valor das exportações suecas tinha aumentado para 60,9 milhões de coroas suecas, mas a parte de Portugal no total de exportações ficou estável, enquanto a proporção relativa das importações de Portugal diminuiu para 0,3 por cento.12 Era fácil de ver que o comércio externo que a Suécia tinha com Portugal era muito menos relevante do que o que tinha com a antiga colónia portuguesa, o Brasil. Os investimentos directos em Portugal foram, durante muito tempo, apenas de relevância marginal. Apenas algumas empresas suecas, como a SKF e a Electrolux tinham estabelecido sucursais em Portugal nos anos 20, ao passo que algumas empresas têxteis viriam, mais tarde, a fazer investimentos directos. Por junto, havia apenas cerca de cinco empresas suecas em Portugal em 1960 e os seus produtos combinados eram bastante reduzidos.


Esta é uma pequena amostra do convencimento e arrogância sueca em relação a Portugal. A construção ética apenas visou dar cobertura ao que desejavam fazer a todo o custo e que tinha começado a ganhar momento ao tempo de Dag Hammarskjöl nas Nações Unidas.   Sentiram-se, assim, com base em análises claramente preconceituosas, auto-mandatados a dar-nos uma lição. Todavia, tudo o que acima se transcreveu pode agora, que a guerra acabou há muito, ser contra-argumentado. Para não me alongar demasiado limitar-me-ei a comentar a invocação da virgindade sueca em relação ao colonialismo e ao facto do Estado-Novo “criar taxas de analfabetismo e má saúde pública que colocavam o país mais no terceiro mundo”. Em relação ao primeiro ponto é preciso frisar que, no passado, os interesses da Suécia assentaram no comércio marítimo e na indústria do ferro. Por essa razão nunca estiveram muito interessados em ocupar território mas sim em garantir o acesso dos seus navios a pontos de carga e descarga em África e em vender ferro trabalhado. Para além disso, estabeleceram, embora por um curto período, diversos entrepostos na costa do Ghana destinados à aquisição e trânsito de escravos com destino às Américas. Em paralelo com esse comércio avultava o fornecimento das barras de ferro para lastro dos navios negreiros e as  argolas e grilhetas com que os escravos eram sujeitos a bordo e nos pontos de embarque e desembarque. Também mantiveram uma colónia de escravos em Saint-Berthélemy desde 1787 até Outubro de 1847 (18). Por último, em finais do Sec XIX a Suécia participou na Conferência de Berlin com o mesmo estatuto e as mesmas intenções das restantes potencias europeias. Não parece por tudo isto que a Suécia se possa distanciar agora, em termos morais, nem dos portugueses nem dos outros países que colonizaram África.
Sobre “as políticas elitistas praticadas em Portugal que criaram taxas de analfabetismo e má saúde pública” este argumento difundido na opinião pública sueca era claramente mal intencionado. Dava a impressão que o regime era tão mau que estava a fazer o país “andar para trás”. A verdade é que o regime português, apesar de tudo, fazia o que podia depois do descalabro da 1ª Républica e havia evolução. Não tão rápida como seria desejável, ou não tão rápida como a da Suécia, mas isso decorria do que se pudesse considerar como a situação de referência para efeitos de comparação, por exemplo, à data da instauração do Estado Novo. Também resulta claro, bastando para isso olhar para as fotografias da época, que o país de 1926 era completamente diferente do país de 1960. Este alegado retrocesso invocado pelos suecos parece ser resultado da propaganda dos opositores ao regime e dos líderes dos movimentos de libertação, em particular de Amilcar Cabral, Eduardo Mondlane e Holden Roberto, que foi de quem os suecos se aproximaram mais. Outra coisa não seria de esperar.
 
Um ataque atípico no dia 6 de Janeiro de 1969

Naquela segunda-feira, a notícia de um ataque com canhões, ao início da manhã, a Gadamael Porto, sede da CArt 2410 deu logo a ideia de que qualquer coisa estranha estava a acontecer. Não era nada normal o PAIGC desencadear flagelações aquela hora. O que era normal era atravessarem a fronteira durante o dia, estabelecer bases de fogos e depois esperar pelo fim do dia para desencadear os ataques. Podiam depois retirar a coberto da noite, em segurança, com a certeza que, nem o Exército tinha condições para os perseguir, nem a Força Aérea para os detectar e atacar.
Na Base 12 o dia de trabalho estava a começar e o pedido de apoio aéreo que chegou através do comando-chefe fez os dois pilotos da parelha de alerta largar o pequeno almoço, apanhar rapidamente o equipamento e meterem-se no jeep de apoio em direcção à linha da frente. Lembro-me de ter ouvido o que se estava a passar mas tinha outras missões para esse dia e não cheguei a  envolver-me no que aconteceu depois. No entanto, num cantinho da memória persiste uma sensação de choque associada à notícia porque fiquei com a perturbante impressão de que tínhamos entrado numa nova fase da guerra.
Dos G-91 prontos na linha da frente, os dois de alerta, como era normal naquela altura, estavam configurados com tanques de combustível externo, 8 foguetes 2,75”


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(18) Up until the 9th of October 1847 Sweden had a colony in the West Indies called Saint-Berthélemy where there were thousands of slaves. When Gustav III was asked to end slavery in the beginning of the 19th century by Great Britain where the abolitionist movement had grown strong the Swedish king firmly neglected that Sweden had had any participation in having slaves. This denial has lived to our days in Sweden as well on the former Swedish colony Saint-Berthélemy, Pan African Visions » Afro-Swedish Perspectives, Blogs » Living in Denial: Sweden and the slave trade, October 16th, 2012

e as 4 metralhadoras 12,7mm (19). Não havendo outras informações para ajuizar a situação no terreno o que a experiência ensinara era que a presença dos aviões faria o PAIGC “encolher as unhas” e terminar o ataque. Os dois pilotos procuraram, por isso, descolar e chegar o mais rapidamente possível a Gadamael Porto.
Apesar de andar empenhado na recuperação deste episódio há muito tempo, porque penso que deve ficar registado na nossa memória colectiva, não consegui identificar até agora um dos dois pilotos envolvidos. Por exclusão de partes e porque éramos muito poucos, penso que foi o capitão Amílcar Barbosa  (20) o chefe da parelha de alerta, mas não tenho a certeza absoluta. O outro piloto está bem identificado e foi o então tenente Balacó Moreira de quem obtive muita da informação sobre o que se passou.
Dos registos sobreviventes sabe-se que os aviões descolaram às 09H00, que a flagelação teria começado cerca de uma hora antes e visava objectivamente Ganturé, a curta distância de Gadamael Porto onde, para além de um pequeno núcleo populacional, estava destacado o  4º grupo de combate da CArt 2410. Numa primeira fase os rebentamentos foram espaçados e compridos dando a impressão que o inimigo estava a regular o tiro (21). De Ganturé a resposta estava a ser dada com o morteiro 81 operado pelo furriel miliciano Luis Guerreiro. Com o correr do tempo o PAIGC foi aumentando a frequência dos disparos até que a artilharia de Gadamael Porto também entrou em acção na tentativa de suster a flagelação mas sem resultado. O PAIGC disparava cada vez com mais intensidade mas, felizmente, as granadas passavam silvando sobre Ganturé e iam danificar o arvoredo que se estendia para lá da posição. 
Em rota, a parelha de alerta conseguiu entrar em contacto rádio com Gadamael Porto que forneceu uma série de indicações sobre a direcção e distância a que entendiam estar a ser feito o ataque e até dispararam algumas granadas de fumo com o morteiro 81mm para tentar sinalizar esse local. Na carta 1:50.000 essas indicações apontavam para a antiga tabanca de Bricama a cerca de dois Km a SW de Gadamael Porto. No entanto, quando os aviões chegaram à zona, ao passarem junto a Sangonhá, onde estivera instalada uma unidade do Exército até 29 de Julho de 1968 (22), os pilotos foram surpreendidos com o que viram: o  perímetro do antigo aquartelamento estava pejado de gente. Perceberam imediatamente que só podiam ser os guerrilheiros responsáveis pela flagelação a Ganturé. Mas o mais espantoso é que estavam ali, num espaço completamente aberto e sem qualquer espécie de camuflagem. Quase à vertical alguns detalhes tornaram-se então claramente perceptíveis como a presença de três armas com rodado. Uma delas, entre o perímetro do aquartelamento e a antiga pista, era uma anti-aérea ZPU-4 que abriu imediatamente fogo contra os aviões obrigando os pilotos a entrarem num circulo alargado para manter uma distância de segurança. Dentro do perímetro do aquartelamento, no meio dos destroços dos edíficos (23), estavam duas peças de artilharia com um cano relativamente comprido e,  na picada que saindo de Sangonhá se dirigia à Guiné-Conacri, viam-se algumas viaturas incluindo uma ambulância. Deviam ter vindo de Sansalé que era uma pequena aldeia da Guiné-Conacri muito utilizada pelo PAIGC nas suas movimentações junto à fronteira. 
O que é que teria passado pela cabeça daquela gente para se expôr daquela maneira? O PAIGC e os seus mentores cubanos vinham seguindo à risca a cartilha da guerra de guerrilha mantendo-se sempre encobertos e só atacando quando estavam em vantagem. Quando se sentiam em desvantagem furtavam-se ao contacto. No entanto, desta vez, estavam a fazer tudo ao contrário,


