António Dâmaso
Sargº.Môr Paraqª.
Azeitão
O Curso de Pára-quedismo (2)
O
Voo de adaptação
Ainda um pouco de história das Tropas
Pára-quedistas.
Legenda:Pioneiros do Curso de Espanha na Serra da Cargueira (foto
da Revista Pára-quedista N.º 8 JUN 2001)
Legenda:16 de Julho de 1959, PR passando revista à
guarda de honra na BA 3 comandada pelo Major PQ Robalo
Legenda:Porto 1 de Outubro de 1959 (foto Revista Os
Pára-quedistas n.º 20 de Março de 2009
Legenda:Um curso de Pára-quedismo equipando na Placa da BA 3 para
mais um salto (Revista Os Pára-quedistas N.º 25 de Agosto de 2010)
Praticamente passados 50 anos, ainda conservo algumas
memórias intactas:
Depois de mês e meio no duro, era uma sexta-feira, na parte da manhã
efetuarem-se a prova física que depois de efetuadas com aproveitamento, havia
uma sensação de bem-estar generalizada, a parte mais difícil
tinha sido ultrapassada, na parte da tarde vinha outra experiência, contada mas
não vivida pelos candidatos a Páras.
Chegou o desejado voo de adaptação, depois da formatura das 14 horas, lá fomos
em passo de corrida para a Placa da BA 3, formaram-se as patrulhas que eram
constituídas por dez a doze elementos e recebemos ordem por patrulha, a ir ao
camião dos pára-quedas, levantar um saco contendo um conjunto de dois
pára-quedas o dorsal e o ventral (reserva), ficamos todos formados alinhados
com os sacos afrente dos pés, depois veio a ordem seguida por gesto de equipar,
os Junkers roncavam aquecendo os motores, era mais uma rotina porque já
tinham-mos ensaiado o equipar várias vezes, sabiam-mos de cor e salteado os
nomes de cada tira do arnês, depois de equipados vieram dois monitores um por
trás e outro pela frente inspecionando se o pessoal estava todo bem equipado,
aquela inspeção transmitia-nos segurança, depois a ordem de numerar e a seguir
as primeiras patrulhas receberam ordem de embarcar e restantes ordem de “costas
com costas sentar”.
Dirigimo-nos aos aviões para embarcar,
já tinham-mos simulado embarques equipados, mas aquilo agora era a sério porque
havia o ruído dos motores dos aviões, entrámos e ocupámos os nossos lugares de
acordo com a numeração, pares à direita e impares à esquerda, os aviões
foram-se fazendo à pista, começaram a rolar com os motores acelerados, para mim
e para a maioria era o batismo de voo, o avião ia percorrendo a pista até que
senti que o avião estava no ar, era uma sensação agradável, mas só me senti
mais descansado vi que estava uma altura que em caso de avaria permitia a
utilização do pára-quedas, o avião ia ganhando altitude aquela sensação de
alegria foi ligeiramente alterada com outra desconhecida, apareceu o fenómeno
dos “poços de ar”o avião ia muito bem na horizontal e de repente parecia afundar-se,
aquilo era depois de almoço, tive a sensação de que o estômago me saltava pela
boca e houve um que não aguentou o almoço no estômago, lá foi o capacete servir
de saco de enjoo.
Para desanuviar o Monitor, com cara de gozo. Mandou a malta cantar o Hino e
depois a marcha dos pára-quedistas, aquilo animou o pessoal, depois apareceu o
que já esperavam-mos:
Acendeu-se a luz vermelha, queria dizer que estávamos a 4 minutos? Da zona de
saltos, seguiram-se as vozes sempre acompanhadas de gestos de levantar!
Enganchar! Verificar equipamento e numerar, estava tudo pronto, veio uma
pergunta que exigia uma resposta convincente:
-Vamos Saltar? Resposta alta e bom som; - Vamos! …Apareceu a luz verde com um
toque de campainha, depois o Monitor deu ordem ao militar que estava à frente
da coluna.
- Em posição! … Este deu um passo em frente, atirou o gancho e a tira
extractora para a frente, rodou para a direita e avançou mais um passo, de modo
a que a biqueira da bota ficasse saída da porta do avião, ao mesmo tempo que
assentava a nádega no calcanhar contrário, e as mãos com os dedos esticados e
unidos, num gesto do centro para fora, iam fixar-se nas ombreiras da porta,
este ritual todo porque a porta do avião tinha pouca altura e havia a
necessidade do para-quedista quando na saída ficar o mais afastado possível da
fuselagem do avião.
O militar cumpriu à risca aquilo que tinha treinado inúmeras vezes, estava em
posição só faltava o Clix que era a voz de Já.
Esta não veio e em vez disso o monitor perguntou-lhe que se ele o mandasse
saltar se saltava? Claro que respondeu alto e bom som que saltava, só que este
estava bem agarrado para não ter a tentação de saltar, constava que num voo de
adaptação um militar em situação idêntica tinha mesmo saltado, daí os monitores
estarem preocupados em os segurar, o primeiro tinha passado no teste, recebeu
ordem de levantar, desenganchar e ir para a frente do avião, este procedimento
repetiu-se a todos os elementos da patrulha, no final tinham passado no teste,
estavam adaptados, voltaram a cantar mais uma marcha e regressámos felizes por
ter concluído mais uma etapa, veio a aterragem, equipados que é uma coisa que
os pára-quedistas não gostam, quando se metem num avião é para saltar, mas por
vezes devido a condições atmosféricas desfavoráveis o bom senso determina que
se cancelem os saltos.

Legenda:Um JU 52 a
descolar.
Foto: H das TP
Legenda;Uma patrulha de Pára-quedistas
dentro de um JU.
Foto: H das TP
Legenda:Conjunto de
Pára-quedas T 10, utilizado no meu Curso
Legenda:JU 52 em pleno
voo.
Foto: Memórias das T. Pára-quedistas
Legenda:Hino e Marcha
dos Pára-quedistas publicado na Revista o Pára-quedista n.º 3 de Março de 2000
Saudações Aeronáuticas
A. Dâmaso
VB:
Bom-Dia António.
Mais uma vez nos presenteias como mais uma bela passagem tua pela grande elite
militar que são as tropas paraquedistas. Estes teus textos são de uma riqueza
tão grande que nos conseguem colocar na realidade dos factos.
Venha o próximo.