

Nuno Tiago Pinto ouviu 50 testemunhos que fazemparte deste livro e descreve os momentos maisdramáticos das suas experiências nos cenáriosda guerra colonial – Angola, Guiné e Moçambique.Relatos impressionantes, na primeira pessoa, decoragem e de amizade, de medo, heroísmo,desespero, de soldados, médicos, enfermeiras quecombateram em nome da pátria.
António Lobato
Maj.Pil.Av.
Algueirão - Sintra
Nunca Tinha saído de Portugal.Quando começaram a pedir voluntários para a Guiné , ofereci-me. Estávamos em 1961.Cheguei lá a 26 de Julho e não estava à espera do que lá fui encontrar. Depois de uma viagem de 11 horas, com paragem em Las Palmas, o avião fez escala em Bissalanca para me largar e a outro colega, antes de seguir para Cabo Verde. Na descida comecei a sentir um calor enorme e cheguei a pensar que o avião ia arder. Mas não. Era do clima. Lá em baixo o aeroporto era um bocado de asfalto no meio de capim com dois metros de altura. Estava escuro como breu e, além de uma casinha com uma suposta torre, não havia mais nada. Nem sequer aviões.
Meia hora depois de chegarmos lá apareceu um rapaz, radiotelegrafista, que só lá estava porque de vez em quando passavam por ali os P2V5 que saiam do Sal. Ele sabia que íamos chegar e foi buscar-nos num jipe.
Apresentou-se e levou-nos para Bissau. Só havia um hotel na cidade – que estava cheio, tal como todas as pensões porque o pessoal tinha saído todo do mato e queria ir embora. Acabamos por dormir num colchão no chão do quarto dele. No outro dia corremos a cidade à procura de outro sitio e não conseguimos nada.
Passados três ou quatro meses lá apareceram dois aviões empacotados no porto de Bissau.
Ao chegar ao objectivo senti qualquer coisa no avião. Devo ter sido atingido por uma bala. Disse ao meu asa que ia sair dali e pedi-lhe que se pusesse debaixo de mim para ver se havia alguma coisa na zona do trem se aterragem. Foi o que ele fez. Mas quando temos outro avião por cima é preciso termos cuidado para não sermos sugados. Não sei se foi por falta de experiência, distracção ou apenas por estar a olhar para cima, mas, quando dei por isso, ele estava a passar-me à frente, encostado ao motor. O avião começou a tremer e tive que o desligar. Ainda lhe dei dois ou três gritos para que endireitasse o avião mas ele foi a pique e lá ficou.
Vi uma clareira e não me ejectei. Achei que era capaz de lá meter o avião. Aquilo era um campo de arroz e ao aterrar as saliências das metralhadoras e dos rockets encaixaram nos sulcos e as duas asas saltaram como se fossem arrancadas à mão . A fuselagem deu duas ou três cambalhotas e saí de lá ileso. Só tinha o relógio esmagado. Olhei à volta e vi um grupo de indígenas a uns 50 metros a olhar para mim, espantados. Fui direito a eles. Estavam todos de catanas na mão. Sabia que Catió era numa determinada direcção e perguntei se algum me podia indicar o caminho que, quando lá chegasse, lhes pagava.
Atei um lenço à cabeça para tirar o sangue dos olhos e fiquei à espera. Houve um que apareceu. Ficámos a olhar um para o outro. Eu peguei na minha faca de mato e levantei-a. Ele disse:”Dá a faca”Nestas alturas há alguma coisa que nos diz como devemos decidir. Sei que a virei e atirei-a. Ele deu um grito e lá veio a outra rapaziada toda. Saímos do meio das lianas e voltaram a dar-me uma serie de catanadas, uma delas nas costas. Ainda estão marcadas. Depois levaram-me para aldeia. Pelo caminho foram-me tirando a roupa, anéis, o fio que trazia ao pescoço. Estavam a preparar-se para me linchar quando chegaram dois guerrilheiros. Foi a minha sorte.
Mandaram-me sentar e perguntaram-me o que se tinha passado. Depois disseram-me para descansar porque íamos partir à noite. Antes quiseram saber se tinha fome. Mandaram os aldeões subir a uma mangueira e eles começaram a atirá-las cá para baixo. Nunca comi tantas mangas na vida. Foram dezenas. Tinha perdido imenso sangue. Logo depois, adormeci. Só acordei à noite, quando me chamaram. Andámos a pé uma semana até chegarmos à região onde estava o Nino Vieira, que era o comandante da zona sul. Ele disse-me que tinha tido sorte: a ordem do Amílcar Cabral para fazer prisioneiros só tinha chegado há 15 dias. De qualquer forma tinha poder para me fazer o que quisesse.
Perguntou-me:
“Tenho”
“Queres escrever-lhes uma carta?”
“Para quê? Isto nunca mais lá chega.”
“Como quiseres.”
Depois tirou um bocado de papel e uma caneta e deu-mas.
A minha mulher tinha vindo para a Guiné em 1962 e resolvi escrever-lhe umas oito linhas a dizer-lhe:”Não te preocupes que qualquer dia volto.”E um mês depois ela recebeu-a.Por volta das 22h00,um guerrilheiro entrou-lhe em casa.em Bissau, cansadíssimo. Perguntou-lhe se tinha leite, bebeu uns dois litros e entregou-lhe a carta.
Nessa altura já devia de estar na Guiné-Conacry.Fui num barco que eles apanharam à Casa do Comércio,o Bandim; para Vitória. Estava lá um curandeiro que decidiu tratar-me. Tirou-me o lenço e lavou-me com álcool ou qualquer coisa parecida porque isto nunca mais sangrou.Nas costas ainda tinha um golpe aberto por uma catanada. Disse-me:”Vamos coser isto”Deitou-me numa marquesa e deu-me uma garrafa de vinho para custar menos. Bebi. Era bom,português.Ele lá me coseu com uma agulha de coser sacos.
Chega-se a um ponto na dor em que em já não se sente nada, passa-se para o outro lado. O certo é que aquilo resultou. Nem sequer infectou.