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(19) Esta configuração “standard” permitia alcançar qualquer ponto do território, garantia algum tempo de permanência sobre o alvo mesmo no extremo Leste e dava alguma capacidade de intervenção se não existisse reacção AA.
(20) Cap PilAv Amilcar Barbosa, nascido em Cabo-Verde e originário da Esq 51 de Monte Real que morreu no ano seguinte, no campo de tiro de Alcochete, ao lançar uma bomba equipada com uma espoleta experimental que funcionou mal.  
(21) Não foi certeiro na fase de regulação, nem foi certeiro depois por razões que se explicam no texto.
(22) Na reestruturação do dispositivo ordenada pelo Brigadeiro António de Spínola depois de tomar posse como Governador e Comandante Chefe, as posições de Sangonhá e Cacoca que ficavam entre Gadamael Porto e Cacine foram abandonadas.
(23) Os edifícios foram destruídos pelo Exército quando a posição foi abandonada em 29 de Julho de 1968.

de tal maneira que os dois pilotos dos G-91 tiveram dificuldade em assimilar a imagem que a vista lhes oferecia com toda a nitidez. Seria mesmo real o que estavam a ver? O ex-tenente Balacó Moreira confessa que da sua experiência em operações quase diárias no teatro de operações da Guiné nunca tinha dado de caras com o inimigo numa situação tão vulnerável.
No entanto, os aviões da parelha de alerta não estavam equipados para intervir naquele cenário. Quer os foguetes, quer as metralhadoras, para serem eficazes só podiam ser disparados a uma distância relativamente curta do alvo, bem dentro da densa e eficaz nuvem de projécteis cuspidos pelos canos da ZPU-4 à razão de 2.400 tiros por minuto. Pela sua extensão e natureza aquele alvo exigia mais aviões e também munições mais capazes.
O comandante da parelha decidiu por isso abandonar a área e regressar imediatamente à BA12 para que a situação fosse ponderada e tomada uma decisão adequada às circunstâncias. Em qualquer caso, a partir desse momento era tudo urgente porque a guerrilha, tendo sido detectada, devia começar a desmobilizar e desapareceria rapidamente nas matas que rodeavam Sangonhá. Cada minuto de atraso na resposta aumentava exponencialmente as probabilidades de insucesso.
Depois de informar Gadamael que iam regressar a Bissau o comandante da parelha entrou em contacto com o Centro Conjunto de Operações aéreas (CCOA).
-Marte, Tigres chamam! 

-Marte à escuta, transmita!
-Informe o Pirata  (24) que estamos a regressar a Bissau. A situação em Gadamael é a seguinte: flagelação a Ganturé continua a partir da pista de Sangonhá. Em Sangonhá vê-se muita gente no chão, uma quádrupla que abriu fogo quando os aviões se aproximaram, dois canhões com rodado, diversas viaturas e uma ambulância. Sugiro preparação de mais aviões com bombas. Diga se copiou.

-Afirmativo Tigres, tudo copiado vou já passar ao Pirata – respondeu o oficial de serviço.
Tinham passado trinta minutos depois da descolagem quando os dois aviões tocaram na pista de Bissalanca e iniciaram uma rolagem rápida para o estacionamento.


Furriel miliciano Luis Guerreiro operando o morteiro de Ganturé

_________________________
(24) Indicativo pessoal do comandante do Grupo Operacional 1201 que na altura era o Tcor PilAV Francisco Dias da Costa Gomes.

A decisão
 
Assim que foi informado do que se passava o tenente-coronel Costa Gomes pôs o comandante da Zona Aérea, coronel PilAv Diogo Neto, ao corrente da situação. Minutos depois este entrava no gabinete do comandante do Grupo já com a caldeira a toda a pressão o que nele se percebia facilmente pela veia que no pescoço inchava notoriamente quando a tensão arterial subia. A primeira ideia que lhes ocorreu foi lançar uma operação helitransportada mas rapidamente perceberam que não só era demasiado arriscado como ia demorar muito tempo. De facto, com o número de helicópteros prontos não seria possível transportar mais que trinta paraquedistas o que era muito pouco. Não haveria surpresa e, além disso, não havia uma zona de aterragem reconhecida nem havia ideia do perímetro defensivo do PAIGC à volta de Sangonhá. A aterragem dos helicópteros teria de ser feita numa clareira  ad hoc e relativamente longe do alvo não só porque não se sabia por onde andavam os guerrilheiros mas também por causa da ZPU-4. Acresce que se esta não fosse eliminada pelos G-91, o que não podia ser garantido, o apoio de fogo aos paraquedistas não seria exequível. Era também preciso reunir e preparar os homens o que iria demorar pelo menos uns 45 minutos. Finalmente, a velocidade do AL III também não ajudava. Tudo somado, mas em especial o risco de lançar trinta homens num local pejado de guerrilheiros, sem informações adequadas, fê-los desistir imediatamente da ideia.
As hipóteses de acção ficaram assim reduzidas aos G-91 e a quatro pilotos. Os dois da parelha de alerta que estava a aterrar, o comandante da Zona Aérea e o comandante do Grupo Operacional. Os restantes pilotos de G-91 estavam empenhados noutras missões e não estavam disponíveis. Também não havia tempo para montar a carga máxima nos aviões porque era preciso retirar os tanques de combustível  e as calhas dos foguetes dos aviões que tinham ido a Gadamael e montar os suportes que permitiam levar duas bombas de 50 kgs em cada asa, em quatro aviões. Tudo no mínimo tempo possível. Assim, em vez de um total de 8 bombas de 200 kgs mais 16 bombas de 50 kgs foi dada ordem ao pessoal de armamento para montar apenas 8 bombas de 200 kgs mais 8 bombas de 50 kgs.
Entretanto, o comandante- chefe  já tinha sido informado do que se estava a passar e quis falar com o coronel Diogo Neto. Este meteu-se na viatura e lá foi ao Forte da Amura explicar o que lhe parecia mais razoável e eficaz. Como era de esperar a preferência do brigadeiro Spínola ia para o emprego dos paraquedistas mas depois de ouvir as explicações do coronel concordou e deu o seu aval ao “plano de acção”.
Na BA12 os mecânicos e o pessoal de armamento, cientes da urgência da missão, esforçavam-se para aprontar os aviões o mais rapidamente possível. Não conseguiram porém evitar que o coronel e os outros três pilotos que entretanto tinham chegado à linha da frente, completassem as inspecções e ficassem à espera, já sentados no cockpit, que o processo de configurar os aviões com as bombas de “fins gerais” terminasse. Mal as pontas dos arames de armar as espoletas foram cortadas e o sinal de tudo pronto foi passado aos pilotos, começaram a ouvir-se, numa sequência um pouco desencontrada, os silvos dos cartuchos de arranque à medida que iam sendo disparados seguidos do ronco surdo das turbinas em aceleração.




