José Guedes
Cmt.TAP
O PIRATINHA - Parte III
João Sá Coutinho era um diplomata à moda
antiga, um homem educado, afável e ponderado com muitos anos de experiência na
carreira diplomática, a pessoa ideal para levar a bom termo uma missão deste
tipo. Porém faltava-lhe a capacidade para fazer milagres e isso notou-se quando
nos transmitiu a resposta do primeiro ministro Sá Carneiro:
- Lamento, senhor Comandante, mas o primeiro ministro diz que a esta hora os
bancos estão fechados e não será possível reunir qualquer quantia em dinheiro
com essa dimensão. Quanto ao salvo conduto, essa figura pura e simplesmente não
se aplica às actuais circunstâncias.
Belo sarilho. E agora?
O nosso amigo (agora já podia tratá-lo como tal) continuava sentado no cockpit
com a arma na mão, ouviu tudo através dos alto falantes e não deixou de
manifestar a sua decepção.
- Estamos mal, disse. "As coisas começam a complicar-se.
Isto podia parecer uma ameaça mas preferi pensar que não seria mais que um
desabafo de alguém que começava a sentir-se encurralado. Era preciso agir
depressa e sobretudo manter o bom senso.
Estávamos nós em plena conversa tentando encontrar saídas para a situação
quando alguém bateu à porta do cockpit. Era a Chefe de Cabina e trazia consigo
um passageiro que tinha uma proposta para apresentar. Abrimos a porta e
deixámos entrar o passageiro, um homem de meia idade com a pele muito branca e
cabelo claro que se apresentava como diplomata ao serviço da Suécia. Falava um
razoável português e logo lhe perguntámos ao que vinha:
- Gostaria de poder ajudar a encontrar uma solução, disse. Sou sueco,
diplomata, e acredito que a mediação de uma entidade neutra poderá desbloquear
a situação.
A ideia não me pareceu particularmente interessante, que raio faria um
diplomata sueco no meio disto tudo, mas tanto bastou para que a esperança do R
renascesse e logo ali lhe deu inteira liberdade para actuar:
- Pois então diga lá qual é o seu plano.
Foi então que aconteceu um dos episódios mais caricatos daquela noite que já de
si não tinha muito de normal. O embaixador da Suécia em Espanha foi chamado a
comparecer na Torre de Controle do aeroporto de Barajas para negociar a
libertação de um avião português mantido sob sequestro em solo espanhol e que
tinha a bordo umas dezenas de cidadãos portugueses. Além do tal diplomata
sueco, claro. Cerca de meia hora depois de ter sido chamado o surpreendido
embaixador da Suécia chegou à Torre de Controle e pediu para falar via rádio
com o seu insensato patrício que continuava no cockpit a saborear o seu momento
de glória. Seguiu-se um diálogo em sueco que foi subindo gradualmente de tom,
tudo levando a crer que o representante do Reino da Suécia em Madrid não tinha
gostado nada de ser chamado a meio da noite para se envolver numa crise com a
qual nada tinha a ver. Quando terminou a gritaria (sim, os suecos também
gritam) percebi que aquele bizarra tentativa tinha falhado:
- Lamento mas o nosso embaixador diz que nada pode fazer, admitiu pesaroso o
diplomata sequestrado.
- Eu ficaria muito surpreendido se acontecesse o contrário, acrescentei. E
pareceu-me que ele ficou tão irritado com a vossa conversa que nem com a sua
libertação se preocupou.
- Pois. De facto…
- Enfim, obrigado pela tentativa. Mas se me permite uma pergunta, qual é o seu
estatuto na carreira diplomática?
- Eu? Sou vice cônsul da Suécia em Portimão.
- Vice cônsul da Suécia em Portimão???, repeti. Realmente hoje não é o meu dia
de sorte.
Ainda hoje não entendo o que terá passado pela cabeça do nosso passageiro sueco
para se arriscar a levar, como suspeito que levou, uma enorme reprimenda do seu
embaixador. Estaria em busca dos seus 15 minutos de fama e glória ou foi apenas
uma ideia pouco lúcida provocada pelo stress da situação? Agradeci a tentativa
e pedi-lhe que regressasse ao seu lugar, o que fez de imediato. Fim da mediação
diplomática.
