sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Voo 3491 A HISTÓRIA DESCONHECIDA DO MEU PÉ ESQUERDO.





Manuel Bastos
Fur.Mil.Op.Esp.
Aguim
Coimbra



Esqueci-me do meu pé esquerdo. Sei que era como o direito mas ao contrário. Não me lembro muito bem, mas acho que não era um pé muito especial, porque para além de andar e correr não me servia de mais grande coisa. Bem vistas as coisas, para o futebol eu tinha até dois pés esquerdos, era, por assim dizer, ambissinistro. Mas dava-me muito jeito para nadar. O meu amigo Vasco acompanhava-me de barbatanas na dobragem do paredão Sul da barra de Aveiro e ria-se do meu estilo pouco ortodoxo, um misto de crawl e bruços, mas não me levava vantagem por muito tempo.


Na verdade, só me esqueci da imagem do meu pé esquerdo – se teria um sinal particular, ou alguma cicatriz que o tornasse especial – pois sinto-o agora melhor do que quando o podia ver. Chame-se “sensação do membro presente” esta sensação de ter um pé… que está ausente. É diferente da “dor fantasma” porque simplesmente não dói, e faz com que o ProFlex Foot XC fabricado na Islândia pareça mais real. Este cérebro humano acha estranho que dali não venha nenhum sinal de vida e aumenta a sua própria sensibilidade para ver o que acontece. E o que acontece é que se sente um pé onde apenas está uma engenhoca de duralumínio, titânio e fibra de carbono.
Para um espírito otimista, alguma coisa de bom haveria de ter um pé de metal, mas eu ainda não descobri nenhuma, mesmo quando o cão de um vizinho me tentou ferrar. Eu ofereci-lhe a prótese, mas o faro do bicho tramou-me.
No dia de Páscoa de 1972 tiraram-me uma fotografia em Mueda, onde ele aparece pela última vez, muito sossegado ao lado do seu irmão direito. Alguns meses depois pisou o chão de África pela última vez, despedindo-se deste mundo com muito estrondo, tanto quanto seria possível com o quarto de quilo de trotil de uma mina antipessoal, tendo acabado aí a sua missão de me transportar a meias com o seu irmão simétrico.
Para ser justo, não poderei subestimar as suas qualidades, tanto mais que as várias tentativas para o substituir condignamente falharam redondamente, a começar pelo trambolho tosco e mal-amanhado que rematava a perna de pau desequilibrada e rudimentar com que os nossos parceiros alemães da NATO queriam que eu voltasse a caminhar. Vim da Alemanha com um objeto de tortura medieval que deve ter chegado para espiar os meus mais escabrosos pecados. Tanto os já cometidos como os que eu venha a cometer até ao dia do juízo final.
Os meus netos parecem achar interessante que o avô se pareça com o cyborg dos seus jogos de vídeo quando anda de calções, e pensam que deve ter sido um ato de guerra heroico que esteve na origem da minha amputação. Aqui nasceu uma dificuldade didática, porque na verdade eu dei o que dão os heróis quando combati na guerra colonial, só que uma guerra é talvez o lugar menos provável para se praticar atos heroicos, e numa guerra criminosa como esta, se não tivermos muito cuidado arriscamo-nos até a cometer crimes.
Como se explica a uma criança da geração do Google que isso foi possível apenas por desinformação? E que o país onde a chateiam para aprender imensas coisas, é o mesmo país onde um dia a ignorância era obrigatória, onde as escolas tinham um livro único e os jornais um lápis azul para os ignorantes riscarem as coisas ditas por pessoas inteligentes.
É tão difícil explicar uma coisa estúpida a uma criança inteligente como uma coisa inteligente a um adulto estúpido.
Antes de eu partir para a guerra a minha mãe parece que fez um contrato com a Nossa Senhora de Fátima para garantir que eu vinha de lá são e salvo, cujo compromisso da sua parte era ir a pé de Aguim até à Cova da Iria todos os anos. Nunca percebi o que ganhava a santa com aquilo, mas desconfiei sempre que se tratava de uma tara originada pela vida sensaborona de uma virgindade eterna. Além disso, pareceu-me que tendo vindo eu sem um pé, a minha mãe não deveria pagar a promessa por inteiro, mas não consegui convencê-la a ir a pé, digamos, até Coimbra apenas.
Um dia, no verão de 1965, na praia da Costa Nova, a Marisa sentou-se mesmo em cima do meu pé esquerdo. Com o peso da Marisa o meu pé esquerdo enterrou-se na areia e ela esteve bem meia hora naquela posição sem dar por nada. Passado um quarto de hora sem me mexer, para sentir todas as delícias da região sagrada da anatomia da Marisa, o meu pé esquerdo ficou dormente, depois acabou por ficar totalmente insensível. Foi a primeira vez que o meu pé esquerdo sofreu uma amputação, ainda que virtual, mas aquele primeiro quarto de hora teve os melhores 15 minutos que o meu pé esquerdo viveu.
No inverno de 1971, na casa de banho comunitária do quartel das Caldas da Rainha, o meu pé esquerdo, e apenas o meu pé esquerdo, desenvolveu uma infeção fúngica. O Capitão médico do quartel, num relance, garantiu com ar categórico - É pé de atleta! Soou-me, assim de repente, mais a uma distinção desportiva do que a um diagnóstico médico. O pior é que durante o resto da minha vida de militar vi-me obrigado a introduzir um gesto extra em todos os exercícios físicos: coçar o pé de atleta.
Esse martírio só terminou na picada do Chindorilho, na província de Cabo Delgado da colónia de Moçambique, exatamente às 14 horas e 12 minutos do dia 4 de Junho de 1972. Nem o antifúngico do capitão médico, nem as pomadas de todos os enfermeiros do meu batalhão resolveram o problema, só a mina antipessoal da FRELIMO lhe pôs fim.
Este desfecho fatal aconteceu ao meu pé esquerdo porque eu acreditei que era um dever humanitário ir matar terroristas para África e salvar o império. Pelo menos foi assim que eu entendi as coisas.
Sempre que precisam de mandar soldados matar alguém, convém convencê-los que são terroristas; e quando os professores, os livros e a imprensa dizem em coro que são terroristas, a gente acredita, não é verdade? O pior é quando se descobre que os terroristas são demasiado parecidos connosco, ou que estamos a rematar para a baliza errada. Cria-se-nos a confusão mental típica de quem aparece por engano num funeral vestido com uma fantasia de carnaval. Alguém se aproveitou da nossa ignorância, e o pior é que também nos mantiveram ignorantes compulsivamente desde início para melhor se aproveitarem de nós.
Se isto não é abuso moral por parte do Estado é de certo escravatura intelectual. Impediram-me o acesso ao conhecimento para poderem usar a minha ignorância.
Do Estado não exijo muito mais para mim, na reparação material da minha lesão física de guerra, ao contrário de muitos camaradas meus verdadeiramente injustiçados, mas exijo um condigno e honorável pedido de desculpas pela lesão moral, se não a mim pessoalmente, pelo menos, a título póstumo, ao meu pé esquerdo. 

