João Carlos Silva
Esp.MMA
Sobreda
Lisboa

27 de Outubro …
Olhou uma vez mais para o mostrador do seu Omega Speedmaster e para os
ponteiros que inexoravelmente iam rodando na escala do cronógrafo e pensou há
quanto tempo esperava por notícias.
Nunca mais chegavam notícias, ninguém dizia uma palavra…
Nesta espera, os pensamentos corriam a uma velocidade vertiginosa, a imaginação
voava e, como que buscando inspiração para se ir acalmando, depressa se viu a
caminhar na placa da Base Aérea nº6 em direção à linha da frente.
Logo pela manhã, tinha apanhado o eléctrico na Rua de São Lázaro e saído em
andamento na curva da Rua dos Fanqueiros para a Praça do Comércio, encurtando a
distância a percorrer para a Doca da Marinha onde, como habitualmente, apanhou
a lancha para a Base do Montijo.
Nesta fase, já não havia questões com a ocupação dos lugares entre os maçaricos
e os v.c.c. (*) e assim aproveitou para passar pelas brasas nesses trinta
minutos de travessia, hoje não haveria tempo para as conversas sobre as
namoradas ou sobre a noitada anterior.
Ao chegar ao Hangar da Esquadra, confirmou no quadro com a escala dos voos que
continuava atribuído ao 5435 e as horas a que o mesmo iria voar. Rapidamente
trocou de roupa e aí estava saindo do Hangar e caminhando na placa em direção à
linha da frente e ao seu avião, o FIAT G-91 R/4 com o número de cauda
5435.
O FIAT G-91 R/4 era um caça-bombardeiro, sub-sónico, monolugar, equipado com um
reactor Bristol Siddeley Orpheus 803/02 de 2.270Kgf de impulsão e armado na
secção do nariz com 4 metralhadoras Colt-Browning de calibre 12,7mm e podendo
levar suspenso nas asas um variado tipo de armamento como bombas de 227Kg,
bombas de 113Kg, mísseis ar-ar, armas nucleares tácticas e vários tipos de
foguetes não guiados. Nessa época, operava na Esquadra 301 Jaguares com o lema
“De Nada a forte Gente Se Temia”.
Este lema, retirado do Canto I, Estrofe 97 dos Lusíadas e que versa assim:
“Mas o Mouro, instruído nos enganos
Que o malévolo Baco lhe ensinara,
De morte ou cativeiro novos danos,
Antes que à Índia chegue, lhe prepara:
Dando razões dos portos Indianos,
Também tudo o que pede lhe declara,
Que, havendo por verdade o que dizia,
De nada a forte gente se temia.”
Com referência a tão grande historial, inspirava-nos para as missões a cumprir
nessa base operacional da Força Aérea Portuguesa e ainda hoje nos inspira.
A linha da frente era impressionante. Os inúmeros aviões alinhados e à espera
da saída para mais uma missão eram o espelho da pujança da Força Aérea no que
às missões de apoio aéreo táctico, interdição do campo de batalha,
reconhecimento, apoio aéreo a operações navais e luta aérea defensiva dizia
respeito.
Deambulando nestes pensamentos e na placa da Base Aérea nº6, passou-lhe à
frente a enfermeira em passo apressado… Olhe, por favor? Chamou. Tem
informações? De momento, nenhumas.
Inspirou fundo, procurando disfarçar o nervosismo que o queria dominar, e
regressou à Base.
Nesse percurso, entre o Hangar e a Linha da Frente, fardado no seu espectacular
blusão de cabedal em cujos ombros se destacavam as divisas de Primeiro Cabo
encimadas pelo símbolo de Especialista da Força Aérea, o jovem mecânico de
avião ajustava os óculos Ray-Ban enquanto se ia concentrando para a
missão.
Chegado ao avião, havia que proceder aos preparativos e inspeção antes de voo.
Depois de retirada a capa que cobria o “Jaguar” nº 5435, ligava a bateria para
abrir a canopy e, colocada a escada de acesso ao cockpit, assim poder proceder
à inspeção aos instrumentos e preparar a cadeira Martin-Baker, onde se sentaria
o Piloto que retiraria os pinos de segurança da cadeira antes da saída, após
estar sentado e com cintos amarrados o que iria permitir, em caso de
necessidade, poder acionar as pegas de ejeção situadas por cima da cabeça ou
entre as pernas.
Chegou o “Rochinha” com o trator, enquanto fazia a incómoda inspeção às aletas
do compressor do reactor, onde era necessário entrar pela entrada de ar do
avião até ao dito compressor e verificar se não haveria nehuma obstrução ou
dano, após o que se assinava a giz o nome e data, o Piloto na inspeção antes de
voo iria espreitar lá para o fundo da entrada de ar e verificar que lá estaria
a assinatura e que portanto tinha sido feita a inspeção. Chegou alegremente,
como era seu timbre, trazendo as latas de óleo, os cartuchos de arranque e o
pára-quedas de travagem. Passava depois a enorme Mercedes dos combustíveis que
se ouvia ao longe e em que cada mudança para entrar necessitava de uma “dupla”,
com o JP4 necessário para alimentar o reactor. Continuava a preparação para o
voo do “Jaguar” nº 5435.
Abastecimento de combustível, nível de oxigénio, nível de óleo, pressão dos
pneus, cartuchos de arranque colocados nos respectivos receptáculos,
pára-quedas na cauda. Verificação de fugas ou de algo visualmente estranho, na
fuselagem, no compartimento do motor, no trem. Tudo operacional e livro
assinado.