O tempo passava e as negociações tinham chegado a um impasse. O embaixador Sá
Coutinho continuava na Torre de Controle e íamos trocando algumas palavras via
rádio sem que se vislumbrasse uma saída para a crise. À medida que o tempo
passava a situação ia-se degradando. O R começava a revelar claros sinais de
fadiga física e psicológica que poderiam sugerir dois caminhos: uma rendição
incondicional que poderia ter sérias consequências para o próprio ou uma acção
violenta provocada pelo desespero. Era necessário usar da máxima prudência e
bom senso para conseguir que esta história tivesse um final relativamente
feliz.
Dado o aparente bloqueio da situação resolvi jogar as cartas todas e
convidei o R para uma conversa a sós no cockpit. Aceitou. Foi então que dei por
mim em plena noite madrilena sentado aos comandos de um Boeing 727 da TAP a
falar sobre a minha família com o jovem que me mantinha sob sequestro. Mostrei
fotografias da minha filha nascida dois anos antes (é linda, não é?), falei da
minha mulher, da minha mãe, enfim, das mulheres que marcavam a minha vida
sabendo que o R era sensível ao assunto. Afinal ele já tinha dito que a própria
mãe tinha um relacionamento problemático com o marido e que o assalto ao avião
pretendia chamar a atenção para isso mesmo.
- Que achará a tua mãe de tudo isto, R?, perguntei sem grande expectativas em
relação à resposta. Não respondeu na altura mas viria a responder mais tarde.
Já lá iremos.
Ocorreu-me então fazer uma proposta que só a mim comprometia. Tinha consciência
que podia estar a exceder as minhas responsabilidades mas também sabia que tudo
era preferível a uma intervenção armada por parte das forças policiais. Decidi
arriscar:
- Sabes, R, o meu pai é juiz conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça, o
órgão mais importante e prestigiado do sistema judicial português. Ele próprio
é uma pessoa muito respeitada e as suas opiniões são ouvidas com atenção sempre
que se fala de Direito. Quando isto acabar irei pedir-lhe que use a sua
influência para que este caso seja tratado com a maior compreensão e
benevolência possíveis. Tu és muito novo, tens a vida pela frente, os juízes
saberão dar-te uma nova oportunidade.
Não tive resposta. R fechou-se sobre si próprio parecendo reflectir sobre o que
havia sido dito. Tinha um brilho especial nos olhos, talvez uma lágrima tivesse
escapado ao seu controle.
- Vamos fazer um acordo, insisti. Se me entregares a arma prometo que vamos
fazer tudo para que este incidente termine em Lisboa. Temos que sair daqui
porque os espanhóis são terríveis a tratar destes assuntos, não podemos
arriscar. Quando chegarmos a Portugal eu digo às autoridades que a tua pistola
estava descarregada, sem balas. Juro pela família que há pouco te dei a
conhecer.
A ideia pareceu ser bem recebida, o que me deu um novo alento. Ficámos uns
instantes em silêncio, olhámos duas ou três vezes um para o outro como que à
procura de sinais que falassem mais que as nossas palavras. Até que surgiu uma
esperança:
- Prometes?, perguntou.
- Prometo, em nome da minha família. E prometo também que tudo farei para que o
teu castigo não seja demasiado severo. Terás em mim um amigo para o resto da
vida.
Isto não era apenas estratégia de negociação. Era a Síndrome de Estocolmo no
seu melhor, assaltante e assaltado unidos por uma torrente de emoções que só
podia levar a um de dois caminhos: sucesso ou tragédia.
- Vou pensar no assunto, disse. Preciso de tempo.
- Tens que libertar os passageiros que ainda estão a bordo, insisti. Está lá
fora uma força policial pronta para intervir e não podemos permitir que eles
corram riscos. Além do mais estão famintos e nervosos.