Canhão Zis-2 AC 57 mm pronto para ser atrelado a uma viatura de reboque. Imagem provavelmente relacionada com o ataque a Ganturé cedida pela Fundação Mario Soares.

Situação geral no terreno na manhã de 6 de Janeiro de 1969
 
Era impossível falhar um alvo daquele tamanho.
 
Os quatro aviões conseguiram descolar por volta das 11H00, três horas depois do início do ataque a Ganturé e hora e meia depois do regresso da parelha de alerta. A esperança de encontrar a guerrilha ainda em Sangonhá era já muito ténue e todos tinham consciência disso. À frente, no G-91 5408, o coronel Diogo Neto subiu logo para os 8.000´ que era a altitude standard  para iniciar o bombardeamento a picar (BOP) e acelerou para 400 KIAS apontado a Cacine. Os outros três seguiam-no numa formação de marcha bastante aberta. 
A rota iria permitir que os aviões passassem Cacine já escalonados para o ataque e com Sangonhá a ficar na raiz da asa esquerda de modo a garantir uma picada com o sol mais ou menos “nas costas”. Sempre que tínhamos de enfrentar fogo anti-aéreo utilizávamos este procedimento para dificultar a pontaria aos apontadores e, neste caso, também a direcção do ataque ficava próxima do eixo maior do alvo.
Como seria de esperar os quatro pilotos estavam apreensivos e como acontecia sempre em acções mais complicadas o silêncio rádio foi completo. A única comunicação que o ex-tenente Balacó Moreira, que voava a número dois no G-91 5412, se recorda foi a ordem para armar as bombas e passar a escalão pela direita quando passaram sobre o rio junto à povoação de Cacine. Logo a seguir cada um começou a tentar vislumbrar o alvo mas só no momento em que manobravam o respectivo avião para conseguir um “poleiro” que desse um bom angulo de picada é que foi possível perceber alguma coisa do que se passava “lá em baixo”.
Balacó Moreira recorda-se que a quantidade de pessoas que avistou na zona do antigo aquartelamento era muito menor do que da primeira vez e que havia viaturas em movimento.
- Estão a retirar – pensou para consigo próprio.
A seguir viu o número um “pranchar” e voltar apertado pela esquerda subindo inicialmente acima da altitude inicial e depois, continuando a aumentar o pranchamento, mergulhar desaparecendo do seu lado esquerdo. Baixou a asa desse lado para tentar seguir a trajectória mas rapidamente o avião começou a ficar cada vez mais pequenino à medida que acelerava e se afastava em direcção ao solo. Naqueles escassos segundos não viu chamas à boca dos canos da ZPU-4. Quando o coronel Diogo Neto avisou pelo rádio que tinha acabado de largar as bombas e estava em afastamento procurou efectuar uma última correcção à posição do seu avião. Naquele momento se a ZPU-4 disparava ou não já não lhe interessava para nada. A interpretação dos instrumentos de voo e o controlo da trajectória para posicionar o avião num ”poleiro” favorável não deixavam margem para se preocupar com o inimigo. Entrou então numa picada que lhe pareceu boa e depois foi corrigindo os desvios de modo a fazer o rectículo do visor caminhar progressivamente para um ponto atrás do rebentamento das bombas do avião da frente. O carrocel de ataque estava em marcha e com reacção ou sem reacção anti-aérea tinha era que acertar com as bombas no alvo, o maior de todos os alvos que atacou durante toda a comissão. Não falhou como não falharam os outros e ninguém foi atingido.
No final, os quatro aviões reencontraram-se à vertical do objectivo, circulando pela esquerda à altitude de ataque. Lá em baixo, Sangonhá ficara obscurecida pelo fumo e pelos detritos projectados pelas explosões dando a impressão que tudo tinha sido arrasado. Imagem bem enganadora que conheciam muito bem dos ataques aos “clusters” de armas AA que o PAIGC durante o ano de 1968 tinha tentado instalar em diversos pontos do Quitafine. Desfeita a poeirada constatava-se muitas vezes que as armas AA continuavam a disparar embora relativamente perto se avistassem as enormes crateras abertas pelas bombas. O que acontecia era que a combinação bomba/espoleta que utilizávamos penetrava demasiado no solo arenoso provocando crateras enormes que deflectiam os estilhaços para o ar sem causar danos significativos no plano horizontal.
Desta vez, o solo era certamente mais consistente porque as crateras pareciam pouco profundas, com uma assinalável concentração na zona onde estava o armamento pesado. Os quatro aviões ficaram ainda alguns minutos a circular observando a metralhadora AA que era a grande preocupação mas que parecia inactiva desde o início. Lá do alto constataram que nada parecia mexer. Nenhum dos aviões tinha sobrepôsto o tiro ao dos outros e as dezasseis bombas tinham produzido uma cobertura relativamente densa. Só não era possível era determinar se o ataque tinha sido eficaz em termos de baixas no inimigo. 
Depois, sem armamento, nada mais havia a fazer e o comandante da formação deu ordem para abandonar a área e regressar à BA12.

 
O reconhecimento a Sangonhá

Três dias depois, a 9 de Janeiro de 1969, a Cart 2410 executou um reconhecimento a Sangonhá com cerca de 100 homens - militares, milícias e caçadores nativos ( Gadamael e Ganturé ficaram reduzidos ao mínimo de pessoal para a sua defesa) (25).  A força foi comandada pelo ex-alferes

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(25) Testemunho do ex Alferes Miliciano José Barros Rocha da Cart 2410.

