quinta-feira, 12 de junho de 2008

O PILOTO GIL.




255-Arnaldo Sousa
Ex-Esp.MMA Guiné
Lisboa








«FUI FEITO PRISIONEIRO NA GUERRA DO BIAFRA»
Piloto de combate em Angola, Gil Pinto de Sousa estava convencido de ser o melhor aviador do mundo quando a Força Aérea o desmobilizou. Sedento de aventuras, apanhou boleia num avião de mercenários com ligações a Bob Denard e acabou por ir dar ao Biafra. Esteve lá em duas ocasiões diferentes – e à segunda foi obrigado a ejectar-se em território inimigo. Ficou preso cinco anos em Lagos. A guerra na Nigéria, primeiro grande conflito civil pós-independências africanas, fez dois milhões de mortos entre 1967 e 1970.
Nome: Gil Pinto de Sousa. Idade: 62 anos. Naturalidade: Peso da Régua. Profissão: piloto-aviador.
Gil Pinto de Sousa aos comandos do último avião em que se especializou, antes da aposentação: um Dornier da SATA (foto: Rodrigo Bento) Gil Pinto de Sousa não pode esquecer aquela madrugada de 2 de Novembro de 1969. Mesmo que o quisesse. O seu T-6, o avião que conhecia por dentro e por fora desde que se fizera piloto da Força Aérea e rumara a Angola para defender uma vaga ideia de «império», simplesmente desistiu. Perante condições atmosféricas extremas, deixou-o com um motor, uma bússola magnética – e mais nada. E, então, Pinto de Sousa teve de ejectar-se. «Nem foi bem uma ejecção. Basicamente, subi para o assento, de pára-quedas às costas, e deixei-me cair pelo vão entre a asa e o leme», conta. Resultado: passou cinco anos preso em Lagos. Foi o único prisioneiro estrangeiro da Guerra do Biafra, o primeiro grande conflito africano pós-colonial, com dois milhões de mortos em menos de três anos. Nascido em Peso da Régua, filho de mãe angolana, Gil Pinto de Sousa recebeu, como tantos outros da sua geração, o Ultramar como destino. Combatente por combatente, tornou-se piloto-aviador, seguindo o exemplo dos ídolos de infância, Pierre Clostermann e Antoine de Saint Exupéry. Mobilizado para Angola, julgava-se o melhor piloto do mundo quando o contrato com a Força Aérea cessou. «Tinham-nos dito que éramos uns tipos excepcionais e, de repente, víamo-nos apeados. E alguns de nós foram à procura de acção noutros lados», conta. É assim que se proporciona a sua primeira estada no Biafra. A viagem é feita à boleia de um Skymaster ligado a Bob Denard, mercenário francês, e inclui uma largada de munições sobre as forças rebeldes do Congo, cercadas em Bukavu, e uma perseguição feita por T-28 congoleses. Chegado a Enugu, então ainda na posse das forças secessionistas da Nigéria Oriental, Pinto de Sousa confronta-se primeiro com dificuldades logísticas. «Não havia aviões para mim. Eu era especialista em T-6, mais nada», recorda. Mas o próprio conflito biafrense vem a revelar-se um universo estranho.
«Dois exércitos mal armados, com roupas civis, viajando em carros particulares... Uma guerra de brincar, mas que fazia centenas de milhar de mortos», recorda.
Os aviões eram aparelhos recuperados a outros conflitos: bombardeiros B-25 do tempo da II Guerra Mundial ou Fokker Friendship, de transporte, armados com engenhos explosivos instalados em extintores vazios, depois empurrados à mão pelas portas dos aviões. «Mais tarde, o exército federalista haveria de ter vários MIG 15 e 21, bem como bombardeiros Il’yushin. Naquela altura, contudo, era assim dos dois lados», explica. Um dos Fokker veio a rebentar no ar, e então Gil Pinto de Sousa teve sorte. «Convidaram-me a ir bombardear Lagos como co-piloto. Mas havia todas as noites uma festa no apartamento de um de nós e, naquela noite, era no meu. Não fui», recorda. Pinto de Sousa volta então a Portugal, três meses depois, para concorrer a piloto da TAP. Recusado por suposta «psicose de guerra», vai primeiro trabalhar como piloto de mondas químicas no Alentejo. Está já na Guiné-Bissau, como comandante dos Transportes Aéreos da Guiné Portuguesa, quando o chamam de Lisboa. «Disseram-me: “Temos em Tires uns T-6 abatidos da Guerra da Argélia para mandar para o Biafra. Alinhas?” E eu alinhei.» E então começa a sua segunda aventura africana – aquela que não pode nunca esquecer. Ao todo, eram cinco os pilotos destinados ao Biafra: Artur Alves Pereira, José Peralta, Armando Cró, José Manuel Pignatelli e ele próprio. A posição de Portugal quanto ao conflito na Nigéria era uma extensão da delicada política de equilíbrios gerida por Salazar desde a II Guerra Mundial: Lisboa estava tacitamente ao lado do Biafra, a quem fornecia bens alimentares