Houve uma pausa. R olhou então para mim e disse com a voz embargada:
- OK, vamos deixar sair os passageiros e as hospedeiras, mas vocês (pilotos e
operador de sistemas) ficam a bordo. Isto ainda não acabou.
Boa noticia. A aventura aproximava-se do fim e agora bastava manter a calma
para que ninguém deitasse a perder o trabalho até aí pacientemente
desenvolvido.
Informámos a Torre de Controle que mais pessoas iriam abandonar o avião através
da escada estrutural e demos então instruções à Chefe de Cabina para que
procedesse de acordo. O Operador de Sistemas ficaria responsável pela recolha
da escada estrutural caso todos os comissários e assistentes de bordo
decidissem abandonar o avião mas algo me dizia que tal não viria a ser
necessário.
O ambiente dentro do cockpit continuava tenso. A negociação continuava e as
emoções iam subindo de tom. Num dado momento pareceu-me ver uma lágrima a
escorrer pela face do R e isso bastou para que eu próprio começasse a largar um
rio delas. Passei a sentir-me protagonista de uma telenovela mexicana de quinta
categoria mas isso até me parecia de bom agoiro pois ao que consta todas as
novelas, mexicanas ou outras, costumam ter um final feliz. Eu até nem aprecio
particularmente cenas "lamechas" mas sabia que as emoções poderiam
desempenhar um papel crucial na solução deste problema. Por outro lado todos
nós revelávamos já sinais de acentuada fadiga física e psicológica, só
queríamos que o pesadelo chegasse ao fim o mais depressa possível.
Os passageiros abandonaram então o avião e sem surpresa verifiquei que a
tripulação de cabina optara por ficar a bordo acompanhando assim os seus
colegas de cockpit naqueles momentos decisivos. Grandes profissionais, feitos
daquela mesma massa que permitiu a uma companhia de aviação de um pequeno país
tornar-se numa referência da indústria a nível mundial em menos de trinta anos.
Mas não se tratava apenas de profissionalismo, tratava-se de solidariedade e
respeito para com os colegas que ainda continuavam sob ameaça. Ainda hoje, mais
de trinta e cinco anos passados sobre os factos relatados, fico sensibilizado
ao recordar tão nobre gesto.
Finalmente R decidiu entregar-me a arma e as balas, ou melhor, algumas balas e
a arma. Eu explico. Numa primeira fase vieram apenas as munições, cinco no
total, facto que não me deixou completamente satisfeito:
- Então e a arma? E o resto das munições?, perguntei. Olha que eu fui militar,
andei na guerra de Angola e sei que as pistolas costumam ter seis balas ou
mais, raramente têm menos.
Fez-se um breve silêncio e depois veio a resposta completamente inesperada:
- A sexta vai ser para mim. Isto já não tem saída.
- Mas tu estás parvo ou quê?, ataquei de imediato armado em pai de um filho
apanhado em flagrante a fazer um enorme disparate.
- Então agora que já encontrámos uma solução para o nosso (e acentuei o
"nosso") caso é que tu queres estragar tudo? Nem penses, não o vou
permitir.
A voz grossa e o tom com que falei pareciam ter surtido algum efeito. Trocámos
mais algumas palavras e depois, mais minuto menos minuto, mais lágrima menos
lágrima, a verdade é que a pistola acabou mesmo no interior da minha mala de
voo. As balas, meia dúzia delas, ficaram no meu bolso. Estava ganha a parte
mais importante da batalha. Demos um forte e emocionado abraço, como fariam dois
amigos de longa data, e logo depois partimos a informar o resto da tripulação
que tínhamos chegado a um acordo. Agora era preciso convencer os espanhóis a
deixarem abastecer o avião para que pudéssemos regressar a Lisboa, alegadamente
ainda sob sequestro. Era mentira, mas tratava-se de cumprir uma das promessas
que foram feitas ao longo da noite: não iríamos entregar o R às autoridades
espanholas.