miliciano Albino Rodrigues, que era o comandante do 1.º Grupo de Combate, ficando o Comandante da Companhia em Gadamael.
Sairam de Gadamael por volta das 6 horas da manhã, sem qualquer apoio de viaturas, normais ou blindadas.  Ás 08:30 descolou de Bissalanca o DO-27 3347, pilotado pelo tenente Balacó Moreira, com a missão de apoiar a progressão no terreno e em particular coordenar o apoio de fogo se fosse necessário.
Em todo o percurso até Sangonhá não foram detectados  trilhos novos, nem foram encontrados os habituais invólucros de granadas de morteiro ou de canhão S/R que os guerrilheiros normalmente deixavam espalhados no terreno após as flagelações (26).
Após a passagem a vau do rio QUERUANE/AXE, e uns 200 ou 300 metros à frente, numa pequena elevação do terreno, foram encontrados os restos de uma fogueira (a noite de 5 para 6 tinha sido fria) junto a uma árvore alta com vestígios de ter sido utilizada como posto de observação, quer pelo aspecto do tronco, quer por alguns ramos partidos. Logo 3 ou 4 metros depois encontraram fio telefónico que foi seguido até ao respectivo carretel vazio. Concluíram por isso que naquela árvore teria estado um observador avançado munido de linha telefónica para orientar o tiro dos canhões A/C estacionados em Sangonhá.
Desde este local e numa extensão de cerca de 3 Kms, havia abrigos individuais de um lado e outro da estrada, e também resíduos de fogueiras. Logicamente, a defesa avançada do dispositivo instalado em Sangonhá estendera-se ao longo da estrada para Gadamael Porto.
Com a força já a meio caminho descolaram então de Bissalanca 2 T-6G armados com foguetes SNEB de 37 mm e  metralhadoras 7,7 mm (27). A missão era permanecer em espera um pouco a Norte de Sangonhá e actuar à ordem do PCV (DO-27) caso fosse necessário dar apoio de fogo. Depois, às 11:30, quando a força estava próximo de Sangonhá  descolaram de Bissalanca dois G-91 armados com foguetes de 2,75” e quatro metralhadoras 12,7 mm. Os dois T-6 foram nessa altura reabastecer tendo voltado a descolar novamente para acompanhar o resto da operação.
A primeira indicação de que estavam próximos do objectivo foi dada pela grande quantidade de abutres (os feiosos jagudis) pousados nas árvores ou voando em círculos. Ao mesmo tempo, o pessoal começou a sentir o cheiro nauseabundo de corpos em decomposição.
A força distribui-se então de modo a formar uma longa linha perpendicular à estrada e foi nessa formação que avançaram cautelosamente. O que descobriram a seguir ultrapassou todas as marcas e foi tão chocante que o pessoal descurou momentaneamente as regras de segurança que vinha a manter. 
O ex-alferes miliciano José Barros Rocha, comandante do  2º grupo de combate, recorda desta maneira o que viu e sentiu:
“…na antiga pista [ de Sangonhá], armas destruídas e pedaços de corpos de negros e brancos e 13 sepulturas. Uns dias depois tivemos a informação de 36 mortos confirmados e muitos feridos.
" O aspecto do local era medonho! A terra, cuja cor natural é avermelhada, tinha a cor cinza! O intenso cheiro a putrefacção! Os abutres (jagudis) às dezenas! As árvores queimadas! Enfim..." (...).
…………………………………
“…recolhemos 3 carretéis carregados de fio telefónico e um vazio, uma mina A/P, uma ferramenta para aperto de rodas, invólucros de granada do canhão A/C 57mm, meia


(26) Indicação muito forte de que a flagelação do dia 6 teria sido efectuada apenas com os canhões AC estacionados em Sangonhá.
(27) Esta configuração era muito eficaz para o apoio de fogo à forças terrestres. Cada avião estava municiado com 72 foguetes SNEB de 37 mm e podia também utilizar  as quatro metralhadoras 7,7 mm.

pistola, munições intactas da A/A  de calibre 14,5 mm, bonés, chapéus tipo colonial, uma bandeira,  uma caixa de ferramenta, e mais algumas bugigangas..”.

A força permaneceu em Sangonhá cerca de duas horas tendo regressado a Gadamael entre as duas e as  três da tarde. Quando já estavam perto do quartel o tenente Balacó Moreira  aterrou  o DO-27 em Gadamael e ficou a aguardar a chegada da força. Foi ele que levou para a BA12, em primeira mão, os resultados provisórios do bombardeamento no qual tinha participado. Levou também a óptica do aparelho de pontaria da ZPU-4 que lhe foi oferecida pelo comandante do 2º grupo de combate e que ele entregou depois ao tenente coronel Costa Gomes.


 
A razão para o suicídio do PAIGC em Sangonhá.

Depois do reconhecimento a Sangonhá ficou por decifrar o que teria levado o PAIGC a efectuar aquela acção suicida. A prática normal da guerrilha não se ajustava, de modo nenhum, ao que acontecera no dia 6 de Janeiro de 1969. Não tinha sido apenas a hora a que foi desencadeada a flagelação, de manhã em plena luz do dia, mas também o facto do armamento e o pessoal estarem em campo aberto e serem facilmente detectáveis pelos aviões. Era ainda o recurso às peças anti-carro na flagelação como se fossem obúses ou morteiros (28).
Havia certamente uma justificação para este comportamento anómalo mas nenhum de nós imaginava qual poderia ser. 
No dia 19 de Janeiro de 1969 coube-me efectuar no DO-27 3341 ”o sector de Buba” o que me deu a oportunidade de falar com os oficiais da CArt 2410. Foi nessa ocasião, pelo testemunho dos que tinham, de facto, posto os pés no que fora o “nosso alvo”, que me apercebi pela primeira vez da dimensão do desastre que o PAIGC tinha sofrido. Foi também nessa ocasião que o alferes Barros Rocha teve a gentileza de me oferecer quatro munições da ZPU-4 que estivera instalada em Sangonhá e que tinha feito fogo contra os dois primeiros (pelo menos) G-91 que descolaram para tentar suster a flagelação a Ganturé. Destas quatro munições, como referi no início, ainda guardo uma comigo e, por arrastamento, a memória deste episódio.
Por acaso tudo se aclarou alguns dias mais tarde ao ler um relatório da DGS que chegou ao gabinete do comandante do Grupo Operacional 1201. Para mim foi uma espécie de relâmpago que tudo iluminou e desvendou, num instante, a lógica daquele comportamento estranho do PAIGC. Não consegui agora encontrar nenhum registo desse documento mas o facto é que me marcou tanto que nunca mais esqueci o essencial do que li. Resumidamente, a DGS dava conta de que o ataque se tinha enquadrado numa acção de propaganda promovida pela Suécia. Na minha opinião, muito provavelmente a pedido do próprio Amilcar Cabral, resolveram aproveitar


_________________________
(28) As peças anti-carro Zis-2, de 57mm, tinham sido projectadas para destruir os blindados alemães durante a II GGG em tiro directo e mostraram-se tão desadequadas neste caso que nenhuma das dezenas de granadas disparadas caiu dentro do perímetro de Ganturé.

