segunda-feira, 23 de julho de 2018

Voo 3438 "NINGUÉM ERA DEIXADO PARA TRÁS "





Francisco Serrano
Esp.MMA
Costa da Caparica

Legenda: O Zé Raimundo fazendo uma evaquação em pleno teatro operacional.



Legenda: O registo da operação na Caderneta de Voo do Zé Raimundo.



Não tenho dados oficiais, só o conhecimento obtido no desempenho como Mecânico de Helicópteros nos dois anos de comissão em Moçambique 71/72 nos três Distritos de intervenção militar, Niassa, Tete, e Cabo Delgado. 
Em todos se combateu, sofreu e morreu, mas quando lembramos esta nossa passagem por terras de África, á um local que vem logo á memória pela sua carga emocional, e onde tanta desgraça aconteceu.
MUÉDA----terra da guerra 
Logo na chegada após a aterragem sentiase que o local tinha algo de inquietante e imprevisível, pairava no ar uma enorme tensão num ambiente pesado a fervilhar de emoções. 
Era a linha da frente com aquele movimento intenso de homens, máquinas e aviões partindo e regressando das mais diversas missões. Ali a união, a camaradagem, a entreajuda, e a solidariedade éram muito fortes. O instinto de sobrevivência, o querermos regressar sãos e salvos das missões não nos impedia do cumprimento do dever como Melitares. O primeiro contacto com a guerra e toda a destruição de vidas humanas foi um choque enorme. 
16 Abril de 1971--Alouette lll 9353
Muéda---picada de Nangade--Muéda 40 minu.
Piloto--Furriel Cardoso (NIPON)
Mecânico--Primeiro Cabo M.M.A. Serrano
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Ao posto de rádio do A.M. chega um pedido de evacuação de zero horas na picada de Nacatári. Descolámos de imediato e diretamente da placa, cruzámos o A.M. sobre as suas instalações em direção á picada que ali perto começava a descer o Planalto, voámos sobre ela em vôo rasante e vertiginoso ao encontro da coluna melitar que avistámos poucos minutos depois; o cenário não ajudava nada para quem agora iniciava o primeiro destacamento. 
A primeira viatura completamente destruída mais parecia um amontoado de ferro retorcido ao lado de uma enorme cratera aberta pelo rebentamento de uma mina anti carro reforçada com bomba de avião, os Melitares abrigados debaixo das restantes viaturas em posição de combate completavam a imagem do teatro de guerra. 
Baixámos sobre uma clareira onde mal cabía o helicóptero e quase não se distinguiam os camaradas com os seus camuflados confundindose com a densa vegetação. 
Eu inexperiente e desorientado não conseguia dar as indicações corretas ao piloto para a aterragem, que felizmente sozinho lá pôs as rodas no chão. 
De imediato passei as duas macas aos camaradas e saltei para fora do heli para proceder á recolha dos feridos; na maca inferior um morto, na superior uma lona embrulhada como uma trouxa, fechei as duas portas traseiras, e quando vou entrar para o meu lugar vejo que estão dois camaradas sentados á frente um em cada banco com os rostos desfacelados sangrando abundantemente, fardas completamente rasgadas mostrando pernas e braços ligados. 
Fiquei sem saber o que fazer, o Piloto e amigo Furriel Cardoso esbracejava e gritava para eu entrar rapidamente e sairmos dali, e eu sem saber como ! os nervos éram enormes.
Lá fechei a porta da frente, abri a de trás esquerda, entrei e fiquei em pé entalado entre as macas e a porta traseira debruçado sobre sobre a maca superior com a cabeça de encontro á trouxa.
Descolámos , momentos depois devido ás atribulações do vôo e ao meu encosto, a trouxa abriuse junto do meu rosto, e aí revelouse toda a crueldade e horror da guerra. 
Eu já vinha sentindo um cheiro estranho, fiquei sem pinga de sangue perante aquele cenário Dantesco, eu estava ali comprimido entre mortos e feridos, ali naquela trouxa estavam pedaços do que momentos antes tinha sido um ser humano, um jovem que tinha família e amigos, que amava, que sonhava, e uma vida pela frente ceifada horrivelmente .
No Hospital o pessoal médico e de enfermagem habituados a estas desgraças do dia a dia da guerra no Planalto dos Macondes, alguns não deixaram de levar as mãos á cabeça com a visão de mais este quadro arrepiante. 
De regresso ao A.M. aterrámos, rolámos da pista para a placa, estacionámos, dirigime para o hangar como que abstraído de tudo á minha volta, os meus camaradas na entrada do portão olhavam para mim em silêncio, não disse uma palavra. 
Entrei; abri a porta da secção dos Helis, senteime num caixote apoiei os dois braços na mesa, deitei a cabeça e descarreguei toda a tensão acumulada, chorei copiosamente, não compreendia não queria acreditar em tudo aquilo que tinha vivido momentos antes , o meu cérebro era um turbilhão de pensamentos, de vez em quando um amigo abria a porta pousava a mão no meu ombro tentando acalmar-me , talvez o Ferreira, ou o Jorginho, não me lembro bem, eles eram mais velhos com alguns meses de avanço nestas missões. 
Foi uma primeira e dura experiência que me marcou para o resto do tempo de comissão, avivou e reforçou o sentido de solidariedade para com todos aqueles camaradas que nas zonas de combate, nas matas nas picadas precisavam da nossa intervenção e ajuda para salvar suas vidas. 
Nunca poupámos esforços nas mais adversas situações de perigo, e sempre com o risco das nossas próprias vidas. 
NINGUÉM ERA DEIXADO PARA TRÁS.

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