À hora prevista, chegava o piloto no seu fato de voo verde, fato anti-G e
capacete que procederia à inspeção 360º retirando as seguranças dos tubos de
pitot, do trem, colocando a copa do pára-quedas da cauda e fechando o
respectivo compartimento. Tudo operacional e subia para o cockpit.
O jovem mecânico subia a escada e ajudava o piloto a amarrar os cintos e a
tirar as duas últimas seguranças da Martin-Baker.
Outra enfermeira passava e notícias nada… apenas um fugaz, está tudo a correr
bem.
Chegou o bombeiro de serviço com o respectivo extintor e tudo preparado para o
arranque do Orpheus. Indicador girando no ar e sinal feito para dar sequência
ao arranque, cartucho picado seguido do característico silvo do reactor a
iniciar a sua função. Arrancou à primeira.
Mais uma volta ao 5435, olhando para o compartimento do motor e do trem para
despistar eventuais fugas agora que todo o sistema estava em carga, fecho das
portinholas do compartimento do motor, retirar calços das rodas e polegar
direito no ar, indicando tudo operacional e ok para sair. O Piloto feha a
canopy, mete motor e sai do seu lugar de estacionamento na placa da linha da
frente para mais uma missão ao serviço de Portugal.
Agora, era esperar. Esperar 45 ou 50 minutos para receber o “Jaguar” e
recomeçar os mesmos trabalhos para o voo da tarde. Neste espaço de tempo, lá na
linha da frente, pensou no historial que o rodeava. O enorme Hangar da
manutenção da Esquadra 301, já era do tempo da Aviação Naval e tinha estado
instalado no Centro de Aviação Naval de Lisboa na Doca do Bom Sucesso em Belém.
Quando se verificou a necessidade de expandir essa base de operações e foi
construído o Centro de Aviação Naval Comandante Sacadura Cabral, onde hoje se
encontrava à espera do 5435 e agora Base Aérea nº6, foi desmantelado e
transportado cruzando o rio Tejo para aí ser montado.
O FIAT G-91 R/4 a que tinha acabado de dar saída, tinha chegado a Portugal em
1965 às OGMA, Oficinas Gerais de Material Aeronáutico, em Alverca e no início
de 1966 foi transferido para a Esquadra 51 “Guerra Ou Paz Tanto Nos Faz” da
Base Aérea nº5, Monte Real, para treino de Pilotos com vista à Guerra do
Ultramar. Se calhar, até esteve, como outros R/4, na Guerra do Ultramar, não
tenho a certeza, tenho de perguntar aos “velhinhos”. Os primeiros R/4 a irem
para o Ultramar, foram em 1966 para a Base Aérea nº12, Bissalanca, Guiné onde
constituíram a Esquadra 121 Tigres, depois, em 1968 para Moçambique onde constituíram
duas Esquadras, a 502 Jaguares no Aeródromo Base nº5, Nacala e a 702 Escorpiões
no Aeródromo Base nº7, Tete. Já no final da guerra, os do AB7 foram desmontados
e transportados para a Base Aérea nº9, Luanda, para a Esquadra 93 Magníficos,
substituindo os mais antigos F-84G Thunderbird.
Estes nobres FIAT G-91 R/4 ao serviço de Portugal foram os únicos do Mundo que
serviram em teatro de guerra real.
Terminada a Guerra do Ultramar, os R/4 sobreviventes regressaram à Metrópole e
para a Base Aérea nº6, Montijo, para a então Esquadra 62, precursora da actual
Esquadra 301 Jaguares “De Nada A Forte Gente Se Temia”. Posteriormente, o
“Jaguar” 5435 cruzou o Oceano Atlântico até à Base Aérea nº4, nas Lajes,
Terceira, Açores onde fez parte de uma nova Esquadra que então se iria iniciar,
a 303 Tigres “Em Quaisquer Outras Guerras Que Aconteçam”.
Olhou para o céu e nada de aviões.
Ao mesmo tempo, no corredor do hospital, ia desesperando com a falta de
notícias.
Aproveitou para fumar um cigarro, aspirando bem o fumo para o sentir bater
fundo dentro do peito, enquanto observava o movimento daquela enorme base
operacional da Força Aérea Portuguesa. Da Linha da Frente ao Hangar, cheio de
aviões e respectivas equipas de manutenção. A Torre de Controle e os Bombeiros.
Nesse dia não estavam esquadrilhas estrangeiras em manobras, menos movimento,
portanto. Lá mais acima a Esquadra 501 “Bisontes” que operava os Hercules
C-130, a Esquadra 551 “Onde E Quando Necessário” operando os Aloutte III e a
Esquadra 751 “Para Que Outros Vivam” com os SA-330 PUMA.
Despertou-o o Godinho que preparara o outro FIAT G-91 R/4 da parelha que foi
voar, vamos embora que vêm aí os aviões.
Sr. João, chamava a Enfermeira, está tudo bem! É uma linda menina. A Mãe também
está bem.
27 de Outubro… Um dia especial para a Lena, para a Rita, para a Marta e para
mim.
Para a Marta com um beijo enorme,
Com um misto de ficção e de realidade, episódios passados há 37 anos e há 27
anos atrás.
Consulta:
Aeronaves Militares Portuguesas de Adelino Cardoso
(*) v.c.c. = Os mais antigos. Não se
pode traduzir à letra aqui, o pessoal da tropa sabe o significado.
João Carlos Silva
27/10/2017