o abandono de Sangonhá para simular a tomada do aquartelamento pela guerrilha. O cenário não podia ser mais perfeito. Antes de abandonar  a posição, as instalações do aquartelamento tinham sido destruídas pelo Exército e essa imagem podia ser facilmente mostrada em fotografia e filme como sendo consequência dos ataques do PAIGC. Depois, a posição “acabada de conquistar” podia ser utilizada para mostrar o poder de fogo do PAIGC contra as posições que se preparavam para conquistar a seguir: Ganturé e Gadamael. Uma equipa de repórteres, incluindo fotógrafos e cineastas deslocou-se para esse efeito à Guiné-Conacri onde se juntou aos guerrilheiros. Um total de  400 pessoas terão estado envolvidas em toda a operação segundo as informações do régulo Abibo de Ganturé.
Ficou assim explicado porque razão o PAIGC se tinha exposto em pleno dia a levar com as bombas da aviação. É que não era possível fotografar nem filmar sem luz. Também não fazia sentido estarem escondidos quando tinham acabado de derrotar e afugentar o inimigo. Tinham, é claro, a noção de que iam correr um grande risco e por isso o terem levado a ZPU-4 para se defenderem. Mas cometeram um segundo erro, este gravíssimo. Foram detectados e em vez de embalarem a trouxa e rumarem novamente à Guiné-Conacri deixaram-se ficar. Pessoalmente penso que, como os dois primeiros aviões não abriram fogo, assumiram que, ou os tinham atingido, ou os tinham dissuadido e resolveram continuar a fazer a “fita”.
Faltava explicar a utilização das peças anti-carro porque, como já foi dito, não eram, nem armas de guerrilha, nem adequadas às flagelações aos aquartelamentos. Não há mesmo conhecimento de terem sido utilizadas em qualquer outra ocasião.
Uma explicação muito credível ocorreu-me quando descobri algumas fotos dessas armas no arquivo Amílcar Cabral da Fundação Mário Soares. Fiquei até convencido que respeitam à acção do dia 6 de Janeiro de 1969. Passo a explicar.
O objectivo da operação era produzir propaganda, como referiu a DGS no seu relatório. Havia, por isso, necessidade de mostrar grande capacidade militar e poder de fogo, factores esses que estariam a determinar avanços do PAIGC no terreno nomeadamente a conquista de posições ocupadas pelos portugueses. Acontecia que aquelas peças anti-carro tinham um reparo longo, tinham rodas e um cano comprido. As eventuais audiências alvo da propaganda ficariam certamente muito mais impressionadas se o ataque fosse feito com estas peças de artilharia em vez dos tradicionais morteiros ou dos canhões sem recuo que eram armas relativamente pequenas. Só uma razão desta natureza os poderá ter levado a não utilizar o armamento tradicional nesta flagelação a Ganturé: nenhuma granada rebentou no perímetro do destacamento.
A  título de curiosidade não devo terminar sem mencionar o único documento conhecido do PAIGC referente a este ataque. Trata-se de um bilhete enviado em 6 de Janeiro de 1969 por  um dos mais celebrados comandantes do PAIGC, Pansau na Isna (29), e dirigido a Aristides Pereira que estava na base mais próxima, Boké, na Guiné-Conacri. Na missiva para além de empolar a prestação da guerrilha, aparentemente para agradar ao chefe, solicita o envio de  mais trezentas granadas para os canhões A/C e mais gasolina para continuar a atacar Ganturé “no duro”, o que não chegou a acontecer. Alguma coisa lhe terá quebrado o ânimo…

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(29) Pansau na Isna não morreu em Sangonhá mas acabou por ser morto, no final do ano seguinte, pelos fuzileiros, a Norte de Bissau.


Bilhete enviado por Pansau na Isna a Aristides Pereira enquanto decorria o ataque a Ganturé. Documento cedido pela Fundação Mario Soares.
Concluindo, ironicamente pelo menos desta vez, a bondosa ajuda humanitária sueca cujo objectivo foi soprar “os ventos da história” contribuindo para a derrota militar dos portugueses não conseguiu infligir baixas às nossas forças. Ao invés, provocou um número substancial de mortos, feridos e incapacitados entre os guerrilheiros e, muito provavelmente, também entre os apoiantes cubanos, repórteres, fotógrafos e cineastas suecos. Que foram encontrados diversos despojos de pele branca é um facto mas nunca se conseguiu saber a quem teriam pertencido. O PAIGC e o governo sueco, em escrupulosa obediência às regras da propaganda nunca revelaram, nem durante a guerra, nem depois, este desastroso embate...

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Voo 3400 TESTEMUNHO NA PRIMEIRA PESSOA EM VERSO.







José Andrade
Esp.MMA
Coimbra






Versos declamados, pelo poeta popular e autor Viriato Gouveia, na cerimónia que decorreu no dia 15/Agosto/2015, no cemitério de Aldeia das Dez, junto da campa onde repousa o Alfredo Brito, promovida e levada a cabo pelo Núcleo de Coimbra da Associação de Especialistas da Força Aérea.



O Alfredo, cuja memória neste dia evocamos, de fosse vivo tinha 84 anos.
Convivi de perto com ele na juventude, assisti com ansiedade crescente, a todas as manobras e peripécias do seu voar naquele dia fatal, estava a 30 metros de distância do sítio exacto onde o avião embateu, com grande estrondo na casa da Eduardinha, tia do Alfredo.
Escrevi estes versos em sua memória, que vou ler.


Quinze de Abril de mil novecentos e cinquenta e três,
Manhã serena, é Primavera, há mil flores,
Um pássaro de aço veio do sul, pela segunda vez,
Em voo raso por sobre o espaço lançou temores.

O entusiasmo de juventude tece o enredo,
Que a mocidade tão generosa encomendou,
Naquela manhã de sol dourado, era o Alfredo,
Que pilotava o avião que não voltou.

Quinze de Abril, às nove e trinta, um pássaro estranho,
Surge no ar vindo do sul, sem bater as asas,
Algures no campo, espavorido, foge o rebanho,
E o receio cai de premeio por sobre as casas.

Chama por ele a Terra Mãe, o pátrio lar,
Em pleno Abril de céu azul, era tão cedo,
Na ousadia e intrepidez daquele voar,
Alguém falava entusiasmada….é o Alfredo.

A ousadia pagou bem caro o seu tributo,
Á juventude folgazã, desprevenida,
E sem piedade, nem clemência, vestiu de luto,
Os vinte e três anos, ainda jovens da sua vida.

Quinze de Abril….era quarta-feira,
Na segunda antes, já cá tinha vindo,
O Alfredo voando pelos céus da Beira,
Acabou tão cedo o seu sonho lindo.

Alfredo José de Oliveira Brito,
Aqui foi criado, por aqui andou,
A Alma repousa lá no infinito,
O corpo na terra que o reclamou.




quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Voo 3399 AS OBRAS DE ARTE DO SI (53) AEROSPACIAL TB 30 EPSILON







António Six
Esp.MRÁDIO
Pontével




Aerospacial TB 30 Epsilon
Mais uma semana começa,...esta para dar-mos uma voltinha , das nossas neste pequeno avião para apenas duas pessoas, mas temos sempre lugar para todos, enquanto os sonhos não pagam impostos.
Vamos a Isso???
Para todos, boa semana e bons voos sempre com muita saúde e aquele grande abraço do Ursus.

Six

Tipo de Aeronave:

Avião monomotor terrestre de trem de aterragem triciclo retráctil,monoplano de asa baixa,revestimento inteiramente metálico,cabina  de dois lugares em tadem com cobertura transparente,destinado à instrução e treino de pilotos.


Tripulação:

2 Piloto instrutor e aluno.

Construtor:

Aerospatiale/França;SOCATA-Societé de Construction d'Avions de Tourisme et dÁffaires/França.

Motopropulsor:

Motor (1);Avco Lycoming T10-540 AB 1 AD,de 6 cilindros horizontais arrefecidos por ar,de 300hp.

Hélice:

Metálico de duas pás,passo variável.

Dimensões:

Envergadura          7.92m
Comprimento        7.59m
Altura                     2.66m
Área alar                9.00m2

Pesos:


Peso Vazio            932Kg
Peso Máximo     1.300Kg


Performances:

Velocidade máxima 520Km/h
Velocidade de cruzeiro 363Km/h
Tecto de serviço      6.100m
Autonomia                03:45h


Armamento:

320Kg de Bombas em quatro suportes instalados nas asas.

Origem do Voo.

Aeronaves Militares Portuguesas



segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Voo 3398 RECORDAR O BRITO.







Fernando Moutinho
Cap.Pil.Av.
Alhandra






Bom dia Victor
Hoje no site recordei o meu colega de curso que morreu acidentado em Aldeia das Dez. Para melhor o recordar pensei em anexar 2 fotos que agradecia reenviasses ao Augusto Ferreira.
Pode ser?




