sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Voo 2045 POLITIQUICES.






António Dâmaso
Sargº.Môr Paraqª.
Azeitão



POLITIQUICES

Efemérides

Estamos perto da data de 25 de Novembro, esta data trouxe-me à memória várias passagens da minha vida, como não tenho nada para fazer, ponho o que me resta da minha massa cinzenta a pensar, às vezes até trabalha demais parece que os fusíveis não aguentam, mas até à data ainda não pifaram.

25 DE ABRIL DE 1974




Estava no BCP 12 como chefe do Pelotão de manutenção Auto, lembro-me de haver uns jipes equipados com canhões sem recuo junto do Comando, em Bissau houve alguma agitação com tentativa de ocupação das instalações da PIDE, viam-se militares do Exército “Piras” em algumas esquinas estratégicas, não me recordo bem da data recebi ordem para ir ao Depósito do Serviço de Material do Exército levantar 25 jipes, a minha assinatura ficou lá, o que foi feito deles depois não sei, mas sei que foram para o Palácio do Governador para uma companhia de Pára-quedistas que lá estava a fazer a segurança.







28 DE SETEMBRO de 1974

Sempre fui apolítico e apartidário, talvez por ignorância, mas sem ter nada a ver com o assunto, fui indirectamente envolvido com o acontecimento desta data.

Tinha entrado de Sargento de Dia à 1.ª companhia de alunos que estava a ministrar uma Instrução de Combate, era sexta-feira à tarde, recebi ordem do Oficial Dia para formar o pessoal, consegui reunir dois pelotões de homens que não tinham ido de fim-de-semana e foi-me dito para ir à arrecadação de material de Guerra e levantar munições, armamento e equipamento, para armar todo o pessoal, lá ficou a minha assinatura nas requisições, se tivesse sido uma ocorrência que tivesse dado para o torto, lá estava eu em maus lençóis.

Lembro-me que durante todo o fim-de-semana, esteve estacionado junto da Messe de Oficiais, uma viatura da GNR, por estar equipada com um rádio de longo alcance que apanhava o País inteiro.

Foi esta a minha participação no 28 de Setembro de 1974, então chamado Verão quente.





11 DE MARÇO DE 1975

Aqui não estive envolvido porque estava de convalescença por acidente em serviço.

Nesse dia tinha-me deslocado a Fátima, para resolver uma deficiência com mobiliário de cozinha, que tinha sido adquirido a uma firma daquela localidade, morava então no Entroncamento.

No trajecto ouvi na rádio o que se estava a passar, por curiosidade desloquei-me à BA3, havia grande confusão, não tive dificuldade em entrar uma vez que o Sargento da guarda que estava à porta de armas era da Polícia aérea e tinha sido pára-quedista, assisti a toda a movimentação de helicópteros e vi quando o General Spínola, embarcou para a Base Espanhola perto de Badajoz, Base essa onde eu tinha pernoitado em serviço em Fevereiro de 1963.



25 DE NOVEMBRO DE 1975

Nesta data já eu tinha sido dado incapaz para o Pára-quedismo e apto para o Serviço Geral, Abastecimentos e Enfermagem.

Depois de tudo o que tinha passado ao longo da vida militar, interroguei-me sobre o que tinha feito de útil em prol da comunidade, com tanta politiquice estava confuso, mas acabei por optar por enfermagem e estava a frequentar o Curso de Sargentos Enfermeiros no NHEFA1 (Núcleo Hospitalar Especializado da Força Aérea n.º 1).

Como morava no Entrocamento, ia para Lisboa todos os dias de comboio, no dia 25 de Novembro depois das 5 horas da madrugada apareceu-me um pára-quedista a bater á porta para eu ir à Base Escola de Tropas Pára-quedistas a uma reunião urgente muito importante.

Como pertencia a esta Unidade, em vez de embarcar para Lisboa fui a Tancos, quando entrei, apareceram logo duas praças SUVs (Soldados Unidos Jamais serão Vencidos) falar em lavar-me para a prisão mas o Primeiro-sargento que estava de Guarda tinha estado comigo na Guiné, impôs-se e disse que não, segundo a versão deles eu ter-me ia apresentado no ENFA que ainda era na Av. da liberdade, isto depois do General Morais da Silva, Chefe do Estado Maior do ENFA, ter desactivado a Base Escola de TP em Tancos e ter passado o seu comando para S. Jacinto e que todo o pessoal tinha que se apresentar no ENFA, eu não sabia de nada por estar no Hospital a tirar o Curso.

Na verdade, um dia à tarde tinha passado no ENFA com um camarada, apenas fui fazer-lhe companhia, nem cheguei a saber o que lá foi tratar mas ficou lá registado que eu tinha lá estado.

Não me meteram na prisão mas também não me deixaram sair da Unidade, recebi ordem para ir levantar armamento e equipamento e lá fiquei desenquadrado assistindo ao desenrolar dos acontecimentos.

Como espectador atento, fui-me apercebendo da tomada das Bases por parte das Tropas Pára-quedistas e do desenrolar dos acontecimentos dentro da Base Escola das TP, mas quero sublinhar alguns aspectos que presenciei:

No dia 25 à noite apareceu o Zeca Afonso, com a sua barba e charme revolucionário, passou pelo Clube de Sargentos onde eu estava;

No dia 26, fui ao Depósito de Géneros onde estava uma exposição de alguns géneros alimentícios, entre eles umas pequenas embalagens contendo bacalhau, lembro que na altura havia dificuldade em comprar este artigo por escassez no mercado, mas o que me impressionou, foi a legenda que acompanhava, não posso precisar mas era qualquer coisa como o Povo da Golegã apoia a luta, ou está solidária com os Pára-quedistas, como sou muito sensível aquilo tocou-me.

Os FIAT começaram a fazer voos rasantes por cima da Unidade, os mesmos que tempos atrás os iam proteger, estavam agora a intimidálos, aquilo provocava algum efeito psicológico, mas não por isso, mas sim porque me apercebi que aquela guerra não era minha, tinha “ caído lá de pára-quedas por engano”, entreguei o armamento, peguei no carrinho, para sair à Porta de Armas tive de dizer que ia à BA 3.

Tempos difíceis para os Sargentos que lá estavam acompanhados por três ou quatro Oficiais, com aquela intimidação toda e com falta de mantimentos lá aguentaram mas foram vencidos pelo desenrolar dos acontecimentos, depois os que tinham ocupado Bases foram para a prisão de Custóias e outros foram corridos para o Exército.

Eu como estava apresentado no Hospital, mas com tantos boatos, tanta desinformação, acabei por ir à Divisionária do Entroncamento pedir uma Guia de marcha para me ir apresentar em Cortegaça, depois lá continuei no meu Curso.

Sem fazer juízos de valor, não percebo nada de política e tenho um pó desgraçado aos políticos, mas o que levou aqueles puros e honestos homens que eu conhecia entrarem naquele esquema foi porque foram “levados”, havia o estigma de não terem entrado no 25 de Abril e ficaram sensíveis tornando-se presa fácil para qualquer “ Golpe”.

Em 25 de Novembro de 1976, estava eu em Tancos já com o curso, estava encarregue da Farmácia do Posto de Socorros, e a ministrar a Disciplina de Primeiros Socorros a 400 recrutas, qual não foi o meu espanto quando vi na BA 3 montes de Carros de Combate que tinham ido de Lisboa para festejar o 25 de Novembro, já com a Base Escola a funcionar em pleno, como não percebo nada de política, aquilo fez-me muita confusão.

Saudações Aeronáuticas

Dâmaso