Estava numa cela de três metros por dois. Sozinho. Comecei logo a planear uma fuga. Anos depois, graças a um guineense, cheguei a ter três ferros da grade cortados. Ele era funcionário do tesouro antes da independência e depois continuou nas mesmas funções. Só que em vez de mandar o dinheiro para as contas da Guiné,em França, mandava para a dele. Ele tinha estado no Brasil e falava português.Odiava aquela gente toda. Através da mulher, que ia visitá-lo de 15 em 15 dias,ofereceu-se para enviar notícias para cá. Conseguiu passar-me papel e lápis por baixo da porta e eu escrevi. As cartas iam para uma irmã dele na Guiana Francesa e dai para Portugal.
Aquilo tinha 400 prisioneiros de delito comum, que faziam trabalhos forçados todos os dias. Nunca lá entrou um médico. Eu era o único branco.

Ao fim de dois anos comecei a ir ao recreio por uma hora, mas sozinho. Nunca me bateram, nem mesmo quando me apanharam a tentar fugir. Insultaram-me e mais nada. Até quando as nossas tropas entraram na GuinéConacry foi lá um ministro que mandou abrir a porta, mas só para me insultar. A certa altura chegou um soldado português que, ao fim de um ano e meio foi libertado através da Cruz Vermelha. Quando voltou a Portugal disse à minha mulher que nunca mais de lá saia porque dizia que, quando isso acontecesse, os bombardeava. Não eranada,mas ele disse isso.
Nessa altura dali para fora e oito dias pelo mato a alimentar-nos de tudo o que aparecia. Uma noite, tivemos que andar um bocado pela estrada porque não tínhamos outra hipótese. Meia dúzia de depois apareceram uns enormes, sem armas, todos vestidos de branco, de saia até aos pés. Eram Fulas.
“Portuguesi?”
“Não.”
“Ahhh portuguesi.Vamos embora.”
“Não.Não.”
“Ahh portuguesi,está tudo bem.”
Chegamos a uma aldeia e nem se preocuparam connosco.Foram rezar e as mulheres encheram umas cabaças de arroz e carne. Chamaram-nos para comer e nós lá fomos. Depois levaram-nos para uma cidade onde havia polícia. O militar perguntou-nos:”Vocês fugiram,tudo bem é esse o dever de um prisioneiro. Não há problema.Mas vão ter de me dizer como conseguiram.”Respondi-lhe que era “mezinha de branco”.Até hoje não sabem como.
Quando à prisão,tinha o director na minha cela.Estava ali porque se eu não aparecesse ele tomava o meu lugar.Era assim.Passados uns dias os homens do PAIGC levaram-nos paraConacry,onde estavam mais de nossos.Se não tivéssemos tentado escapar se calhar não tínhamos ido para lá e acabávamos por não ser libertados:A Operação Mar Verde foi nesse ano.
A altas horas da noite começamos a ouvir tiroteio que se afastava e aproximava. A dada altura caiu uma bujarda em cima da prisão. Deitei-me encostado à parede até alguém abrir um rombo na parede e gritar:”Lobato”.Era o tenente fuzileiro Cunha e Silva. O instinto fica tão apurado que parece vemos e advínhamos tudo .Perguntou-me pelos outros que estavam na outra ponta da prisão. Foram buscá-los e direito aos barcos.
Quando cheguei a Portugal só pude ver a família passado oito dias. Fui levado para Caxias e fiquei guardado por dois pides. Não se podia divulgar que tínhamos estado em território -Conacry. Antes de ir à televisão tive de assinar um papel a comprometer-me a dizer que tínhamos fugido. Os ministros foram ver a gravação e depois de confirmarem que estava tudo bem é que me deixaram ver a minha mulher. Tinham passado mais de sete anos.
VB: Bom Dia.
Depois de reposta a anomalia que condicionou o tráfego nesta base,mais uma vez o nosso pedido de desculpa pelo facto.