Um grande abraço


Moutinho

Voos de Ligação

Voo 3397 SOMOS MESMO ESPECIAIS.





Victor Barata
Esp.Melec.Inst/Av.
Vouzela





Estive no sábado na Aldeia das Dez para assistir á digna homenagem a um Companheiro que tombou em missão aérea ao serviço da nossa Força Aérea Portuguesa.
Envolvido no cerimonial do evento, não posso deixar de me orgulhar da amplitude de amizade e saudosismo com que vivemos o passado, presente e futuro na nossa FAP.
Passado que é mais de meio século da data do fatídico acidente que vitimou mortalmente o Companheiro Alfredo Brito, fomos a esse local dizer-lhe que “continua presente nos nosso voos!”
Mas para colmatar este momento de elevado significado para a classe “ESPECIAL” da FAP,o representante do Gen.CEMFA,Maj.TMELIAV Gurmesindo Brás ,é oriundo da CLASSE ESPECIAL da FAP!
Começou a sua vida militar como Zé Especial
Na oportunidade que tive de dialogar com ele, pude constactar que os ensinamentos da época de “Zé Especial” formaram a sua base cultural, ética e militar que lhe facultaram o futuro, pois conhecedor da realidade de vida, a rotina, as dificuldades e os desafios por que passam nossos “ESPECIAIS” facilitou-lhe a vida como oficial, pois permitiu-lhe, em primeiro lugar, respeitá-los e ser respeitado, motivando-os em direção ao cumprimento da sua missão constitucional e militar.
Desejamos-te  um futuro á “ZÉ ESPECIAL”
Forte abraço.
Victor barata

domingo, 16 de agosto de 2015

Voo 3396 ROMAGEM ALDEIA DAS DEZ NUCLEO COIMBRA AEFA 15.8...




Manuel Pais
Esp.EABT
V.N.Gaia






Legenda: Cabo Pil.Alfredo Brito

Foto:Cortesia de Manuel Pais

Legenda: Imagens do local do acidente.

Foto:Cortesia de Manuel Pais

Legenda: Algumas peças recolhidas no local depois do acidente.

Foto:Cortesia de Manuel Pais

Estimados Amigos e companheiros
No seguimento das atividades programadas, o NÚCLEO DE COIMBRA DA AEFA, levou a efeito o evento "Romagem á Aldeia das Dez " tendo proporcionado a todos , não só um agradável Convívio, mas também , reunir á volta desta iniciativa , os associados ,  as Forças Vivas desta Região , seus habitantes e a Força Aérea , onde sua Exº o Cemfa se fez representar .
Uma iniciativa com grande elevação do Núcleo de Coimbra e a própria AEFA , ficando mais uma vez reconhecida a pujança associativa e mobilizadora do Núcleo de Coimbra , não deixando por mãos alheias os créditos granjeados ao longo dos anos ., pela excelência e empenho na concretização deste evento.
Aos Dirigentes do Núcleo de Coimbra JOSÉ ANDRADE , JOVINO E MIRANDA  os meus mais calorosos parabéns .
Ficamos á espera que cumpram  o desafio lançado pelo Senhor Presidente da Câmara de Oliveira do Hospital , aquando da feira do queijo.


Legenda: Representação da AEFA,da Esq./Dir.Alves da Silva.Vice-presidente Nacional da AEFA,José Andrade Presidente do Núcleo de Coimbra e César de Oliveira Presidente da Assembleia Geral da AEFA.

Foto:Cortesia de Manuel Pais



Legenda: Romagem á campa do Alfredo Brito
Foto:Cortesia de Manuel Pais


Legenda: No cemitério,Alves da Silva cumprimenta um familiar do malogrado Piloto.

Foto:Cortesia de Manuel Pais

Legenda: José Andrade coloca um placa  na campa em nome do Núcleo de Coimbra da AEFA

Foto:Cortesia de Manuel Pais
Legenda: O familiar do malogrado Piloto Alfredo Brito e o José Andrade descerram uma placa que assinala a Homenagem da AEFA no local do acidente que vitimou o nosso companheiro e um civil

Foto:Cortesia de Manuel Pais

Legenda: Momento em que o José Andrade discursava sobre a importância do acto. 

Foto:Cortesia de Manuel Pais



Legenda: O representante do CEMFA,Maj.TMELIAV Gurmesindo Brás,agradecia o convite e anltecia o acto.

Foto:Cortesia de Manuel Pais

Legenda: Aspectp geral do convivo entre os presentes durante o almoço servido

Foto:Cortesia de Manuel Pais

Um abraço Amigo
Manuel Pais



Voo 3395 HOMENAGEM AO ALFREDO BRITO.





Augusto Ferreira
2ºSargº.Mil.Melec/Inst.Av.
Coimbra







Homenageou-se ontem a título póstumo em Aldeia das Dez o piloto aviador Alfredo Brito, que faleceu nesta mesma localidade (por coincidência sua terra natal) em acidente de aviação em 15/04/1953.
Por iniciativa do Núcleo de Coimbra da AEFA, este evento contou com a presença de um representante do CEMFA Sr. Major Gumersindo Brás, Vice presidente da AEFA e seu Presidente da Assembleia Geral, presidente da C. M. de Oliveira do Hospital, presidente da Junta de Freguesia de Aldeia dos Dez, Direcção do Núcleo de Coimbra da AEFA (com elevado nº de associados presentes), uma familiar do homenageado, assim como populares.
Bastante bem elaborado e simbolicamente forte, pelos pormenores da sua organização.
Depois da concentração no centro da aldeia, rumámos até ao seu cemitério, onde junto ao jazigo de família, se efectuaram alguns discursos pelas entidades presentes e se colocou uma placa comemorativa do acontecimento, oferecida pelo Núcleo de Coimbra.
Deslocámo-nos de seguida, para junto do local onde teria vivido o malogrado piloto, sendo aí descerrada uma lápide, no muro junto á sua entrada.
Nele estavam expostas em grandes painéis, várias fotos e recortes de jornais da época, onde relatavam pormenores do acidente e da vida do Alfredo Brito.
Foi emocionante este momento, porque através das notícias e imagens do acidente ocorrido há 62 nos, ainda parecíamos ouvir o eco, do que teria sido um tremendo estrondo, vindo das bonitas montanhas que cercam esta linda Aldeia das Dez.
Voltaram a ocorrer discursos das entidades presentes, relativas a mais este acto de homenagem, verificando-se dos autarcas locais, uma enorme satisfação pela iniciativa do Núcleo de Coimbra, que também acarinharam e apoiaram e que não vão esquecer.
Há já um convite, por parte do Sr. Presidente da C. M. de Oliveira do Hospital para o princípio do próximo ano, onde nos quer lá como convidados especiais. Vamos aguardar.
Seguimos depois para Alvoco das Várzeas, onde junto ao rio Alvoco com a sua ponte medieval e num cenário natural lindíssimo, ocorreu bem à fresquinha o almoço de confraternização.




Parabéns a toda a organização, em especial à Direcção do Núcleo de Coimbra da AEFA, pela feliz ideia desta realização, que mais uma vez contribuiu para o reforço da FAMÍLIA ESPECIALISTA.
Augusto Ferreira

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Voo 3394 QUE LINDO CONVÍVIO.