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

VOO 3490 - 42º. ENCONTRO DE ESPECIALISTAS DA BA-12






Mário Aguiar
Metralha
V. N. de Gaia








Boa tarde companheiros

Anexamos a apresentação do 42º. Encontro de Especialistas da Base Aérea Nº. 12, que terá lugar na zona de Évora, sobre o comando do nosso companheiro 




José Pedras










Manuel José Lanceiro, 







Ferreira de Castro “menino” 














terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Voo 3489 BOAS FESTAS DO NÚCLEO DE LISBOA DA AEFA.



A DIRECÇÃO DO NÚCLEO DE LISBOA , deseja á DIRECÇÃO NACIONAL , a todos os NÚCLEOS , Sócios , Familiares , Amigos da Associação e a todos aqueles que connosco têm colaborado ,UM PRÓSPERO ANO DE 2019 , com muita saúde e sorte para continuarmos o nosso trabalho em prol dos nossos associados , com a dignidade que todos são merecedores.
AGRADECEMOS TAMBÉM Á DIRECÇÃO NACIONAL , todo o empenho que até á data nos tem prestado , no sentido de esta Direcção conseguir cumprir com os objectivos a que se propôs.

SAUDAÇÕES ESPECIALISTAS

O NÚCLEO DE LISBOA

domingo, 23 de dezembro de 2018

Voo 3488 BOAS FESTAS DO CARLOS ROBALO






Carlos Robalo
Esp.MMA
Lisboa







Venho desejar a todos os Especialistas da BA12 e respectivas famílias um Santo Natal e que o Ano de 2019, vos traga alegrias e muita saúde.
Um abraço de
Carlos Robalo /MMA.

Voo 3487 BOAS FESTAS DO COSTINHA.