O primeiro a saber das nossas intenções foi o embaixador Sá Coutinho, que se
manteve todo o tempo em contacto connosco a partir da Torre de Controle de
Barajas. Anos mais tarde, durante um fim de semana que minha mulher e eu
passámos a seu convite na Villa Elia, Embaixada Portuguesa no Vaticano, João Sá
Coutinho dir-me-ia que toda a gente entendeu a nossa "mentira", a
começar pelos espanhóis. Mas como o que eles queriam verdadeiramente era
verem-se livres de nós fingiram acreditar que o avião continuava sob sequestro
e mandaram abastecer os tanques de combustível de acordo com as nossas
instruções ao mesmo tempo que mandavam desmobilizar as forças de segurança que
ainda se mantinham em posição de assalto. Estava ganha a última batalha, agora
só tínhamos que voltar para Lisboa em segurança e entregar o R às autoridades
portuguesas.
Com os tanques de combustível abastecidos e os motores em marcha dirigimo-nos
para a pista de serviço e aguardámos autorização para seguir viagem. Uma vez
obtida a "clearance" para a partida o comandante assumiu o controle
do aparelho e efectuou a descolagem enquanto eu ia executando os procedimentos
complementares. Uma vez no ar, com o avião "limpo" e a ganhar
rapidamente altitude, foi a minha vez de anunciar ao Controle de Tráfego Aéreo
que o sequestro tinha terminado e que o Boeing 727 da TAP iria regressar a
Lisboa. Agradeci toda a colaboração prestada pelas autoridades espanholas e
aproveitei para enviar um abraço muito especial para o embaixador Sá Coutinho,
nosso anjo da guarda durante as horas em que estivemos sob ameaça no aeroporto
de Madrid.
A viagem até ao Aeroporto da Portela durou pouco mais de 50 minutos,
ligeiramente mais rápida que o habitual já que todos nós estávamos ansiosos por
dar esta aventura por terminada. Mas ainda havia muito para fazer e alguns
"nós" para desatar. Por exemplo, eu guardava na minha mala de voo uma
pistola e as respectivas munições e interrogava-me se à chegada iria ter
coragem para mentir às autoridades portuguesas declarando que a arma não tinha
balas. Mas tinha assumido um compromisso com o R e teria que o respeitar, desse
lá por onde desse. Se a mentira tivesse consequências só teria que as assumir
mas o importante mesmo era honrar a palavra dada, princípio sagrado de que
nunca abdicaria.
O "Bissau" aterrou na pista 36 da Portela e dirigiu-se imediatamente
para um lugar de estacionamento discreto longe dos olhares dos jornalistas e
dos curiosos. Note-se que desde o fim da tarde da véspera a rádio e a televisão
(RTP) davam frequentes informações sobre o sequestro do avião da TAP, pelo que
todo o país aguardava com preocupação e ansiedade o desfecho desta crise.
Quando o Boeing se imobilizou reparei que havia nada menos que seis carrinhas
da PSP cheias de agentes à espera do nosso "piratinha" agora
promovido à condição de inimigo público.
O primeiro a subir a bordo foi o comandante da força de polícia, o meu bem
conhecido Capitão Nortadas, responsável pelo destacamento permanente da PSP no
aeroporto com quem já tivera várias reuniões no âmbito da comissão FAL-SEC a
que ambos pertencíamos, ele em representação das forças de segurança e eu do
Sindicato dos Pilotos. Entrou no avião, cumprimentou os tripulantes, deixou
para mim um rápido "ah, era você?" e de seguida convidou o R a
acompanhá-lo, ao que este acedeu de pronto.
- Então, e a arma?, perguntou.
- Está aqui, senhor Capitão, respondi.
Dito isto entreguei-lhe a pistola que tinha em meu poder. Olhou-a com cuidado,
mexeu, remexeu e depois perguntou:
- Então e as munições?
- Não tinha, senhor Capitão, menti descaradamente.
- Não tinha??? Tem a certeza do que está a dizer?
- Absoluta. O rapaz não queria fazer mal a ninguém, foi só uma aventura
disparatada, menti novamente com a consciência que estava a proteger alguém que
durante várias horas me apontara uma arma pronta a disparar. A Síndrome de
Estocolmo não parava de me apoquentar.
(Continua)
Origem do voo
O Aviador