Fernando Castelo Branco
1ºSargº.MMT
Angra do Heroísmo
Terceira
Açores




Foi uma "seca" para as CARAS METADE
Começando com a expressão, "fomos poucos mas estiveram TODOS"?!...
Em casa do Nosso INCANSÁVEL ELMANO, passados 40 (quarenta anos)
"voltamos a ÁFRICA", passando por GUINÉ,ANGOLA e MOÇAMBIQUE...
Começamos a viagem ás 20 horas locais em(ILHAS DE BRUMA,ILHA DE JE
SUS,ILHA LILÁS etc...)conforme acharem melhor, mas foi na casa do ELMA
NO, nas LAJES (só não embarcamos no MERLIN porque ELE "não sabia" aonde estávamos), na altura que descolou certamente para mais uma NOBRE evacuação, porque ouvimos a descolagem.

O ELMANO e a DONA MARIA JOÃO, sua Carinhosa Esposa, presenteou-nos com uma saborosa alcatra e não só, conforme as fotos em anexo documentam  e ficam ao Vosso dispor para "saborearem", como eu MUITAS vezes saboreio, quando VÓS desse lado do MAR, também muitas vezes "provocam-nos" com as fotos que me enviam e eu depois faço seguir para o Nogueira, Piriscas etc, como "desabafo ou queixume" mas feliz porque também vejo-VOS animados e felizes...
Pois as NOSSAS CARAS METADE, apanharam uma seca...mas NUNCA desertaram, já ia o relógio a caminho da uma da manhã, quando "moi" disse, vamos embora que este pessoal "quer-se" ir deitar!!!
Mas isto, bem ou mal contado, foi verdade, não como o anterior  artigo da no-
turna visita á SAGRES, em que carinhosamente o meu inesquecível COLOBORA-
DOR (?)por defeito meu, virtualmente proporcionou ao ELMANO e CARLOS ALVES, uma visita quando a CARAVELA já ia com doze horas de viagem.
COMANDANTE VICTOR BARATA, vê se arranjas maneira de "disciplinares" OS
PUTOS que foram OTA, porque fostes TU que NOVAMENTE mandastes tocar a FORMAR?!....
AMIGOS, como o ELMANO, o PIRISCAS, o NOGUEIRA, eu e os OUTROS fica-mos cá, o CARLOS ALVES leva-VOS um abraço maior que o MAR que nos separa,desejando-VOS muita saúde e alegria..
 Fernando Castelo Branco
        
PS: Nem de propósito; a foto do MERLIN,f oi tirada quando este passou sobre o meu serviço para fazer a recuperação da Senhora grávida que estava no PICO, com fratura do pé quando da visita do pico da ilha do PICO....a fotografia 68+1; refere-se a aeronaves da FORÇA AEREA CANADIANA, parqueadas e assistidas por atuais "ESPECIAIS" FAP.....
 

domingo, 9 de agosto de 2015

Voo 3393 HIDROAVIÕES NO ESTUÁRIO DO MINHO




João Carlos Silva
Esp.MMA
Sobreda

Hidroaviões no estuário do Minho


Nesta época do ano em que eventualmente se tornam mais propícias as deambulações por outras paragens, diferentes do nosso dia-a-dia, encontrei este artigo do jornal digital regional Caminh@2000 que, embora seja de 2013, me parece muito interessante e nos traz alguma informação sobre os primeiros dias da aviação militar portuguesa, suportado em textos do primeiro quartel do século XX.

"A recente feliz presença no concelho de diversos hidroaviões de combate a incêndios — do tipo canadair, pertencentes à Força Aérea Croata e à "Securité Civile" francesa —, com as sempre espetaculares imagens das manobras de reabastecimento de água no estuário do rio Minho e no mar, ao largo da Gelfa, serve de pretexto para recordar as ligações históricas de Caminha à aviação naval e aos aeroplanos com flutuadores.

Uma relação que se iniciou em 1919, dois anos após o nascimento do Serviço de Aviação da Armada no seio da Marinha portuguesa, em plena Grande Guerra. Nas origens da criação da nossa aviação naval esteve um estágio em França de dois oficiais da Armada (Sacadura Cabral e António Caseiro) e a instalação em 1918, em S.Jacinto (Aveiro), de uma base francesa de hidroaviões de combate aos submarinos alemães que, terminado o conflito mundial, daria lugar à base aérea portuguesa que ainda subsiste. Foi também neste ano que começaram a operar os hidroaviões F.B.A. (Franco-British Aviation, sociedade fundada pelo engenheiro francês Louis Schreck) que constituíram a primeira esquadrilha aérea nacional. Foram dois destes aeroplanos F.B.A.-Type B, de flutuadores nas asas, que amararam pela primeira vez no amplo estuário do Minho nos últimos dias de agosto de 1919 para grande espanto e admiração dos caminhenses, de acordo com a imprensa do tempo:


"Hidro-aviões — No dia 20, estiveram nesta vila [de Caminha] os hidro-aviões da Base de Aveiro nºs 6 e 9, pilotados pelos aviadores 1ºs tenentes de Marinha srs. Santos Moreira e Pedro Rosado, trazendo, cada um, um chaufer-mecânico e o mecânico-chefe da base. Partiram de Aveiro às 11 horas e chegaram a Caminha às 12.45 h, tendo pairado em Viana durante uma hora em exercícios. O nº 6 partiu no mesmo dia e o 9 no dia seguinte, após uma visita a Seixas e várias evoluções sobre a vila (...). Os aviadores almoçaram em casa do ilustre lente da Universidade de Coimbra, exmº. Dr. Luciano [Pereira da] da Silva. Foi a primeira vez que Caminha viu aparelhos do género que, por conseguinte, despertaram grande sensação. É provável, porém, que breve cá os tenhamos novamente porque o Minho, um dos rios mais largos de Portugal, presta-se excelentemente para esse fim" (Correio do Minho, 24-8-1919).

 
Nos anos seguintes, os hidroaviões portugueses fizeram outras visitas ao estuário do Minho tendo nós identificado duas delas na imprensa da época, infelizmente sempre sem qualquer imagem a ilustrá-las. Em 1920 a novidade foram os recém-chegados Felixtone F.3 ingleses, do tipo que no ano seguinte Gago Coutinho e Sacadura Cabral pilotariam no raid Lisboa-Madeira: "Hidro-avião — No Sábado passado, amérrissou no nosso rio um hidro-avião da esquadrilha naval portuguesa que levantou voo no domingo, seguindo rumo sul. Este hidro-avião é um dos chegados ultimamente de Inglaterra" (Correio do Minho, 18-5-1920). No verão de 1921, foram três os hidroaviões vindos de S.Jacinto que aqui amararam, desta vez sinalizados em Viana do Castelo: "Hidro-aviões — Ante-ontem, pelas 11.30 h da manhã, passaram sobre esta cidade [Viana] três hidro-aviões da base naval de S.Jacinto (Aveiro), seguindo o rumo norte, com direcção a Caminha, onde fizeram amerrissage no majestoso rio Minho" (Correio do Minho, 11-8-1921).

Com este grau de familiaridade com a aviação naval portuguesa e os hidroaviões, não admira pois que a primeira travessia aérea do Atlântico sul levada a cabo em 1922 por Gago Coutinho e Sacadura Cabral — concluída a 17 de junho com a chegada ao Rio de Janeiro — tenha sido muito festejada em Caminha. O executivo municipal, ao mesmo tempo que enviava um telegrama de felicitações ao ministro da Marinha, mandou iluminar a fachada da Câmara (Ata da Comissão Executiva, 26-6-1922).