em troca de sal e petróleo, mas vendia armamento a Lagos, em especial espingardas Mauser. Estes homens, porém, não agiam em nome de Portugal – agiam em nome próprio e no da sua sede de aventuras. Cró desiste antes de partir para Abidjan, a base aliada onde os T-6 deviam fazer escala, e Peralta não chega a deixar a Costa do Marfim. Pignatelli, Alves Pereira e Pinto de Sousa, pelo contrário, partem para o Biafra a 1 de Novembro de 1969, em direcção a Uli-Ihala, no centro da faixa de 100X50 km a que as forças de Lagos já haviam reduzido o território rebelde. Só os dois primeiros, contudo, levariam a viagem até ao fim. «Eu fui o último a arrancar – e perdi-me. Não tinha instrumentos e não consegui encontrar a pista. Ainda fiz alguns quadrados de reconhecimento, mas nada», conta. É então que, sem combustível, abandona o avião. «Nunca tinha saltado na vida e sabia que podia cair em território inimigo. Senti muito medo», conta. À procura da orla da mata, preocupado em ir ao avião «destruir alguns documentos importantes», é descoberto por uma mulher que começa aos gritos.
«Vieram os aldeões e eu disse-lhes que era um piloto brasileiro que ia para Libreville. Mas não tive hipóteses. Prenderam-me.»
Preso em Lagos, Pinto de Sousa passou cinco anos quase sem contactos com o exterior. Garante que não foi maltratado na prisão, mas prefere nem falar nos interrogatórios. «O pior era não saber de nada. Estar cinco anos sem ser julgado, a ver as listas de amnistiados e sem nunca encontrar o meu nome… Foi duro.» Escrever à família era um equívoco. «Davam-me aerogramas e eu escrevia em inglês, para eles verem que não estava a divulgar informações. Mas os meus pais só receberam a primeira carta um ano e meio depois. Sabiam que tinha caído – mais nada.» Da parte do Estado português, apenas o general Diogo Neto e o embaixador Borges Coutinho, sediado em Londres, auscultaram as autoridades de Lagos para a sua libertação. E o regresso a Lisboa apenas aconteceria depois do 25 de Abril, na sequência de uma intervenção de Mário Soares numa conferência para a independência da Guiné-Bissau, realizada em Argel. O Biafra, chefiado pelo coronel Chukwemeka Ojukwo, viria a claudicar perante as forças do general Yakubu Gowen em Janeiro de 1970, sendo reintegrado na República da Nigéria. Os últimos meses da guerra concentraram as atenções do planeta: com dois milhões de mortos já contabilizados, as igrejas cristãs dispersas pela Nigéria Oriental haveriam de coordenar uma ponte aérea em direcção a São Tomé, onde mulheres e crianças desembarcando de aviões apinhados viriam a despertar a solicitude dos fotógrafos de todo o Mundo. «Se tivesse aterrado em Uli, ia ganhar 500 dólares por mês. Mas nunca fui um mercenário», garante Pinto de Sousa. E nem o facto de ter primeiro combatido ao lado do imperialismo português, e logo a seguir junto às forças anti-imperialistas do Biafra, o faz reconsiderar.
«Quando fui para Angola, ia defender a Pátria. Era o que me haviam dito. Já quando fui para o Biafra, sabia que se tratava de uma guerra em defesa dos ibos, a minoria católica, alvo das mais variadas injustiças por parte dos maometanos do Norte. Não teria nunca combatido pelo outro lado. Portanto, não fui um mercenário.»
Gil Pinto de Sousa junto ao T-6 com que combateu em Angola e, mais tarde, na Guerra do Biafra, em defesa dos ibos (foto: D. R.)
SAUDADES DE FUMAR
Gil Pinto de Sousa sabe que teria feito uma carreira mais bem-sucedida na aviação se não tivesse voltado a África, para uma segunda experiência no Biafra. «As oportunidades passam…», suspira. Mesmo assim, não se arrepende. «Se fosse agora, não o fazia. Mas, arrepender, não me arrependo… Tinha a meu favor a juventude e, embora os resultados sejam melhores quando há mais experiência, é preciso fazer na vida algumas das coisas que a juventude impõe.» Reformado da SATA, depois das mais variadas experiências na aviação comercial e privada, incluindo transportes na construção civil e na distribuição de bens alimentares em Portugal ou no estrangeiro, Pinto de Sousa entrega-se hoje a uma rotina tranquila, feita de passeios a pé por Leça da Palmeira, onde vive, e de visitas ao Estádio do Dragão, no Porto, para ver os jogos de futebol. «Tenho sobretudo saudades do tabaco», diz. «Fumava quatro maços por dia e, quando me foi diagnosticada doença obstrutiva crónica, tive de parar. Isto foi há dez anos. E o cigarro era um companheiro extraordinário…» (Correio da Manhã, 26 de Fevereiro de 2006)