Carlos Costa
Esp.MMA
Lisboa



Que tenhas um FELIZ NATAL e um PRÓSPERO ANO NOVO, junto daqueles que te são queridos, são os sinceros votos do companheiro de armas que muito te admira, por aquilo que és e pelo que fazes,

Carlos Costa (Costinha)

Voo 3486 BOAS FESTAS DO JOÃO CARRILHO.





João Carrilho
Esp.Melec.Inst./Av.
V.F.Xira


Um Feliz Natal e um Ano Novo cheio de saúde e alegria com a família e amigos.
João Carrilho


Voo 3485 BOAS FESTA DO MANUEL PAIS E ESPOSA.



Manuel Santos Pais e Carminda
Esp.EABT

V.N.GAIA


Prosseguindo a nossa caminhada, aí está mais

uma festa da FAMÍLIA  NATAL 2018
Para todos VOTOS DE UM FELIZ E SANTO NATAL E UM NOVO ANO COM MUITA SAÚDE E PAZ


Voo 3484 BOAS FESTAS DO SANTOS OLIVEIRA




Santos Oliveira
2ºSargº.Mil.Ranger
V.N.Gaia






quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Voo 3483 OS VAPORES DO JP4.





João Carlos Silva
Esp.MMA
Sobreda
Lisboa



Quase que intoxicado pelos vapores do JP4, tirou a cabeça do compartimento do motor e olhou atónito.
- O quê?!
- É isso mesmo, vão levar os FIAT para os Açores e não há lá ninguém que perceba disto, temos de ir nós daqui.
A notícia corria célere na Esquadra 301, parece que tinha sido decidido superiormente o envio de uma parte dos FIAT G-91 da Base Aérea nº6, Montijo, para a Base Aérea nº4, Lajes. Seriam feitos destacamentos de 2 ou 3 meses até se vir a constituir uma nova Esquadra. O que viria a acontecer em 1981 com a criação da Esquadra 303 Tigres “Em Quaisquer Outras Guerras Que Aconteçam”.
Assim, em Agosto de 1980, foi constituído o primeiro destacamento de FIAT G-91 R/4 com destino à Base Aérea nº4, Lajes – Terceira – Açores.
Confortável com a equipa criada…. Começou a mentalizar-se. No dia da partida para as Lajes, apanhou boleia do seu Pai até ao Aeródromo de Trânsito nº1, no Figo Maduro, contíguo ao aeroporto de Lisboa, onde iria embarcar no Hercules C-130 da Esquadra 501 Bisontes.
Nem tudo era mau, o mecânico de dia e que iria dar saída ao Hercules era o seu vizinho e amigo de infância, Jorge Heitor. O Jorge tinha a mesma especialidade de Mecânico de Material Aéreo, mas, era da incorporação anterior, da 2ª/78. Despediram-se com um forte abraço, até breve.
- Jorge, toma lá conta da nossa praia, até ao meu regresso…
Disse, emocionado com aquele afastamento da sua zona de conforto.


terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Voo 3482 OS PILOTOS NÃO MORREM,APENAS VOAM MAIS ALTO...




Victor Barata
Esp.Melec.Inst/Av.
Vouzela



O corpo do nosso amigo Cmdt. João Lima ficará em camara ardente hoje, terça feira a partir das 13 horas no Quartel de Sta Comba Dão.
Quarta-feira, parte para o Aeródromo de Viseu em cortejo onde chegará às 13.30 horas.
Aqui, pelos amigos e por toda a comunidade aeronáutica, irá ser prestada uma justa homenagem fazendo a sua "última rolagem" na pista de LPVZ.
Seguidamente e em cortejo, irá de LPVZ para a igreja Nova de Viseu onde se celebra missa às 15h00.
Por ultimo o corpo irá para o crematório de Viseu conforme era seu desejo e de seus familiares.

Os pilotos não morrem, apenas voam mais alto...


domingo, 16 de dezembro de 2018

Voo 3481 COM UM TIRO,DESCOBRIMOS E CAPTURAMOS UMA AMBULÂNCIA.