O feito dos aeronautas foi também celebrado pelo destacamento local da Armada — ainda no rescaldo do sidonismo e da traulitânia, era capitão do porto nessa altura o caminhense António da Silva Pais — com uma patriótica alocução à sua guarnição por parte do comandante da lancha-canhoneira "Rio Minho", o 1º tenente Fernando Teixeira Diniz: "Marinheiros — Tendo os heróicos aviadores portugueses, contra-almirante Gago Coutinho e capitão de fragata Sacadura Cabral concluído a última étape do glorioso raid que encheu de assombro o mundo inteiro e o qual veio demonstrar bem claramente que a Raça lusitana ainda vibra forte e é capaz de dar lições ao mundo pelo seu arrojo e ciência, este Comando, interpretando o sentir de toda a guarnição da lancha-canhoneira "Rio Minho" e em seu nome, levanta uma saudação aos gloriosos oficiais que tão alto souberam elevar o nome de Portugal, nossa querida Pátria. Mais uma vez a Marinha de Guerra Portuguesa, a que nos honramos de pertencer, continuando a obra dos nossos antepassados, colocou Portugal na vanguarda de todas as nações civilizadas, dando-lhe vitalidade e fazendo-o reviver como outrora. (...) Por isso, este Comando dá por cumpridos os castigos impostos às praças que servem sob as suas ordens, certo de que, de hoje para o futuro, não terá o desgosto de ter de aplicar a mais pequena pena disciplinar. Viva a Pátria! Viva a República!" (Correio do Minho, 28-6-1922). Uma inesperada amnistia, certamente bem recebida pelos marinheiros estacionados em Caminha, talvez à mistura com alguma dúvida dos mais experientes face às ilusões do ingénuo e entusiasmado jovem tenente.


Ainda com os ânimos nacionais exaltados pelo heróico cometimento de Gago Coutinho e Sacadura Cabral, a localização estratégica de Caminha na costa portuguesa e as especiais aptidões do estuário do Minho para os hidroaviões, terão estado na origem de um pedido oficial da Direcção-Geral de Aeronáutica Militar dirigido à Câmara sobre a "possibilidade de que seja estabelecido um campo de aterissagem neste concelho onde os aviões possam descansar", subentendendo-se que estariam em causa todo o tipo de aeronaves (Ata da Comissão Executiva, 15-7-1922).
 
Reforçando a intenção dos responsáveis pela aeronáutica nacional, poucos dias passados desloca-se ao município o próprio ministro da Marinha, o prestigiado oficial da Armada Vítor Hugo de Azevedo Coutinho, que veio acompanhado pelos senadores Ramos Pereira e Raimundo Meira (Correio do Minho, 25-7-1922). Entusiasmada com a perspetiva de albergar no concelho um aeródromo, a comissão executiva da Câmara caminhense — liderada por João Pires da Gama Crespo — criou de imediato um grupo de missão com a incumbência de encontrar o melhor local possível para o hipotético campo de aviação que, de acordo com as indicações fornecidas, teria de ter "600 m de lado ou um círculo de 300 m de raio". Com pesar, constatou-se que o desejado Campo da Retorta (onde hoje se situa o Parque 25 de Abril) não tinha as medidas necessárias e, face à dificuldade em encontrar outro sítio plano, chegou-se ao ponto de aventar o... planalto de Santo Antão! (Atas da Comissão Executiva, 19-8 e 16-9-1922). Enfim, por falta de alternativas viáveis no acidentado território concelhio e, possivelmente, por desinteresse governamental, com o tempo a ideia foi caindo no esquecimento e não mais se voltou a falar da possibilidade de instalar um aeródromo em Caminha. Ao contrário, a imagem dos hidroaviões a amarar no estuário do Minho demorou a apagar-se do imaginário dos caminhenses, mais não seja porque tinha entrado no anedotário local.

A propósito da muito prometida mas sempre adiada obra de reparação da velha e quase intransitável ponte de madeira sobre o rio Coura, escrevia-se então na imprensa: "bom seria que esse concerto tivesse início o mais breve possível (...) ou então acabem com ela por uma vez e far-se-á a travessia do Coura em hidro-avião!" (Correio do Minho, 25-7-1922).


 
 
BIBLIOGRAFIA
Joaquim Duarte (1983). A Aviação Naval em Aveiro. In http://www.prof2000.pt/users/avcultur/aveidistrito/boletim31/page73.htm [consultado em 5-09-2013]; Robert Feuilloy (2010). Les débuts de l'Aviation maritime (1910-1918), In http://ardhan.pagesperso-orange.fr/almana/avia%20marit.htm [consultado em 5-09-2013]; Artigo Portuguese Naval Aviation, In http://en.wikipedia.org/wiki/Portuguese_Naval_Aviation [consultado em 5-09-2013]. Agradecemos ainda ao Joaquim Aldeia Gonçalves a cedência da fotografia dos canadair franceses no estuário do Minho no dia 3 de Setembro de 2013."
 
Fonte: http://www.caminha2000.com/jornal/n649/cmc3.html

P.S. De notar a referência à participação numa das missões dos mecânicos, no entanto, como sempre, a sua identificação não consta.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Voo 3392 AS OBRAS DE ARTE DO SIX (52) NORTHROP T38 TALON





António Six
Esp.MRÁDIO
Pontével






Antes de irmos para um fim de semana, aqui vos deixo um avião que só pode levar dois,....temos que ir à vez...mas não deixamos de ir, até porque este avião de aerodinâmica linda, tem outra coisa que para nós vai ser canja - Bate a Barreira do Som.
Eu por mim falo, nunca o vi voar, mas deixo os comentários e histórias e pormenores que vos aprouver.
Bom Fim de semana Bons Voos e saúde

Six

Tipo de Aeronave:

Avião supersónico birreactor terrestre,de trem de aterragem triciclo retráctil, monoplano de asa baixa em delta,revestimento metálico,bilugar em tandem com cabine de cobertura transparente,concebido para trem avançado de pilotos.

Tripulação

2 Pilotos

Construtor

Northrop Aircraft Incorporation/USA

Motopropulsor

Motores (2)

Reactor General Electric J85-GE-5A,com pós-combustão (afterburner),de 1.746 Kgf de impulsão.

Dimensões

Envergadura ........................................    7.70m
Comprimento ......................................  14.14m
Altura ...................................................    3.92m
Área Alar .............................................  15.80m
Pesos

Peso Vazio ..........................................  3.270Kg
Peso Máximo ......................................  5.670Kg

Performances

Velocidade Máxima ............................ Mach 1.3 (1.381 Km/h)
Velocidade de Cruzeiro ..................... 1.104 Km/h
Tecto de Serviço ................................ 15.240m
Distância máxima de Voo .................   1.835 Km

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Voo 3391 ESCRITOS DESTES,SÓ DE HOMENS COMO FERNANDO MOUTINHO.






Fernando Santos
SargºAj.EABT
Montijo



Olá Camaradas e Comandante
Escritos destes, de uma singularidade e grandeza só de homens da espirte do Camarada Fernando Moutinho. Pena que outros com muito mais dever, não o tenham feito, mas as grandes obras só de Homens muito grandes, como é o Fernando Moutinho.
Bem haja Fernando e um abraço
Fernando Santos

Voo 3388 Bastante sensibilizado,FernandoMoutinho – Fabricio Marcelino

Voo 3390 UMA VISITA NOCTURNA.





Fernando Castelo Branco
Angra do Heroísmo
Terceira
Açores




Aproveitando estadia e visita do nosso Companheiro Carlos Alves, não deixei de o levar, assim como ao “residente” Elmano, ao meu local de trabalho para uma visita ao navio escola “Sagres”.
Algumas das fotos que assinalam o acontecimento.




Um Abraço.


Fernando C.Branco