Duarte Príncipe
Cap.Pil.Av.
Lisboa





Decorria o mês de  Fevereiro de 1974 e como já era habitual , encontravam-se em destacamento três meios aéreos na povoação de Nova Lamego ( Guiné Bissau )com o objectivo de apoiar a zona leste do território . Normalmente este  posicionamento de meios era constituído por dois helicópteros A-III e um DO-27. A nordeste desta localidade ,  decorria a operação  " Gato -Zangado " ,chefiada  pelo Marcelino da Mata acompanhado dos  seus " muchachos "no pressuposto de interceptar e capturar material  de guerra a elementos do PAIGC  que vinham fustigando a aldeia de Copá havia já algum tempo . 
Como decorria esta operação , o destacamento foi reforçado com mais um meio aéreo ficando assim o destacamento com mais um helicanhão .
Sem conseguir lembrar o dia , fomos solicitados uma bela manhã para apoiar os COE comandados pelo Marcelino da Mata , supostamente a ser atacado por elementos da guerrilha com grande intensidade de fogo .
Por ser uma operação em zona complicada , descolamos para a posição indicada pelas forças em terra, com os dois helicanhões ( Principe +Cardoso ) e (Raul Coelho +Oliveira ) para que o apoio decorresse de forma eficaz o que aliás aconteceu  , porque assim que chegamos ás coordenadas indicadas o tiroteio parou imediatamente depois de fazer alguns disparos para acalmar os rebeldes .
Após um reporte positivo das forças terrestres , decidi dar umas voltas mais largas para intimidar mais alguém que quizesse fazer estragos .
Foi durante uma destas voltas que nos deparamos com uma silhueta estranha ,e que nos pareceu á primeira vista uma Panhar idêntica ás que o nosso exército possuía .
Depois de algumas manobras á vertical , pedi ao Cardoso para fazer um tiro,  com o intuito de acalmar algum " meliante " que estivesse por perto e com vontade de nos " abonar ".
Para grande surpresa nossa , como o tiro bateu relativamente perto do alvo , levantou-se o camuflado, pondo assim a descoberto a tal silhueta  que mais não era que uma ambulância , por sinal muito parecida com as antigas Comet de fabrico inglês .
Depois disto , em contacto com o grupo do Marcelino , foi-lhe dada orientação por mim para o local que se encontrava em território Senegalês bem encostado á fronteira que dividia os dois países . 
A tarefa de recuperação do veículo não se apresentava fácil , porque a vegetação era densa em direcção á nossa fronteira e era necessário transpou-la o mais rapidamente possível para evitar surpresas ou encontros indesejados .
Para isso, foi necessário munir o grupo com uma moto -serra e combustível , que o Raul Coelho tratou de ir buscar a Nova Lamego , enquanto eu continuei a dar protecção ao grupo , não fosse o diabo tecê-las .
Quando o Raul chegou com o tão desejado equipamento , ficou ele a dar protecção á rapaziada, enquanto eu voltava á "rasquinha " de combustível para Nova Lamego para abastecer e substituir o Raul Coelho que também já estava perto do " bingo " , ou seja , no limite de combustível .
O resto,foi uma alternância entre os dois na protecção ao Marcelino que durou até ele conseguir chegar á picada e prosseguir depois duma forma mais rápida com destino a Piche onde a ambulância  permaneceu até ser enviada para Bissau dias depois .
Esta tarefa terá demorado seguramente parte de toda a manhã , entrando pela tarde até estarmos todos num estado de esgotamento apreciável .
Curiosamente , descobri  no FB , o MMT do Exército ( Amilcar Ventura )que conduziu o veículo ao longo de todo o trajecto . Infelizmente não consigo as fotos que me enviou durante o nosso diálogo , porque ele desistiu de ser facebokiano e eu não guardei a preciosidade que as fotos representavam .
 Como a " seca " vai longa , espero ter esclarecido uma dúvida antiga , que atribuía o " achamento " da ambulância apenas ao Marcelino , não tendo contudo a intenção de chamar o sucesso da operação apenas para mim , pois o resultado positivo do que descrevo, deveu-se a todos os envolvidos .

Um abraço 

Duarte Principe 


quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Voo 3480 O ÚLTIMO VOO DO GABRIEL CAVALEIRO


Direcção do Núcleo de Coimbra da AEFA



COMUNICADO

 A direcção do Núcleo de Coimbra da AEFA vem comunicar o falecimento, do nosso colega DANIEL CAVALEIRO.
O seu corpo, encontra-se depositado em câmara ardente na Capela de Nª Srª da Nazaré em Ribeira de Frades, de onde amanhã quinta-feira dia 13 de Dezembro, pelas 9h e 45, será transladado para a igreja matriz, onde será celebrada missa de corpo presente, finda a qual se realizará o cortejo fúnebre para o cemitério de Ribeira de Frades.
Apresentamos os nossos sentidos pêsames a todos os seus familiares.
O Presidente da Direcção
José Nunes de Andrade.